Crise e ironias da história | Por Emiliano José

Emiliano José da Silva Filho é escritor, professor de comunicação e político.Emiliano José da Silva Filho é escritor, professor de comunicação e político.

Será que alguém imaginaria um Tony Blair, o ex-premiê britânico, afirmando, numa ousadia inimaginável, que “nem mesmo o mais potente sistema nacional pode funcionar sem uma noção de governança mundial”, sofisticada maneira de dizer que os EUA têm que refrear sua arrogância? O mundo sabe o quanto Blair se arrastou diante do poderio americano, o quanto foi serviçal diante das aventuras guerreiras dos EUA. Mudou o mundo, e com a mudança, as opiniões de Blair. É a política, os milagres da política. E é a história, que não acabou.

As décadas de 80 e 90 assistiram à tentativa de afirmação do pensamento único – e esse pensamento era o neoliberalismo, com todas as suas conseqüências. Nos últimos dias, houve a afirmação de um político europeu que, categórico, afirmou que não aceitaria mais o regresso a uma idéia única. E o político, ao dizer isso, acertava dois alvos: manifestava-se contra o predomínio dos EUA e contra o pensamento uniformizador, fundado no domínio exclusivo do capital financeiro. Seu nome? Nicolas Sarkozy, presidente da França. “Já não é tempo para que uma única nação possa dizer o que devemos pensar”. Essas manifestações ocorreram durante o seminário “Novo Mundo, Novo Capitalismo”, realizado recentemente em Paris.

E Sarkozy tem sido o mais ousado, embora até a primeira-ministra Ângela Merkel também tenha combatido a hegemonia americana. O presidente francês não fica apenas na crítica aos EUA. À sua maneira – vejam a ironia da história – desenvolve uma dura crítica ao tipo de capitalismo dos últimos anos. Ele comemorou ter sido o retorno ao Estado “o principal fato” da crise econômica. E defende que o Estado deva agir via fundos soberanos para afirmar um capitalismo de empreendedores. E ele sentencia que o sonho da globalização feliz “acabou com o 11 de setembro de 2001”. Quem diria que ouviríamos isso de um político cujo perfil é nitidamente de direita?

Essa reviravolta discursiva, e política, é decorrente do impacto da crise econômica que, como disse recentemente o sociólogo Chico de Oliveira, trata-se verdadeiramente da primeira grande crise da globalização capitalista. É claro que, lúcido, ele não antevê um horizonte de derrocada final do capitalismo, cuja capacidade de recuperação é muito grande. Mas insiste na gravidade da crise, que implicará numa reacomodação de forças em escala planetária. E, diante dela, no Brasil, ele propõe recriar um 1930 do século XXI, induzido por baixo, “pelas forças sociais da base da sociedade brasileira em nosso tempo”. É uma boa idéia. E o PAC, se bem conduzido, pode ser um excelente ponto de partida.

*Por Emiliano José é professor aposentado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA. Em 1999, defendeu a tese “A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha”, tornando-se doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Começou a carreira jornalística na Tribuna da Bahia, passou pelo Jornal da Bahia, O Estado de S. Paulo, O Globo, e pelas revistas Afinal e Visão. Foi um ativo integrante da imprensa alternativa nos tempos da ditadura.

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