Comunicação comunitária pela preservação do meio ambiente | Por Pedro Neto

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

Cerca de 200 famílias vivem atualmente em Caririacá, comunidade extrativista localizada à margem do rio Amazonas. Assim como outras, Caririacá fica distante dos grandes centros urbanos, o que dificulta o acesso da população local às assistências básicas como saúde e educação. Foi neste cenário que nasceu Fábio Anderson Pena, o cidadão que serve de exemplo para mostrar como o conceito de educação aliado à comunicação pode ser um instrumento de transformação social − e ainda contribuir para o combate à degradação ambiental na Amazônia.

Em 1987, quando a organização não governamental (ONG) Projeto Saúde & Alegria estava iniciando as atividades nas comunidades da zona rural dos Municípios de Santarém, Belterra e Aveiro, todos no Estado do Pará, Fábio ain-da cursava o ensino fundamental. À época, nem imaginava que o apoio da ONG na sua comunidade transformaria sua realidade. Ainda criança, Fábio participava de projetos de desenvolvimento infantil promovidos pelo Saúde & Alegria. “Participei de uma série de atividades lúdicas voltadas para a o desenvolvimento das crianças, principalmente relacionadas com educação ambiental”, explica ele.

Em 1995, os projetos de comunicação comunitária desenvolvidos pela ONG chegaram à Caririacá. Foi quando Fábio passou a participar das oficinas de rádio, vídeo e jornal impresso ofertadas para os jovens da comunidade. Em seguida, ele e outros jovens da comunidade começaram a fazer programas de rádio, jornais impressos e vídeos. O jornalismo local era veiculado entre a população da comunidade.

A comunicação comunitária falava do cotidiano local e ajudava a fortalecer a cultura do povo. No seu envolvimento com os projetos de comunicação, Fábio desenvolveu o gosto pela atividade. Tanto que chegou a ser coordenador do grupo de jovens repórteres de Caririacá, mas ele teve que deixar a comunidade para morar em Santarém, distante quatro horas de barco de Caririacá, onde seria possível cursar o ensino médio.

Na cidade, Fábio não perdeu o contato com a comunicação comunitária. Por lá, acabou ainda mais entrosado com a idéia de educomunicação − a comunicação usada como ferramenta para educação, principalmente por causa do convite aceito para ser estagiário de comunicação do Projeto Saúde & Alegria. Já no final da adolescência, Fábio começa os estudos na faculdade de Pedagogia. A partir daí, Fábio não parou mais de trabalhar com a comunicação, nem de estudar. Participou de seminários pelo Brasil, a convite da ONG, e concluiu o curso de Pedagogia. Formado, passou a ser o coordenador da Rede Mocoronga de Comunicação Popular.

Comunicação comunitária na Amazônia

A Rede Mocoronga, que abrange 32 comunidades (às margens dos rios Tapajós e Amazonas) e envolve cerca de 250 jovens repórteres, é desenvolvida pelo Projeto Saúde & Alegria no sentido de educar para desenvolver as comunidades amazônicas. É uma rede de jornais impressos, programas de rádio e vídeos comunitários produzidos pelos jovens das comunidades, que pesquisam e relatam a existência do local onde vivem. “Ou seja, os grupos de jovens fazem comunicação para eles mesmos e, com isso, se educam”, explica Fábio Anderson Pena, coordenador de Educação, Cultura e Comunicação do Saúde & Alegria. A participação da ONG fica na capacitação dos grupos e no fornecimento de estruturas técnicas que possibilitam a execução dos projetos.

Fábio, que já vivenciou a difícil realidade dos jovens nessas comunidades, explica por que trabalhar com a juventude. “O jovem é o cara que está vendo uma luz piscando do outro lado do rio, ele quer conhecer a cidade, quer sair da sua região e ganhar mundo. Os jovens gostam da cidade, gostam de tecnologia, eles são muito atraídos por essa modernização. Queremos que os jovens enxerguem um sentido de existência na sua própria comunidade e passe a valorizar mais sua própria cultura”, diz ele.

O jornal O Mocorongo, impresso que circula em todas as 32 comunidades que fazem parte da Rede, é um exemplo do fluxo de comunicação entre as comunidades. Com tiragem de três mil exemplares trimestralmente, O Mocorongo divulga as principais reportagens dos jornais de cada um dos 32 núcleos de jovens repórteres da Rede. O cenário do projeto é o Estado do Pará, exatamente dentro da Amazônia, região que abriga a mais rica biodiversidade do mundo. “A população amazônica está preocupada com o meio ambiente, mas não é porque sabe que se acabar a Amazônia, vai acabar o mundo não. Eles estão é sentindo falta de um meio ambiente onde possam continuar sobrevivendo”, conta Fábio Pena, informando que as populações ribeirinhas da Amazônia (a maioria caboclos, descendentes de índios) vivem da pesca, da agricultura de subsistência e da extração de materiais na natureza para o artesanato.

O propósito desses projetos de comunicação popular é a melhoria da qualidade de vida das populações da Amazônia. Para o advogado e professor de Direito Ambiental, João Alfredo Telles Melo, a educação das populações amazônicas é fundamental para a preservação do meio ambiente. “Ao lado de políticas públicas que combinem a repressão às ações de degradação e estímulo as atividade sustentáveis, a educação é a chave para a proteção do meio ambiente como um todo, não só o amazônico”, diz ele. Uma contagem do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feita em 2007, mostra que somente as populações de Belterra e Aveiro formam um contingente de 31.537 pessoas, gente que tem a sobrevivência comprometida pela degradação do meio ambiente; e que cotidianamente entendem a urgência da preservação.

Bioma comprometido pela ação do homem

Para o coordenador do Projeto Saúde e Alegria, Caetano Scanavinno, é preocupante o cenário de degradação que se vive hoje na Amazônia. Somente no mês de maio, o desmatamento destruiu 1.096 quilômetros quadrados de árvores. Os dados são do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) e revelam que o Mato Grosso é o estado que mais desmata, representando em seu território 59% do desmatamento no mês de maio. Somente em abril, a área desmatada na Amazônia corresponde ao tamanho da cidade do Rio de Janeiro. A região, no entanto, é reconhecida por diversas autoridades e estudiosos como fundamental para o equilíbrio climático global.

Cada árvore da Amazônia evapora para a atmosfera cerca de 300 litros de água por dia. Na região de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, que compreende a Amazônia Legal (território brasileiro da Amazônia, ou cerca de 61% do território nacional), são 20 bilhões de toneladas de água doce que todos os dias sobem para a atmosfera. A Amazônia é também a mais rica biodiversidade do mundo, contendo quase a metade das espécies conhecidas de animais e insetos.

João Alfredo, que é ligado ao Greenpeace, lembra que o desmatamento não é o único problema grave que assola a região. Problemas sociais, como pobreza e o trabalho escravo que atinge comunidades indígenas e camponeses pobres, também estão na lista das mazelas. Segundo ele, os problemas na região “são decorrentes de uma forma de ocupação que é socialmente injusta e ecologicamente irresponsável e predatória”. De fato, o controle das terras na Amazônia tem sido precário. Um relatório do Greenpeace sobre a grilagem (posse ilegal) de terras no Estado do Pará revela o problema de descontrole fundiário nas terras amazônicas. Segundo o relatório, o desmatamento no Pará é estimulado por mais de 40 anos pela exploração de madeira predatória e não sustentável. “O uso da terra está, em grande parte, ligado à grilagem de terras públicas – que são exploradas por madeireiras e depois transformadas em pasto”, diz o relatório.

Cientistas concordam com a idéia de que o desmatamento e as queimadas na Amazônia são processos que contribuem diretamente para o aquecimento global do planeta Terra. Ao mesmo tempo, segundo o Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), mais da metade das florestas da região amazônica é alvo de estiagens anuais que duram de três a cinco meses, entre julho e novembro. Para Anderson Silva da Costa, porém, pesquisador do Instituto do homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) ainda não é possível estabelecer uma relação direta entre o aquecimento global e os fenômenos de estiagem.

No segundo semestre de 2005, contudo, a Amazônia passou por um grave período de seca que chegou a ser diretamente relacionado à elevação da temperatura da Terra. À época, imagens divulgadas nos meios de comunicação mostravam igarapés secos, peixes mortos e barcos encalhados em bancos de areia. Comunidades ribeirinhas ficaram sem ter como pescar ou plantar para sobreviver. Isto seria inimaginável que acontecesse numa região riquíssima em água, que contém mais de 20% da água doce disponível no mundo.

Anderson explica que com a derrubada indiscriminada de árvores, a região fica mais quente. Segundo ele, isso acontece porque as árvores da floresta são responsáveis por evaporar para a atmosfera a grande quantidade de água que, diariamente, mantém a umidade da região. Com a devastação, por meio de queimadas e desmata-mentos, teremos menos árvores, menos umidade e mais calor na região − que potencializa a devastação das queimadas. Além disso, essas as queimadas emitem para a atmosfera grandes quantidades de gases de efeito estufa (GEE), que provocam aquecimento do Planeta. É um processo de mu-dança climática que atinge diretamente a vida das comunidades ribeirinhas, e que compromete, de fato, a vida de todos nós.

* Pedro Alves dos Santos Neto é aluno da Faculdade 7 de Setembro (FA7), no Ceará.

Reportagem publicada na revista Meio Ambiente e Mudanças Climáticas na Amazônia, que reúne matérias de participantes do Laboratório Ambiental de Jornalismo promovido pela Fundação Konrad Adenauer, realizado no mês de junho, em Santarém (PA). Para ler a revista, baixe o arquivo (PDF): http://www.kas.de/wf/doc/kas_15054-544-5-30.pdf. Conheça o trabalho da Fundação em Fortaleza ) e em Buenos Aires (http://www.medioslatinos.com).

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