Verão na Bahia | Por Juarez Duarte Bomfim

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Verão na Bahia, temporada paradisíaca. É como se a cidade se engalanasse para um feriado nacional… semi-permanente… infinito enquanto dure.

As praias da cidade são um atrativo a mais, junto com as inumeráveis festas. O poetinha camarada certa vez cantou a delícia que é “passar uma tarde em Itapuã”… Porém, existe um outro pedacinho do céu baiano, digo, do mar baiano que Vinicius certamente não frequentou e, assim, não pode cantar: praia de Pituaçu, sem número, em frente ao Circo Picolino.

Ali está fincada, qual um farol aos navegantes, a Barraca de Luciano. Quem não conhece Luciano? Luciano Serva Ferreira, economista de profissão e barraqueiro de vocação; almirante das areias do mar da Bahia, nosso querido Buda Nagô.

Tudo o que se refere à Barraca de Luciano se transforma em lenda, vira lenda, como se o lugar e o seu dono fossem encantados. E realmente encantam.

Histórias e estórias ali se sucedem… políticas, econômicas e culturais… Diz a lenda que entre aquelas cadeiras e mesas foi arquitetado importante secretariado governamental; saudosos guevaristas fizeram e desfizeram revoluções; sucessos da literatura, música e teatro baianos foram ali inspirados, entre uma cajurosca e outra…

Celebridades pululam aquele sacro-profano espaço: presidentes de companhias globais, autores de concorridos bestsellers, temidos jornalistas… e até um ex-presidente da República, quando senador, visitou o lugar, ciceroneado por saudoso arquiteto perubaiano.

Há controvérsias quanto ao local de nascimento de Luciano: alguns afirmam que foi em Terra Nova, progressista cidade do Recôncavo baiano; outros o declaram genuíno soteropolitano. Se assim o for, Salvador perde a oportunidade de conceder-lhe o respeitável título de cidadão, por naturalmente o possuíres – e nós perdemos essa festa.

Pois no verão tudo é festa na Barraca de Luciano. Nas horas vagas, caymmicamente deitado na rede da sua varanda, ele planeja as novas efemérides que marcarão o verão baiano de memoráveis festejos. Exemplos? Quando lá no Rio o piano subiu o Morro da Mangueira, Luciano filosofou: e por que não descer o barranco de areia? Pronto… o dedilhar dos teclados de raro piano de caldas se elevou ao diz-que-diz-que mansinho que brota dos coqueirais…

Relembrando os antigos “banhos de mar a fantasia”, evento carnavalesco ali acontece com o saudosista grupo musical Paroano Sai Milhó. Imperdível. E em belíssima noite quente de lua cheia o grupo de chorinho de Luiz Gazineo dedilhou belas canções fechando o verão passado.

A Barraca também estabeleceu um calendário anual de eventos, seguido fielmente: a destacar o 2 de fevereiro, dia de Yemanjá, quando são entregues os presentes à Mãe das Águas, em formoso balaio. Este singelo ritual também representa o único momento do ano em que Luciano é visto molhando as canelas no mar de Pituaçu.

Data significativa é a Quarta-feira de Cinzas, quando é promovido o “Bacalhau da Marlene”, isto é, o bacalhau cozinhado por dona Marlene, devotada esposa do nosso ilustre personagem. Ah, e não podemos esquecer a comemoração do “Dia do Barnabé”, que demonstra a atenção do dono da Barraca com o perfil da sua freguesia.

– Que vende Luciano? Perguntei certa vez à pequena e desatenta platéia que se reunia em torno da “mesa da diretoria” da prestigiosa barraca.

Sem esperar resposta, perorei:

– Cerveja? Refrigerantes? Isso vende as outras barracas…

Breve pausa. Minha mirada pousou em cada um dos semblantes, perscrutando os efeitos daquelas palavras. Encontravam-se embriagados… não da minha cantilinária… talvez dos eflúvios etílicos… Mas não desisti.

– Que vende Luciano? Certamente não é caranguejo, peixe-frito ou batata frita… isso vendem os concorrentes. O que Luciano vende é fantasia, alegria, simpatia… E dessa maneira cativa a sua clientela.

Na dúvida de alguém ter ouvido esta arenga, aqui a reproduzo.

Na condição de pequeno empresário brasileiro, obviamente nem tudo são flores para Luciano, e poucas e boas tem sofrido o nosso amigo. A sua Barraca foi pioneira em obter financiamento e ser reformada quando do Projeto Orla. Bonito equipamento se ergueu na Praia de Pituaçu. Limpo, arejado, sem agredir o meio ambiente.

Mas quando começou o imbróglio entre Prefeitura, Ministério Público e instituições ambientais todos os barraqueiros da Orla foram ameaçados de perderem os seus estabelecimentos, o seu sustento.

Dias difíceis para Luciano. Aves de mau agouro travestidas de “amigos” molestavam os seus ouvidos dando como eminente a derrubada da sua barraca para o dia seguinte. Coação descabida que Luciano enfrentava resignadamente, sob vigilância de atentos cardiologistas que zelavam pelo bom comportamento das suas pressionadas coronárias.

Mas isso é passado. Presente mesmo, dado pela natureza, é o verão que nos acolhe, e nada melhor do que neste verão passear pelas areias da Praia de Pituaçu e ali fazer uma parada técnica na Barraca de Luciano, situada em frente ao mar da Bahia.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]