A Bahia se carrega na cabeça

Juarez Duarte Bomfim.Juarez Duarte Bomfim.

Na Salvador seiscentista, muito acidentada, cheia de ladeiras íngremes, com núcleos de povoação nas cumeadas das colinas, o meio de transporte mais comum eram os pés, ou deixar-se levar por escravos nas cadeirinhas de arruar, palanquins, serpentinas e liteiras.

Aliás, este tipo de transporte vai chamar a atenção de cronistas e viajantes que visitam a Bahia no período: “Trata-se de uma rede coberta de um pequeno dossel bordado e carregado por dois negros através de um longo bastão ao qual está suspensa pelas duas extremidades. As pessoas de qualidade aí se fazem carregar para a igreja, em suas visitas e mesmo ao campo”.

Nessa época, a abundância de escravos na cidade leva a que eles cumpram a função de cavalos e transportem de um lugar a outro as mercadorias mais pesadas. É certo que as diferenças de níveis existentes na cidade tornam inconvenientes as carruagens, mas o príncipe Maximiliano da Áustria (em 1860) observa que “a cadeirinha, este meio de locomoção do Brasil, deve sua existência à escravidão”.

A relação senhor-escravo era então a base da sociedade e da economia, com os negros escravizados subordinados política, social e economicamente a seus senhores. Historicamente, a relação de produção escravista inibe o desenvolvimento das forças produtivas, e, no caso de Salvador, o escravismo adiou o uso intensivo de veículos de transporte sobre rodas, chamando a atenção dos que aqui chegavam que mercadorias de toda espécie eram carregadas nas cabeças dos negros escravizados. “A Bahia se carrega na cabeça”, afirma Jorge Amado, traço cultural que se mantém até hoje no cenário urbano de Salvador.

Estimava-se que no ano de 1714 cerca de 95% das pessoas que transitavam na cidade baixa eram negros e negras “completamente nus, com exceção das partes que o pudor obriga a cobrir, de modo que esta cidade parece uma nova Guiné”.

Mais de uma centúria depois (1859), as coisas não mudaram muito: “poucas cidades pode haver tão originalmente povoadas como a Bahia. Se não se soubesse que ela fica no Brasil, poder-se-ia sem muita imaginação tomá-la por uma capital africana, residência de poderoso príncipe negro, na qual passa inteiramente desapercebida uma população de forasteiros brancos puros. Tudo parece negro: negros na praia, negros na cidade, negros na parte baixa, negros nos bairros altos. Tudo o que corre, grita, trabalha, tudo o que transporta e carrega é negro”, afirma um viajante europeu.

Este mesmo cronista escreve que “a mim pelo menos pareceu que o inevitável meio de condução da Bahia, as cadeirinhas, eram como cabriolés nos quais os negros faziam às vezes de cavalo”; observação que leva Maximiliano da Áustria a dizer: “os negros são escravos, e, por isso, animais com alma humana. Os brancos são os senhores de escravos, portanto, seres humanos com alma animal”.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]