Utopia e realidade | Por Juarez Duarte Bomfim

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Na mudança para o século XXI, alguns intelectuais ceticistas apressadamente decretaram o fim das ideologias. Será? Obviamente há um componente ideológico em tal declaração, pois, implicitamente, ao se afirmar o “fim das ideologias”, se está asseverando a superioridade e supremacia de uma ideologia sobre as outras.

Porém, apesar de declarada a extinção das ideologias e o fim da história, a história segue o seu curso e as ideologias sobrevivem – muitas vezes perifericamente, marginalmente – mesmo quando precipitadamente são declaradas mortas e enterradas.

Das ideologias surgem as utopias. O desencanto e ceticismo também levaram alguns a afoitamente decretarem o fim das utopias. Mas… esses cínicos intelectuais esqueceram de dizer: como é possível viver sem utopias?

A utopia nos faz humanos, nos diferencia dos demais animais, especialmente das bestas humanas que procuram a realização no desenfreado consumismo.

As ideologias e utopias podem parecer insólitas, mas se não parecessem insólitas não seriam ideologias e utopias, pois elas refletem o estrito imaginário individual ou de um determinado grupo social.

Algumas ideologias podem se apresentar como “filosofia da práxis”, isto é, teorias da ação ou a “união dialética entre a teoria e a prática”. É famosa a assertiva marxista: “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo, é preciso transformá-lo”.

Quiçá toda ideologia seja da “práxis”. Entretanto, algumas claramente se evidenciam dessa maneira por se apresentarem no campo da ação humana entendida como política.

No século XX, batizado por importante historiador como a “era dos extremos”, foi quando essas ideologias saíram do campo da utopia (lugar nenhum, lugar inexistente) e migraram para o campo da práxis.

Século de grandes conflitos, de banhos de sangue coletivo, as ideologias nortearam e impulsionaram os massacres do bicho homem contra os seus semelhantes. As guerras civis, fratricidas, são os exemplos mais gritantes da bestialidade humana racionalizada, na forma de ideologia.
Existem ideologias racionalizadas, intelectualizadas, estruturadas filosoficamente no continente europeu (fascismo, nazismo, comunismo, anarquismo…) e existem ideologias difusas, não intelectualizadas e mundiais (nacionalismo, racismo…).

As ideologias racionalistas, totalizantes, que buscam submeter todo o mundo aos seus princípios e ditames se mostraram assaz perigosas no século dos extremos, pois foram motivadoras da violência e assassinato de milhões. De cunho originalmente humanista, estas filosofias, quando saem da teoria à prática, modificam-se da condição de humanistas para anti-humanistas.

O racionalismo político europeu levou, no seu limite, a justificativas intelectuais de crimes covardes e atrozes, como o assassinato de crianças – versão moderna do massacre dos inocentes praticados pelo insano Rei Herodes – com a fundamentação teórica da necessária “violência revolucionária”; como também este mesmo racionalismo criou um modelo altamente tecno-burocratizado de gestão dos campos de concentração nazistas.

As ideologias difusas, como o nacionalismo e o racismo, que podem permanecer em estado latente por décadas ou séculos, quando se manifestam são desencadeadoras de terríveis genocídios e extermínios.

A Igreja no período medievo, os poucos Estados teológicos sobreviventes e os fundamentalismos religiosos feitos ação política também são desencadeadores de bárbaros crimes e extrema violência.

Numa sociedade aberta, democrática, de respeito à pluralidade e convivência pacífica das crenças e diferenças, as ideologias passam a ter uma importante função motivadora das ações coletivas, uma vez garantido o seu livre exercício.

Todavia, quando não mediadas por mecanismos políticos de convivência pacífica e democrática das sociedades abertas, os indivíduos e grupos ideologizados tendem a se chocarem e, não encontrando claros e eficientes limites institucionais, tentam prevalecer sobre a sociedade através da imposição da força, do terror.

O abundante derramamento de sangue nos conflitos armados faz movimentar uma assaz lucrativa indústria de guerra da qual inúmeras nações são partes integrantes, alimentando, antropofagicamente, este costumeiro e antiético negócio.

Existe luz no fim do túnel? O ser humano tem jeito?

Grandes filósofos políticos consideram o ser humano mau na sua essência. Hobbes nos compara ao lobo do outro homem; Maquiavel, no seu “O Príncipe”, nos classifica como dissimuladores, covardes, traidores, mentirosos etc etc etc; mesmo Jesus, o rei do amor, ao falar do homem, afirma “vocês, que são maus, se seus filhos lhes pedir pão, lhes dará uma pedra? Ou, se lhes pedir peixe, lhes dará uma serpente?” e repete: “mesmo vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus próprios filhos”

Bem… quando Aristóteles filosofou sobre a vida na pólis, quer dizer, a vida pública (política) que é “como convém que um homem viva”, o grande filósofo falava da convivência pacífica entre os humanos, e não do assassinato sistemático de uns pelos outros.

Como os problemas causados pelo homem devem ser resolvidos pelo próprio homem, nos resta a remota esperança de que esse ser lupino que somos – ou nos transformamos – se humanize e consiga se relacionar com tolerância e benevolência com o seu próximo.

O inferno são os outros, sartreanamente podemos bradar. Mas que tal deixar o inferno para os malditos e erigirmos como nossos valores a união e a paz?

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Faça uma doação ao JGB

About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]