Desumanidades III (Solidariedade Invertida) | Por Luiz Carlos Amorim

Desde novembro, quando começou a tragédia das chuvas em Santa Catarina, o Brasil inteiro arrecadou donativos (roupas, calçados, comida, água, até móveis e eletrodomésticos e dinheiro) para enviar às vítimas, em diferentes cidades. Aliás, não só do Brasil. Outros países também colaboraram. Muita coisa veio para cá, por mais de dois meses, e o que se viu (os jornais e a televisão mostraram) foram galpões cheios até o teto (comida e roupas estragando, embolorando, por falta de distribuição, com todo o calor dos últimos meses), quantidades enormes de bombonas de água mineral empilhadas a céu aberto, montanhas de roupas e calçados jogados à beira de estradas e em lixões, um galpão inteirinho queimado e por aí afora. E até pedidos para que não mandassem mais nada que não havia onde colocar. Onde estão as “autoridades” que não vêem esse descaso acontecer? Será porque as eleições já passaram?

Paralelo a isso vi, também, na televisão, notícia a respeito de grupos de desabrigados que estavam passando fome porque os donativos não chegavam até eles. Um absurdo, tantos donativos que não havia onde colocar e pessoas passando fome, precisando de tudo? O município e o Estado ameaçando despejar donativos das escolas e a distribuição para quem precisa não é feita?

Então finalmente alguém soltou a voz e contou o que vinha acontecendo. Alguém que também é desabrigada, está lá desde o início e vê como as coisas acontecem. Tomo a liberdade de transcrever um trecho da crônica “Europa Brasileira – Abrigos”, de Urda A. Klueger, escritora de Blumenau, onde ela denuncia um estado de coisas assombroso, que lembra campo de concentração nazista:

“As histórias são inúmeras, desde aquele sargento que, faz poucos dias, proibiu a carne para os adultos de determinado abrigo, liberando-a só para as crianças – quando todos sabem que há um congelador chapadinho de carne lá na cozinha, que veio das tantas doações que todo o país mandou. E as roupas sujas de menstruação que se deram às pessoas do abrigo tal, para que as usassem (nada havia sido salvo das suas casas), enquanto gente do Brasil inteiro mandava roupas novinhas novinhas… Começa a pergunta: quem ficou com tantas coisas? E um diretor de escola que resolveu tratar logo os abrigados como porcos: picou aipim com casca e tudo, e misturou um bocado de carne, e sem sal, sem tempero, sem preparo, cozinhou aquela gororoba e só não mandou servir em gamelões porque deve ter ficado com vergonha. E outro diretor de outra escola, que se sente o dono do abrigo (a escola é publica, construída com legítimo dinheiro do contribuinte, e o diretor é um funcionário público, com o salário pago com os impostos daquela gente que está lá desvalida) e que não permite coisas básicas, como pais que vêm de longe para saber a sorte dos filhos, e sequer podem entrar lá para falar com os mesmos… e um outro chefe de abrigo, que vergonhosamente faz com que cada abrigado seja revistado pelos soldados lá de plantão, mesmo que o abrigado tenha apenas ido até à esquina comprar um pão.

A lista das humilhações e falta de respeito é tão grande que nem pensaria em tentar colocá-la aqui. Mas taí uma amostra. E mesmo assim, esses trabalhadores da minha cidade terão que deixar o abrigo dia 30.01. Muitos e muitos já acabaram desistindo dos maus tratos e das humilhações e indo para a casa de amigos, ou voltando para as zonas de risco, assinando documentos em que se declaram auto-responsáveis pelo que vier acontecer, caso algo lhes acontecer nas zonas de risco. Eles têm que se ir, sumir; a vida nos abrigos tem que ser a pior possível, para que os moradores desistam, sumam das estatísticas – é bem diferente construir mil casas do que cinco mil casas – sobra um dinheirão para os bolsos não sei de quem.”

Com toda essa “humanidade”, será que as pessoas farão donativos quando de novo se fizer necessária a solidariedade do próximo?

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