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Há momentos em que se chega a formular perguntas do tipo: “Mas o que deu neles?”

A recente decisão de exigir LI (licença de importação) para a maioria dos itens importados se enquadra nessa categoria. O pior de tudo é que esse aborto administrativo surgiu do nada e até surpreendeu, aparentemente, as autoridades da área econômica, que de nada sabiam, como convém nessas situações. Por trás da louvável intenção de “dar um jeito” na nossa balança comercial, há conseqüências que decerto não foram convenientemente analisadas.
Em primeiro lugar, a figura do Brasil, paladino do livre comércio, defensor da tal rodada Doha, sofre um belo aranhão. Como se disséssemos: Livre comércio para os outros!
Em segundo lugar vamos imaginar o que sucede com os importadores. Caso se trate de uma importação de produto acabado, o digno importador terá de esperar pacientemente a emissão da tal licença. Como os burocratas que emitiram esse belo dispositivo não possuem mais a estrutura da antiga CACEX, os importadores terão de esperar longos dias, até que finalmente a LI seja concedida, na hipótese feliz de não ocorrer a algum burocrata o ímpeto de recusar. Dificuldades assim costumam ocasionar vendas de facilidades em países menos sérios.

Obviamente, não será possível ao importador deter um navio no meio do oceano. Já que isso não é possível, a mercadoria ficará estocada sabe-se lá onde e como. Resultarão atrasos, pagamento de armazenagem, eventuais cancelamento de pedidos, enfim, o diabo. Como geralmente nesses casos interveio um banco, financiando a importação, o infeliz importador terá de renegociar e, naturalmente, a instituição que bancou a operação acolherá alegremente esse pleito.

Se por acaso estourar o limite de crédito do cliente, pecado! Menos mal se o pagamento ao exportador deve ocorrer no recebimento, azar se o prazo começa a contar a partir do embarque da mercadoria.
Imaginemos a situação de um importador que trabalhe com um alto índice de nacionalização e que se veja privado do único item importado necessário para finalizar seu produto. Por exemplo, um fabricante de microcomputador, privado, na última hora de um processador.

Como ensinam os modernos tratados de Administração, ele trabalha com estoques baixos – just in time. Maravilha! Ele presenciará o acúmulo dos demais componentes: Gabinetes, cabos, embalagens etc., à espera do maldito componente faltante. Carregar estoque tem um custo. Ou não? De duas uma. O desesperado engole o aumento de custos, depois de tentar repassá-lo, (experimentem explicar ao Carrefour, por exemplo, que os mil micros encomendados, com entrega programada no dia D, serão entregues com 20 dias de atraso) e ouvir dos seus clientes que, em nome da parceria, quem tem de suportar o ônus não serão eles, já que os anúncios da “grande queima” já saíram na TV. Isso se não levar um cancelamento do pedido, já que o consumidor final andou meio arisco.

Ou, movido pelo desespero, o abnegado fabricante se dirigirá aos seus não menos abnegados fornecedores de gabinetes, cabos e embalagens – para ficarmos no nosso exemplo – e pedirá uma reprogramação de entregas. Para o pequeno empresário que fornece essas bugigangas repete-se o drama. Se aceitar, arcará com o custo financeiro de carregar o estoque. Se recusar, poderá perder o cliente. De qualquer maneira, o faturamento “dançou” o tempo necessário para desentupir as artérias burocráticas. Mas isso não tem importância. O empresariado nada em dinheiro.
Caso o produto final se destine à exportação (a NOKIA que o diga), a operação fica comprometida e, ironia maior, com impacto na balança comercial que se queria “endireitar”. Alguém falou em desemprego à vista? Deve ser um irresponsável detrator de uma medida sabiamente tomada por algum piloto de escrivaninha disposto a solucionar a equação da balança comercial. O jornal Valor, gentilmente, optou por um eufemismo: “Barbeiragem”.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, é autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar` e o recente livro/peça ´Um Triângulo de Bermudas`. (Ed. Totalidade). Confira nas livrarias Cultura (www.livrariacultura.com.br), Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Laselva (www.laselva.com.br) e Siciliano (www.siciliano.com.br).| E-mail do autor: [email protected]

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