A Gênese baiana

Juarez Duarte Bomfim.Juarez Duarte Bomfim.

Tudo ou quase tudo que se sabe do navegante português Diogo Álvares Correia, o Caramuru, é lenda. Os historiadores da Bahia, desde o padre jesuíta Simão de Vasconcellos até o poeta axé-tropicalista Antonio Risério têm procurado biografar esse herói luso-brasileiro. Aproveitando o registro dos 500 anos do seu naufrágio no litoral soteropolitano, eu também vou contar a minha versão da história, com uma boa dose de imaginação.

De (quase) certo da vida de Diogo Caramuru é que ele é natural da Vila de Viana (atual Viana do Castelo), norte de Portugal. Nascido à época das grandes descobertas e navegações, quando os jovens portugueses se atiravam ao mar em busca de aventuras, riquezas e conquistas.

As naus portuguesas que se lançavam na imensidão do Atlântico não tinham destino certo. No ano da graça de 1.500, por exemplo, uma grande esquadra havia saído rumo às Índias e por acaso achou o Brasil, que se localizava justamente no sentido oposto…

A embarcação que trazia como grumete nosso Diogo Caramuru para descobrir o Mercado do Peixe no Largo da Mariquita, Rio vermelho, naufragou possivelmente em Itapuã, que em tupi significa pedra-q-ronca, segundo o saudoso linguista-jequieense Wally Sailormoon.

Há controvérsias quanto ao ano do naufrágio. 1.509, 1.510 ou 1.511. Antecipando as comemorações que injustamente tal data não receberá, aqui sugiro a primeira alternativa (1509), como boa justificativa para essas mal-traçadas linhas deste que vos escreve.

Portanto, fazem 500 anos da chegada de Diogo Caramuru às praias da Bahia.

Enigma: como foi que o nosso herói naufragou em Itapuã e veio a ser achado tão longe, nas pedras da Mariquita? Atraído pelo acarajé da Dinha, Cira ou Regina? Desconhecemos a preferência gastronômica do jovem náufrago. Acarajé predileto é igual a time de futebol, cada um teu o seu.

Acredita-se que Caramuru, único sobrevivente do desafortunado navio, para enfrentar as bravias ondas das praias da Avenida Otavio Mangabeira juntou um tronco de coqueiro ao outro e inventou, ao mesmo tempo, a jangada nordestina, o catamarã e o dito popular “com quantos paus se faz uma canoa”.

Cansado e em aflição, após esse forçado tour pelo litoral soteropolitano, Diogo Álvares se aproxima de uma pedra na desembocadura do poluído Rio Vermelho e nela se agarra desesperadamente.

Valorosos e mal intencionados canibais guerreiros tupinambás o esperavam para o jantar, mas não era ele o convidado, e sim a matéria-prima do ágape festivo. Deste episódio surgiu o dito popular “boi de piranha”, muito antes dos nossos boiadeiros ribeirinhos atravessarem lagoas e riachos utilizando tal expediente.

Desconfiado da inusitada alegria dos nativos com a sua chegada, Diogo saca o seu arcabuz, que conservara seco, e dá três tiros para o alto, comemorando e preventivamente garantindo a sua salvação. Dessa maneira Diogo Álvares inventou os fogos de artifícios Caramuru, os mais concorridos das festas juninas.

Dissuadidos da idéia de tê-lo como jantar, os tupinambás consideraram mais prudente convidar o recém-chegado para a refeição, e assim inaugura-se a tão celebrada hospitalidade baiana.

Não conseguindo pronunciar aquele estranho nome, os ameríndios o batizam de Caramuru, que pode ter vários significados: deus do trovão, portuga, gringo, Diogo… ou peixe moréia, pois no dizer de Gabriel Soares, “chamam os índios às moréias caramuru, das quais há muitas, mui grandes e mui pintadas, as quais mordem muito, e são muito gordas e saborosas”, e são encontradas junto às pedras. Uma perigosa e elétrica enguia.

Logo logo Diogo Caramuru demove os antropofágicos tupinambás dos desejos canibalescos para com a sua pessoa – literais ou figurados – ao declarar “aqui o macho sou eu”. Se faz líder da indiada e se estabelece como o primeiro comerciante (luso) baiano, profissão mui frutífera na província.

Numa certa noite clara de lua cheia, escondido por trás da moita para admirar as indiazinhas tomarem banho, Caramuru se apaixona perdidamente pela bela Catarina Paraguaçu que, desnuda, penteava languidamente seus negros cabelos na Fonte Nossa Senhora da Graça, recém restaurada pela Prefeitura Municipal.

A formosa Catarina retribui os sentimentos do jovem estrangeiro, inaugurando a reconhecida generosidade das mulheres baianas para com os visitantes.

O pequeno reino tropical de Diogo Álvares adquire a sua rainha, quando Diogo Caramuru casa-se com a encantadora Catarina. Há controvérsia quanto ao lugar do congraçamento: alguns afirmam que ele jamais retornou à terra mãe; outros dizem que o casamento foi celebrado em Saint Malo, no Noroeste da França (1528). Não sei…

Dom João III lhe concede a contragosto o título de Cavaleiro da Casa Real, pois o mesmo mantinha relações comerciais com os ameaçadores franceses.

Diogo Caramuru Álvares Correia descansa em terras brasilis desde 1557, ano do seu falecimento. Antes, colaborou com Tomé de Souza para a fundação da cidadela de Salvador.

Catarina Paraguaçu faleceu em 26 de janeiro de 1587 e está sepultada na Igreja da Graça, mandada por ela construir.

O casal Caramuru e Catarina simboliza a gênese baiana. São os nossos pais. O início da genealogia mestiça baiana. Adão e Eva no paraíso tropical; o patriarca Abraão e Sara sob o coqueiral.

Resulta deste intercurso inter-étnico afetivo o hominídeo baiano (brasileiro). Europeu, africano e ameríndio; branco-negro-mestiço. Condição única em todo o mundo Terra.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]