Se limão fosse doce…|Por Emiliano José

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

Se limão fosse doce, …pimenta não ardia. Um beijo de sua boca me sustenta 30 dias. Cadeia tem disso. Manifestação escrita de dores, amores, desejos. Há um quê de ironia no preso. De dichote. Deboche. Se limão fosse doce… Copiei isso há poucos dias, na ante-sala do que antes era a enfermaria da Penitenciária Lemos Brito, na Mata Escura. Será que é de Zé Limeira? Andei por andar andei no Corpo IV, aonde se localiza a Galeria F, onde ficamos dezenas de prisioneiros políticos entre 1969 e 1979.

Se limão fosse doce… E o beijo… O beijo de sua boca me sustenta 30 dias. É, quem andar por prisões verá fotos de tantas mulheres, nuas ou vestidas, a alimentar os sonhos, as fantasias, eróticas ou amorosas, de que tanto o preso necessita. A fantasia é o antídoto da loucura. Sem fantasia ninguém vive. Menos ainda o preso. O leitor já pensou no que é um beijo de tanta sustança? Um beijo com repercussão, aderência, força, que se espraia por um mês? Só pode imaginar isso quem tenha experimentado prisão. Ali um beijo pode durar os 30 dias ou mais. E tome-lhe fantasia, sensações com aquele beijo.

Quando subi o aclive que leva à Galeria F ouvi o hino que nós cantávamos. Escrito por Dirceu Régis. …Nos quartéis cruéis da ditadura…. Foi como se tudo fosse revivido – cada vez que um companheiro chegava, nós o recebíamos cantando o hino, todos juntos. …Não se rompe nosso elo solidário… Às vezes, chorávamos juntos na chegada. Ou na partida de alguém. Besteira esse negócio de que homem não chora. …Sempre existe aceso em nosso peito a formação do partido proletário. Nosso hino.

Eu acompanhava uma equipe de cinema. O filme será sobre Theodomiro Romeiro dos Santos. Quem quiser conhecer um pouco de Theodomiro, vá ao meu site – www.emilianojose.com.br. Terminado o aclive, cheguei à Galeria F. Não há mais presos no Corpo IV. A Secretaria de Justiça identificou sérios problemas na estrutura, e provavelmente tudo virá ao chão. Uma parte de nossa história. Pensei em Recordação da Casa dos Mortos. Não tanto pela Galeria F, onde construímos, os presos políticos, uma convivência democrática. Mas pelo que ela evocava de uma época de terror e de sombras.

Visitei a cela 11, onde fiquei preso por quase quatro anos. Era outro lugar. Agora dividia-se com precárias tábuas e farrapos para quatro ou cinco presos. Que não estavam mais lá. Assim todas as demais 20 celas. Quase todas estampam recortes de revistas, com futebol e mulher. E utilização abusada do pagode: Viu abestalhado, viu seu sacaninha, pegou a periguete pensando que era patricinha – à frente da cela 13. Mas, para que não digam que ali é só o mundo do pecado, da perdição, há muito Evangelho. Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios. Jesus Cristo, a luz que nos trouxe a paz. Na parede externa da cela 11. São os homens e sua diversidade, capacidade de viver, sobreviver.

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