Folclore político feirense

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Nas eleições de 1978, José Meira, estudante de Medicina Veterinária da Universidade Federal da Bahia, resolveu se candidatar a vereador em Rio do Antônio, pequeno município do Centro-Sul Baiano. Durante a campanha decidiu imitar o estilo do ex-prefeito de Feira de Santana, Chico Pinto, seu ídolo e líder político, candidato a deputado federal pelo MDB.

Invariavelmente Chico Pinto começava os seus comícios assim:

– Vocês são uns ladrões! Ladrões!… Cambada de ladrões!…

Quando o povo começava a se agitar, incomodado, Pinto completava:

– Ladrões… porque roubaram o meu coração!

Era um sucesso.

No primeiro comício, Meira tentou imitá-lo:

– Ladrões! Cambada de ladrões!…

O problema é que, depois de dizer isso, se emocionou, ficou vermelho, a voz embargou e sumiu. Após instantes, recomeçou:

– Ladrões… ladrões…

E não conseguia dizer mais nada. O público começou a vaiar e ameaçá-lo. Meira foi obrigado a sair do palanque escoltado. Foi o fim da sua candidatura.

Já no distante fim da década de 1970, nos divertíamos ouvindo esse causo da boca do popular Zeca Diabo, mangando do amigo José Meira, colega de quarto na Residência Universitária do Corredor da Vitória (UFBA).

Esta história foi divulgada na coluna Contraponto (Painel), da Folha de São Paulo, em 1998, e logo reconhecida por Sebastião Nery, que escreveu ao periódico protestando que ela faz parte do seu livro “Folclore Político”, de 1972.

No livro do baiano de Jaquaquara, o interior é do Ceará, o candidato a vereador se chama Cabralzinho e seu inspirador, Crisanto Moreira da Rocha. A redação é outra, mas a anedota é a mesma.

Procurado, o político Chico Pinto declarou à época que jamais pronunciou o tal “ladrões”, mas afirmou que a saudação era atribuída a ele na região de Feira de Santana. O causo político, que o Sebastião Nery alega ser seu, de fato foi incorporado ao folclore político baiano.

Contei essa história a um colega professor, muito querido pelos seus alunos, e por isso mesmo escolhido para ser homenageado por uma turma de formandos. Ele me narrou que “roubou” a idéia – que Sebastião Nery não nos ouça – no seu discurso de agradecimento à turma, utilizando de tal recurso.

– Ladrões!… Cambada de ladrões!…

Após espanto inicial da platéia, conta que obteve um enorme sucesso ao repetir a retórica, sem engasgar ou travar a palavra:

– Porque roubaram o meu coração!

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Faça uma doação ao JGB

About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]