A flecha incendiária do novo milênio | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, deputado federal (PT-BA) e membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate.Emiliano José é jornalista, deputado federal (PT-BA) e membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate.

Quem imagina os EUA como a polícia do mundo, não estará equivocado . Ao menos não se sentirá equivocado depois de ler O vulto das torres . Lawrence Wright, colunista da revista The New Yorker , ao tentar elucidar o ataque de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center, em Nova York, fornece subsidiariamente amplos subsídios para que se compreenda a atuação dos EUA como polícia mundial, investido de uma espécie de autoridade que ultrapassa fronteiras. E, simultaneamente, demonstra o volume de trapalhadas dessa polícia.

O livro, prêmio Pulitzer na área de não-ficção de 2007, tem uma acentuada queda jornalística, embora não se afaste de alguns cânones acadêmicos. Consegue construir bem os personagens – e digo construir porque mesmo no jornalismo personagens são construídos –, desenhar cenários, manter um clima de tensão, próprio para os acontecimentos em torno dos quais gira. Wright é pesquisador do Centro de Direito e Segurança da Universidade de Nova York.

Em mais de 500 páginas, o autor esquadrinha as origens da Al-Qaeda, buscando entender seus fundamentos teóricos mais profundos, para chegar depois ao personagem principal, Osama Bin Laden, até hoje ainda uma espécie de esfinge para o Ocidente. Há um quê cinematográfico no enredo pensado por Wright. Até na busca de seus heróis – ou de seus mártires, como se queira.

Não se negue esforço de pesquisa, nem honestidade intelectual no autor. Não se poderia pedir, no entanto, que ele não carregasse consigo uma visão hollywoodiana de mundo, e que não deixasse de lado a defesa dos EUA. Com muito zelo, no enredo, ele inclui John O´Neill , um obstinado agente do FBI, autoritário, abnegado, típico cultor do american way of life e, para temperar tudo, um mulherengo incorrigível. O personagem, tanto quanto Bin Laden, vai percorrer todo o livro, até morrer no ataque ao World Trade Center.

Bin Laden, na construção de Wright, aparecerá em sua dubiedade humana – fraco e forte. Terminará, no entanto, mais forte do que fraco, e permanecerá um enigma para um Ocidente aturdido, nunca mais o mesmo desde 11 de setembro de 2001. Para quem gosta de registros, de momentos trágicos ou épicos, parece bastante plausível admitir que Osama Bin Laden dá uma espécie de sinal do declínio americano, visível nos dias atuais, agora pela crise econômica iniciada no coração do Império.

Uma flecha incendiária – aviões enlouquecidos – atingiram em cheio o corpo aparentemente inexpugnável do gigante americano, mexendo fundo no orgulho do Império, questionando, com o ato terrorista, toda a arro gância da polícia do mundo. O autor, e esse é um dos méritos do livro como disse no início, desmonta, passo a passo, a aparente eficácia dos aparatos de segurança dos EUA.

Há, em todo o processo de investigação sobre a Al-Qaeda, desde 1993, quando o mesmo World Trade Center fora atacado, até o momento do segundo e mortífero ato terrorista de 2001, quando quase 3 mil pessoas morreram, um impressionante desencontro entre a CIA e o FBI. Houvesse diálogo entre as duas instituições de segurança – é isso que Wright procura demonstrar, e teria sido possível evitar a ação dos comandados de Bin Laden. É a tese dele. O desencontro, no entanto, é absolutamente evidente, fartamente demonstrado.

Não se cobre o que não se deve. O autor concentrou-se em mapear como foi construído o ataque de 11 de setembro, e para tanto girou em torno de personagens, construindo o enredo com brilhantismo. Há, porém, uma sensação de ausência. Se há evidências quanto ao confronto de visões de mundo – uma clara polarização entre a cultura muçulmana e a ocidental-cristã – não há nenhum esforço para demonstrar quais os interesses econômicos mais profundos dos EUA, particularmente aqueles vinculados ao petróleo. Um livro, no entanto, que ajuda a entender o início do novo milênio.

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