Aquele Plano de Saúde…

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Todo texto que se pretenda sério não deve se começar com uma anedota. Mas neste caso a exceção é inevitável, porque, além da história ser boa, é perfeitamente adequado ao caso que será abordado a seguir.

Vamos à anedota. Um sujeito morreu. Chegando ao Limiar, foi contado, pesado e medido, para determinar seu destino seguinte, e verificou-se que o homem havia sido precisamente 50% bom e 50% mau durante sua vida. Estava aberto um impasse. Para onde remetê-lo: ao céu ou ao inferno? Não havia precedentes em toda a história da humanidade, portanto, determinou-se que o próprio falecido teria o direito de decidir seu destino. Quando a decisão foi comunicada, o homem indagou se podia conhecer previamente o céu e o inferno antes de formalizar a opção.

Podia. Deixou as malas na recepção do Limiar e primeiramente dirigiu-se ao céu. Em lá chegando, viu que o céu era exatamente como seus pais e seus avós haviam lhe descrito quando criança. Havia uma paz, perdão, celestial, com anjos tocando harpas, pessoas meditando e orando, aquela harmonia poderosa, com todos os seres louvando as maravilhas da criação. O homem viu tudo, tirou suas conclusões e rumou para o inferno, sua outra opção possível.

Em lá chegando, surpresa! O inferno era uma interminável festa num ambiente para lá de agradável. Havia pessoas bonitas e inteligentes, as conversas eram todas agradáveis, o uísque era escocês, o champanhe era devidamente francês, a comida era ótima e o agito permanente. Surpreso, já com o clone da Sharon Stone pendurado no cotovelo, o homem decidiu-se no ato: “-Aqui é o meu lugar”. Foi-lhe dito:- “Então volte ao Limiar e formalize sua opção”.

Foi o que o homem fez. Voltou ao Limiar, assinou toda a papelada, catou suas malas e voltou para o inferno. Porém, ao retornar, teve outra surpresa. A festa havia acabado e ele foi jogado primeiro num tanque de lodo, depois numa poça de enxofre e posteriormente numa espécie de churrasqueira gigante, cheia de brasas. Entre uma chicotada e outra, ainda teve tempo de protestar:

– Mas este não é o lugar que conheci. E, prontamente, foi-lhe informado:

– É que antes o senhor era um cliente em potencial.

Guardadas as proporções, essa é a situação que se encontram as inumeráveis vítimas da propaganda enganosa em todo o Brasil, país que parece ter abdicado de qualquer sentido de seriedade. A publicidade, em grande número de casos – isto só porque a generalização seria injusta – parece ter extrapolado o sentido de ferramenta auxiliar da venda de bens e serviços, para ser uma espécie de pega-trouxa altamente elaborado. Na hora da venda seja do que for, impera a lei do vale tudo. Até o inferno é – como na anedota acima – devidamente maquiado para ser empurrado para o encanto, que não procura ver que por trás do bife a milanesa, sempre se camufla uma carne de segunda. E o consumidor, engabelado, paga à vista e antes mesmo de receber o bem ou serviço. Na hora de conferir o investimento é que vem a decepção…

Cigarro dá câncer e a bebida dá cirrose – entre outros problemas. Mas, no entanto a publicidade desses produtos é “tolerável”, porém criou-se um axioma pervertido segundo o qual todo o consumidor deles está, em princípio, ciente destes males, e fuma e bebe segundo uma decisão tomada por seu próprio e livre arbítrio. O Ministério da Saúde adverte que beber em demasia pode dar câncer ou cirrose, mas a advertência escrita – mesmo em claro e bom português – tem um peso indescritivelmente menor do que a sedução estampada nas imagens coloridas que precedem a informação oficial.

Discutível sobre todos os aspectos, mas fiquemos por aí. O desempregado não vai encontrar o sucesso por fumar a marca “x” e nem vai ser identificado pelas mulheres bonitas por gostar da bebida “y” – mas sobre a ética e o humanismo prevalecem os interesses dessa entidade imponderável e super poderosa (quanto mais nesses tempos neoliberais) que se convencionou chamar mercado. Afinal, o mercado gera empregos, traz desenvolvimento e, principalmente, dá um monte de dinheiro aos interessados. Contra esses argumentos não há como resistir.

Em atividades acessórias que satisfazem as imperfeições da natureza humana, tal comportamento da atividade publicitária pode ser “tolerado”, ainda que embrulhe o estômago na maior parte das vezes. Porém, se o buraco é mais embaixo, o problema é que e está ficando fundo demais, porque essa versão predatória da publicidade acabou contaminando inclusive as demais variantes da vida.

Referimo-nos, especificamente aos planos de saúde. Na maior parte das vezes, sejam eles locais ou nacionais, vendem a ilusão da segurança total – como se esta realmente existisse. Mas, vá lá: vendem o mínimo do mínimo pelo preço máximo, custo que sobe em proporção direta em relação à idade do mutuário. Quando o cidadão vai adquirir o plano, antes de assinar o contrato é lhe garantido que a saúde está em primeiro lugar. Feliz da vida por achar uma rede de insegurança sobre a corda bamba da vida, o neotrouxa não hesita em assinar o contrato e honrar rigorosamente os pagamentos que lhe cabem. Aí, na hora em que ele, infelizmente, precisa…

Aí o médico escolhido – educadamente, é claro – informa que o tratamento para os pacientes particulares é um. Para os conveniados, outro. Para os pacientes particulares, o atendimento é imediato: pode ser na hora do almoço, sábado à tarde ou mesmo em segunda feira de madrugada, com chuva e frio. Para os conveniados que – premonitória obra de George Orwell, não são tão iguais a outros, embora paguem antecipadamente – resta uma interminável espera em uma fila que pode durar dias, semanas, até meses.

Ficção? Não é invenção, é verdade e essa verdade eu pude constatar. Não é o caso de citar nomes – nem do médico e nem do convênio – mas aconteceu comigo e com um parente que precisou dos serviços de um certo médico da cidade (não foi em Sorocaba, foi num lugar quase fictício muito longe daqui, lá onde sua saúde está em primeiro lugar…).

Pois bem: apesar do convênio – uma grana respeitável, honrada rigorosamente todos os meses e que daria para bancar diversas consultas particulares – só havia data disponível para um mês depois. Procurei o profissional e expus a situação, mas ele educadamente, me fez ver que não havia outra saída: para meu parente ser atendido na hora, só em dinheiro. Convênio, só na fila. Em março talvez e se tudo der certo. Apelei para a administradora do convênio. Também não resolveu. As pessoas – como meu parente, e também eu no dia em que precisar – vão continuar na fila, porque foram iludidas por uma publicidade enganosa que traveste o inferno em uma festa permanente.

Fale-se mal do SUS, mas este tem ao menos a decência de não mentir sobre a qualidade de seus serviços e nem enganar o cidadão. O atendimento, na prática no que se refere aos prazos, não difere muito.

Construir uma imagem é extremamente difícil, comparada com a facilidade em destruí-la. Instituições sérias e seculares que se dedicam a administrar planos de saúde devem colocar seus serviços no mesmo nível de excelência de publicidade que veiculam e cobrar seus profissionais nesse mesmo sentido – ou vão perder toda a credibilidade adquirida ao longo dos anos.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]