A burocratização do tempo livre

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

A criação e avanço das leis trabalhistas nos países industrializados instituiu o direito às férias remuneradas para os assalariados, que podem chegar até a 30 dias no ano e provocou um forte estímulo na expansão da atividade turística.

Um outro acontecimento que impacta diretamente no desenvolvimento do turismo é a redução da jornada de trabalho que já ocorre em países como a França e Alemanha, aumentando o tempo livre.

Férias. Idílicas férias. O que antes era um privilégio dos nobres e burgueses, foi ampliado para a classe trabalhadora assalariada, dentro dos limites do mercado de trabalho formal.

O direito ao lazer pela classe trabalhadora, que propugnava Paul Lafarge, foi conquistado. O lazer é definido como o “tempo isento de qualquer limitação e que pode ser consumido ou utilizado à maneira de cada um”. Pode ser dividido em três partes: o tempo de lazer após o trabalho; o tempo de lazer de fim de semana e o tempo de férias.

O aumento de renda da classe trabalhadora americana, o desenvolvimento das redes de transporte, como o avião a jato, propiciou a expansão de um tipo de turismo para assalariados americanos, em direção à Europa Pós-Segunda Guerra Mundial, num continente ávido por divisas para a recuperação econômica.

É o tipo de turismo em grupo ou pacote turístico, que as agências de viagens, isto é, operadoras de turismo, oferecem a grupos de turistas “com tudo incluído” nas férias e fins de semana prolongados.

Usar as férias de verão para o turismo virou uma obsessão no riquíssimo país francês, por exemplo. Motivo de status social ou – pasmem – desprezo social. Há casos de famílias que, impossibilitadas financeiramente de viajar, passam todo o mês de agosto escondidos nas suas calorentas casas, fingindo que estão em viagem de férias.

Aqueles que podem, optam pelos econômicos e competitivos pacotes turísticos “com tudo incluído”, quer seja estadia, viagem, locais de passeio e visitação, ou mesmo jantar-espetáculo. O turista confia às grandes operadoras o modo como irão usufruir suas férias, o lugar para onde irão, o sistema de transporte, a maneira de ocupar o tempo, o hotel em que vão se hospedar, a comida que lhes será servida e até a recreação e entretenimento de que irão desfrutar.

O funcionário da operadora (guia turístico) vai induzi-lo em que loja comprar, o que comprar etc. Esta prática costuma gerar conflitos entre turistas e seus guias manipuladores, quando o turista desconfia que está sendo um pato (otário).

Disso resulta a organização do tempo livre, a burocratização do tempo livre (lazer). Daí que a idéia de tempo livre como tempo isento de qualquer limitação e que pode ser utilizado à maneira de cada um é uma realidade cada vez mais distante do “homem organizacional”, o ser humano tutelado, aquele que nasce, cresce, se diverte e um dia vai morrer sempre dentro de quadros organizacionais/burocráticos.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]