Bassuma, Torquemada e a grave questão do aborto criminalizado | Por Oldack Miranda

Oldack Miranda fez parte da resistência democrática e foi preso e torturado por prepostos da ditadura militar.Oldack Miranda fez parte da resistência democrática e foi preso e torturado por prepostos da ditadura militar.

Foi pouco. A revista CartaCapital (17.12.08) em excelente reportagem sobre a criminalização do aborto no Brasil e suas trágicas consequências para as mulheres, reproduz a opinião do deputado espírita Luiz Bassuma (PT-BA). Na legenda da foto, o identifica como “Bassuma, candidato a Torquemada”. Foi pouco.

Bassuma, o Torquemada baiano engrossa a fileira dos parlamentares conservadores, reacionários na questão do aborto. “Mesmo diante dos números da mortalidade em razão do aborto na Bahia, ele não considera o problema caso de saúde pública” diz a revista. “Aborto é crime” berra o político. É a condenação à morte para milhares de mulheres. Torquemada, o Inquisidor Geral da Igreja, pelo menos, matou milhares de pessoas na fogueira em plena Idade Média, não em 2008. Os dois são a face intolerante da religião.

Decidido a purificar a Espanha, a erradicar heresias, Torquemada levou 30 mil vítimas queimadas na fogueira. Estimulava a delação de parte dos “defensores da fé”. Para estimular a delação, Torquemada ensinava aos católicos como vigiar seus vizinhos: Se seu vizinho vestir roupas limpas e coloridas no sábado, ele é judeu; se seu vizinho limpa a casa na sexta-feira e acende velas mais cedo, ele é judeu; se seu vizinho come pão ázimo e inicia a refeição com aipo e alface na Semana Santa, ele é judeu; se seu vizinho recita suas preces diante de um muro, e se balança para tráz e para a frente, ele é judeu.

E judeus na Inquisição tinham os bens confiscados, eram obrigados a desfilar pelas ruas em trajes humilhantes, flagelados e mortos nas fogueiras, após inomináveis torturas durante os autos-de-fé. Torquemada provocou a fuga de um milhão de judeus da Espanha para Portugal. É o lado sombrio da História da Igreja Católica. O primeiro holocausto.

Quantas milhões de mortes por causa do aborto inseguro nosso Torquemada petista vai provocar com sua intolerância religiosa? O dossiê “A realidade do aborto inseguro na Bahia”, no qual a revista CartaCapital se baseia na reportagem, dá uma pista: na capital baiana 72 mulheres perdem a vida a cada 100 mil nascidos vivos. O aborto é a principal causa isolada de óbitos. Em Salvador, morrem por causa do aborto inseguro mulheres jovens, negras e pardas. Como a estimativa do Ministério da Saúde é de que anualmente se cometem de 700 mil a 1 milhão de abortos, à margem da lei, pode-se imaginar a mortandade.

E ainda tem um Torquemada baiano a pedir “pena leve” para mulheres que fazem aborto? A pregar que aborto não é caso de saúde pública? A pedir CPI do Aborto? E olha que a Câmara dos Deputados está cheia de Torquemadas. Tem até uma Frente Parlamentar contra o Abortamento. Estamos na Idade das Trevas?

Sou mais o deputado federal José Genoíno (PT-SP), para quem aborto não é assunto de juiz, padre ou delegado. É uma decisão da mulher. E as mulheres baianas que se cuidem com nossos Torquemadas espíritas.

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