Senhor Buda, o Desperto

Juarez Duarte Bomfim.Juarez Duarte Bomfim.

Uma das doutrinas filosóficas que atraem mais atenção no Ocidente é o budismo, respeitada por representantes de todos os credos e também por agnósticos e empedernidos anticlericais.

Isto porque o budismo é ao mesmo tempo uma religião praticada por milhões de adeptos espalhados pelo mundo, e do mesmo modo uma filosofia a ser adotada por pessoas que se consideram não-religiosas.

Atraente para os agnósticos é a idéia do budismo ser uma “religião sem Deus”, devido ao Buda nos seus ensinamentos nunca falar de Deus, no sentido da teologia ocidental. Todavia, Buda admite um Ser Universal, suprapessoal e superconsciente, que está para os indivíduos pessoais e conscientes assim como a Vida Cósmica está para os seres vivos da natureza, ou como a Consciência Universal está para os seres individualmente conscientes.

Buda significa o Desperto, o Iluminado. E o despertar do Príncipe Sidarta Gautama aconteceu numa noite de lua cheia, quando ao Buda Sakyamuni se revelou a sua missão de professor.

No dia em que cumpria 35 anos, na lua cheia do mês de maio de 580 a.C., sentado debaixo de uma enorme árvore perto de um riacho, o príncipe Sidarta alcançou a sua iluminação. Dissolveram-se então os últimos véus que cobriam sua mente, desapareceu a falsa percepção de separação entre energia e espaço superior, e isso lhe permitiu converter-se em consciência intemporal e onisciente. Conheceu tudo com cada átomo do seu corpo e foi uno com eles.

Ele não somente compreendeu a essência da vida do universo, como percebeu que a sua própria vida estava respirando em perfeita harmonia com todo o ritmo cósmico. Compreendeu totalmente a lei da causalidade: o destino de toda a humanidade que permeia as três existências da vida. Com a iluminação, ele havia sem dúvida encontrado o meio de superar todos os sofrimentos humanos – o nascimento, a velhice, a doença e a morte.

Sakyamuni percebeu que os sofrimentos provêm das ilusões e da natureza obscura dos homens ocultarem o estado de Buda que todos possuem. E o que havia experimentado estava além da descrição por palavras, embora não fosse nada sobrenatural ou além da capacidade humana.

Pelos seus 45 anos restantes o Senhor Buda ensinou o caminho para atingir o nirvana, isto é, a senda para alcançar a felicidade e a paz. É dito que existem 84.000 categorias de ensinamentos (sutras) do Buda Histórico. Esses ensinos podem ser resumidos nas “Quatro Nobres Verdades” e no “Nobre Caminho Óctuplo” – que é o conjunto de oito práticas que correspondem à quarta Nobre Verdade do Budismo.

A primeira Nobre Verdade é a do sofrimento. Doença, morte, tristeza, lamentação, dor, pesar e desespero são sofrimentos. E todos sofrem. Não ter o que se deseja é sofrimento, separação do que se deseja é sofrimento, saudade é sofrimento. E todo esse sofrimento está na nossa própria mente. Nós produzimos o nosso sofrimento.

A segunda Nobre Verdade é a causa do sofrimento. Qual é a causa do sofrimento? É o desejo, o apego, a cobiça e o ódio. Mas aonde o desejo surge? Onde estão suas raízes?

As raízes do desejo e do apego estão nos sentidos humanos – visão, audição, olfato, paladar, tato – e na mente. Se agradável for a sensação de algo que experimente, a pessoa o aprova e esta sensação condiciona o desejo. O desejo gera o apego.

Dessa maneira surge o sofrimento. Sofre-se ao desejar e ao se apegar. O desejo é irrealizável, pois senão deixaria de ser desejo; o apego provoca dor e sofrimento ao se perder o objeto do apego. E um dia isso vai ocorrer.

A terceira Nobre Verdade é a extinção da causa do sofrimento. A completa erradicação e desaparecimento do desejo, apego, cobiça e ódio faz cessar o sofrimento. O individuo deve se libertar da ilusão do “eu” (ego) e do “meu” (posse).

É com a extinção da ignorância que o desejo também é extinto. E pela cessação do desejo cessa-se o apego. Para atingir a sabedoria e fazer cessar a ignorância o Buda nos transmite a quarta Nobre Verdade.

A quarta Nobre Verdade é a senda que leva à extinção do sofrimento. Existem dois caminhos extremos e o caminho do meio. O caminho do Buda é o caminho do meio.

Há o caminho dos prazeres sensuais, hedônicos, vulgares e mundanos que apenas alimentam o desejo e o apego – que são as causas do sofrimento humano.

E há o caminho da mortificação do corpo, que o próprio Buda experimentou por longos e penosos 16 anos antes do seu despertar. Esse caminho é doloroso e também sem expectativa alguma que traga a felicidade e a paz.

O Senhor Buda recomenda abdicar desses extremos e seguir o caminho do meio, o qual propicia a qualquer um ver e compreender – este é o caminho que leva ao conhecimento (sabedoria) e ao nirvana.

O caminho do meio é formado por uma série de oito ensinamentos, denominados de “Nobre Caminho Óctuplo”. Praticando o nobre caminho óctuplo o sofrimento e suas causas são eliminadas.

Eis as palavras de Buda, proferidas em Benares (Índia) aos seus discípulos: “Aqui tendes, ó monges, a Nobre Verdade sobre o caminho que conduz ao fim do sofrimento. É o caminho Óctuplo, ou seja, o entendimento correto, o pensamento correto, a palavra correta, a ação correta, o modo de existência correta, o esforço correto, a atenção correta e a concentração correta”.

Aqui seremos mais uma vez obrigados a fazer um resumo dos ensinos do Buda.

O primeiro dos oito nobres caminhos ensinados pelo Buda é o da correta compreensão ou entendimento. Significa compreender as quatros nobres verdades já enunciadas.

O segundo dos nobres caminhos é o de pensar corretamente, ter pensamentos corretos. Ter boa vontade, benevolência e amor.

O terceiro dos nobres caminhos é de executar os dois primeiros através do uso correto da palavra. Palavra correta. Não mentir, caluniar ou ofender o próximo.

O quarto nobre caminho, agir corretamente, é um conjunto de preceitos éticos e morais para uma vida reta: significa não matar, não roubar ou ser infiel.

O quinto nobre caminho é o da pessoa ter meio de vida correto. Constitui-se de tirar o sustento material de atividade honesta, nunca prejudicando e explorando o semelhante.

O sexto é de fazer o esforço correto para evitar e superar o mal; o esforço de fazer surgir o bem, manter e desenvolver o bem. Para quem tem dúvidas filosóficas sobre o que é o bem, o bem é o que proporciona a paz, a harmonia, a evolução e o progresso.

Ter atenção correta sobre o corpo, sensações e a consciência é o sétimo nobre caminho. Deve-se manter o corpo e a mente sadios. Abster-se de abusos alimentares e substâncias prejudiciais à saúde.

O oitavo nobre caminho é a concentração correta. A luxuria, raiva, ira, ódio, preguiça, dúvidas e preocupações são obstáculos para o desenvolvimento da concentração. A concentração correta deve ser alcançada com a mente limpa através da meditação.

A conduta humana regida por esses oito princípios levará o caminhante a uma vida moderada, de equilíbrio, conforto e bem-estar. Não passará pelo sofrimento de arcar com as conseqüências negativas do uso incorreto da palavra ou da ação moralmente condenável.

O discípulo que galgar êxito nessas oito vias para a libertação, fazer cessar o desejo e o apego, terá o seu carma extinto, isto é, ações humanas que inevitavelmente geram implicações.

Já aquele individuo aprisionado a esse círculo vicioso, da lei da causa e efeito, estará preso à “roda de sansara”, quer dizer, nascimento e morte, desencarne e reencarnação, sem alcançar a paz e a felicidade, o despertar, a iluminação.

O discípulo que trilha o caminho do meio dissolve o seu carma e rompe os ciclos reencarnatórios. Dessa maneira poderá alcançar a bem-aventurança e o bem-estar supremo – o nirvana prometido por aquele já Desperto, o Senhor Buda.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]