Crônica: A sessão de cinema | Por Alexandru Solomon

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Quinta-feira chuvosa, final de expediente. Muita coisa ainda para fazer, mas nada que não pudesse esperar o dia de amanhã. Além disso, a parte dele no projeto estava adiantada em relação ao do grupo de infra-estrutura. Como eles poderiam ainda alterar alguns parâmetros, de nada adiantaria correr. Sem falar que o modelo estando pronto, ou quase, (para ser bem sincero), finalizá-lo ia ser brincadeira. Muito tempo atrás, tinha demonstrado a simplicidade do tratamento matemático, ao criar as famosas pla­nilhas SGT – o tal Sistema Gerencial de Tratamento que, na intimidade, atendia por sistema de ganhar tempo.

Arrumar a mesa. Despejar nas gavetas famintas todos os documentos, a calculadora, desligar o com­putador e…
A colisão com a realidade. Não tinha nada para fazer. Pelas janelas do escritório, a visão da avenida com o intenso e caótico vaivém. A fina garoa provo­cando a histeria dos limpadores de pára-brisa.

O ar-condicionado ocultava uma realidade com a qual iria deparar em minutos. Lá fora fazia frio. Voltar a pé para casa, sabendo que, além do cachorro, nin­guém mais iria manifestar qualquer alegria, não era o maior incentivo para abandonar o ambiente tépido e o zumbido das lâmpadas fluorescentes.

Enfim, uma breve saudação aos fanáticos das horas extras. A gracinha habitual em direção à recep­cionista, se queria ou não ser adotada por esse cin­qüentão, com o que conseguia, invariavelmente, bombear para a face da menina o sangue necessário para algumas transfusões.

Afinal, ele era o segundo em importância no escri­tório e ela vivia recortando fotos desses insuportáveis Brad Pitt, apesar de que, aos vinte e tantos, já deveria ter alguma quilometragem.

Elevador lotado, com as personagens diferentes recitando as mesmas exasperantes banalidades “mais um dia, né? Só falta amanhã pro fim de semana” e tantas outras, a ponto de lhe ocorrer, pela milésima vez, não ser de todo doida a idéia de colocar uma fita com esses dizeres memoráveis. Seria só entrar e pré-selecionar as platitudes a serem ouvidas durante o trajeto. Poderia até se organizar uma parada de sucessos, um “hit parade” semanal. A vencedora poderia ser agregada automaticamente à programa­ção da semana seguinte. Até a loucura generalizar-se ou até essa gente encontrar outros assuntos.

Uma pausa no saguão para criar coragem, como antigamente, para pular na água gelada da piscina. Antigamente, sim, já que hoje a piscina do clube ofe­recia uma água com tendência a chá das cinco. A temível chicotada do ar frio até que não foi tão insu­portável. Levantou a gola do paletó e sobrou o problema: o que fazer?
Já tinha a resposta antes de haver surgido a per­gunta. Assistir a um filme, qualquer um, encontrar na escuridão da sala o afago das imagens numa tela de verdade, não a insuportável telinha com a mais insuportável ainda carga publicitária. Ainda no saguão, havia separado o dinheiro do ingresso. Não iria mexer na carteira junto à bilheteria e estar cor­rendo o risco de redistribuir compulsoriamente a renda nacional.
Com passadas apressadas enfrentou o chuvisco e, já de ingresso na mão, enfim com o que sobrara do ingresso, mutilado na entrada, procurou um lugar na sala. Acostumou-se rapidamente à escuridão e enxer­gou um lugar. A sala estava cheia.
Instalou-se confortavelmente na poltrona e procu­rou situar-se na trama. Era um bangue-bangue moderno. Armas sofisticadas fazendo explodir alter­nadamente os crânios de uns e outros. Imaginou que, nas primeiras fileiras, deveria haver pedaços de mio­los e, por um momento, achou graça com o trabalho que isto daria ao serviço de limpeza do cinema.
Espectadores versados em boas maneiras estoura­vam ruidosamente chicletes, um ou outro se julgava no direito de avisar o mocinho da aproximação do perigo de uma forma pouco discreta e num linguajar puramente acadêmico.
Mas tudo isto fazia parte da magia do cinema. Já integrado na ação, a sensação agradável de um per­fume o fez olhar para a sua direita. Um casal de uma certa idade – afinal, todo mundo tem uma certa idade, não se tratava de adolescentes porém – estava assis­tindo, com interesses bastante diferentes, às aventu­ras dos exterminadores sensuais e intergalácticos. Ele estava simplesmente brindando as peripécias com um ligeiro ronco, que até passaria despercebido a um espectador desatento.
De repente, um calor vindo da poltrona vizinha fez com que o filme perdesse totalmente o interesse.
A coxa da vizinha estava levemente encostada na dele. Por um instante, pensou poder se tratar de uma impressão e afastou-se ligeiramente. Quase imedia­tamente, voltou a sentir o calor que agora estava se espalhando pelo seu ser. Por sua vez, exerceu uma leve pressão, e sentiu a resposta rápida e perturba­dora. A brincadeira estava ficando fascinante. Deixan­do que os joelhos mantivessem o diálogo, experimen­tou encostar o cotovelo no antebraço da desconhe­cida. Mais uma vez ela respondeu com uma rapidez que denotava igual interesse.
Aos poucos, sem ousar falar, o encosta, afasta, esfrega de leve monopolizou totalmente a atenção. Agora as pressões se tornavam mais fortes, mais insistentes, insinuantes. A desconhecida o estava encantando com truques de adolescente. Ela chegava a improvisar uma forma requintada de tortura, afas­tando-se de maneira a ficar fora do alcance dele, dentro do que poderia ser considerado razoável numa sala cheia.

Imediatamente, porém, o calor aveludado da coxa voltava tranqüilizador e excitante.

De tão banal que era, ele começou a sentir uma vontade incontrolável de agarrar o vulto perfumado e sedutor. Mas… e se o titular percebesse?

Foi, então, que ela cochichou.

– Liga pra ele não, ele só acorda com tiro de espin­garda.
– Vamos nos encontrar depois, propôs ele, fasci­nado pela maneira de as coisas estarem se encami­nhando.
– Mas de jeito nenhum, eu sou fiel, respondeu a desconhecida com um sorriso impossível de se de­finir.

Calaram-se. As mesmas carícias, agora sem nenhum horizonte, o atraíam mas já não exerciam o efeito hipnótico. Se ela se levantasse e caminhasse até a tela, nela penetrando, se misturando com os atores, que por sinal pareciam precisar de reforço numérico, tamanha havia sido a matança, provavel­mente nem teria achado aquilo estranho. Possivel­mente, nem sentiria a falta. Ela existia e era irreal ao mesmo tempo.
Sentiu pena do dorminhoco e, após uma última roçada, pressentindo o final do filme, apoderou-se da mão dela, que se amoldou docilmente à sua. Sabo­reou a caricia da mulher, levou a mão aos lábios, beijou-a, levantou-se e saiu.

*Por Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, é autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar` e o recente livro/peça ´Um Triângulo de Bermudas`. (Ed. Totalidade). Confira nas livrarias Cultura (www.livrariacultura.com.br), Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Laselva (www.laselva.com.br) e Siciliano (www.siciliano.com.br).| E-mail do autor: [email protected]

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