Béu Machado, o poeta da Boca do Rio

Juarez Duarte Bomfim.Juarez Duarte Bomfim.

Existe um jeito de ser que é próprio do habitante da Boca do Rio, bairro praieiro desta praieira cidade do Salvador.

Dado à contemplação onírica da natureza, do sol e do mar, a princípio este habitante parece indolente, porém costuma trabalhar na medida devida para sua subsistência.

Aqui o tempo é outro, de ritmo mais lento, apesar das exigências nervosas da grande urbe, que freneticamente passa veloz pela Avenida Otávio Mangabeira, rio de carros ameaçadores que divide o bairro em uma barreira quase intransponível, o ilhando do mar. Pois há uma crônica escassez de semáforos e ausência de passarelas, para desespero dos habitantes e vira-latas que arriscam a vida a caminho do mar.

Há uma vocação para o entretenimento, a diversão, o não fazer nada. Inclinação para os prazeres e gozos da matéria. Essa expectativa dos forasteiros, usuários dos equipamentos de lazer do bairro, parece incutida no imaginário do habitante da Boca do Rio.

Aí é preciso estar alerta contra o risco da exploração sexual das meninas e meninos do bairro, devido a grande concentração de casas noturnas. Instituições públicas especializadas e Organizações Não Governamentais de proteção a crianças e adolescentes devem ser acionadas quando necessário.

Originalmente o populoso bairro da Boca do Rio era uma colônia de pescadores, com algumas poucas casas de veraneio. Numa delas, na Rua do Meio (Rua Orlando Moscozo) este que vos escreve veraneou com a família, em tenra infância. E aos memoráveis banhos de mar naquela que depois seria a badalada Praia dos Artistas, eu era levado sobre os ombros do saudoso vizinho e amigo Joceval, vigoroso zagueiro do time campeão baiano de 1966, o Moleque Travesso (Leônico).

Bairro popular de ocupação irregular, sem arruamento, sua população é majoritariamente negra e pobre. Algumas poucas mansões subsistem nesta paisagem heterogênea.

As moças bonitas da Boca do Rio, cantadas pelo poeta beleza pura Caetano Veloso, como que dançam, ao caminhar pelos estreitos e tortuosos becos, ao ritmo balançante da música baiana.

Pressões imobiliárias recentes, com o famigerado PDDU municipal, que veio para verticalizar a Orla, agredir o meio ambiente e enfeiar Salvador, está levando o bairro a passar por rápidas mudanças demográficas. Uma classe média sem graça, racista e preconceituosa nele está se instalando, num fenômeno de pitubatização. Será?

Uma infinita rede de organizações religiosas se estabeleceu na Boca do Rio. Aqui se encontra de tudo: ao lado de terreiros de candomblé, centros espíritas e igrejas evangélicas em profusão, o que o preclaro leitor imaginar de denominações religiosas, esotéricas, de caráter transcendental aqui tem, num congraçamento de todos os santos, budas e orixás.

Todo bairro tem os seus poetas, e o poeta da Boca do Rio é o saudoso Béu Machado.

Poeta, compositor, jornalista, Béu marcou o cenário cultural baiano dos anos 1980. Hoje o seu nome é mais conhecido pela importante obra social que a sua viúva realiza, a sra. Maria José Machado, que após transformar o andar térreo de sua própria casa em uma creche, viu esse trabalho voluntário de assistência social crescer e hoje a Creche Béu Machado, localizada à Rua do Caxundé, entidade não governamental, com fins estritamente de cunho filantrópico, tem capacidade de atendimento para 200 crianças, com idade de 01 a 07 anos.

A Creche Béu Machado vive da doação de generosos colaboradores da casa, que praticam a caridade para com o próximo. Portanto, aqueles que se dispuserem, podem também colaborar. É só contactar a Creche através do site beumachado.org.br que será bem-vindo.

Béu também foi o poeta dos calorosos verões da Boca do Rio. É uma pérola o seu poeminha quase um haicai: “no verão, nus veremos”.

Bardo itinerante das ruas e ladeiras do bairro, decreta: “a poesia é um pássaro indomável, besteira tentar retê-la num livro”.

Trágico acontecimento amargurou os últimos meses de vida deste poeta-jornalista, quando quixotescamente denuncia e protesta contra a arbitrária violência policial que atingiu um dos seus familiares, ele que tantos filhos abrigava na sua creche.

Que seu espírito descanse em paz, Béu, distante dessa dura realidade que vivemos aqui no plano terrenal. Saiba que mais um verão desliza preguiçosamente pela brisa sussurrante que brota dos coqueirais do nosso amado bairro.

Poeta Béu Machado, sinta-se homenageado pelo povo pobre da Boca do Rio, na verve deste seu humilde vizinho.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]