Poetema: Economia para não-economistas

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

Meu amigo, os tempos mudam. Veio a terceira onda.
A pujança do futuro, que do mundo fez a ronda.
Um aspecto importante são as Bolsas de Valores,
Templos do capitalismo, dizem os seus detratores,

Quando, na realidade, são só fonte de recursos.
De um lado temos “touros” e do outro temos “ursos”,
Como são apelidados no mercado americano,
Distinção bem diferente de Fulano e Beltrano.

“Touros” são os otimistas que apostam: “vai subir”.
Acreditam só na alta. Nada os faz desistir.
Faz um tempo isso dura. É mania nacional,
Fala-se em exuberância que seria irracional.

“Ursos” são os que duvidam. Pessimistas contumazes,
Não se trata de covardes. A seu modo, são audazes.
Mas somente enriquecem em ambiente deprimido.
Se o touro está “comprado”, sempre o urso está “vendido”.

Por falar nos movimentos, do acaso não são fruto.
Peço que encare a Bolsa como sendo um aqueduto
Porém nele, em vez de água, tem dinheiro em movimento.
Dizem que, para as empresas, é o melhor financiamento.

Imagine uma empresa micro, estatal ou truste
Que, por falta de recursos, não consegue seu ajuste.
Claro está que necessita de um tipo de suporte,
Pois vai procurar dinheiro por dever, não por esporte.

Capital tem várias fontes, ele é próprio ou de terceiros.
Quando o próprio for escasso, há mercados financeiros.
Rotulado é de próprio o dinheiro do patrão,
Ou o lucro apurado que sofreu reinversão.

Mas, se não for suficiente, é preciso escabichar,
Por exemplo, ir ao banco que lhe queira emprestar,
Entregar-lhe o balanço e ter muita competência,
Devolver no prazo certo, se não, pedem-lhe a falência

Permaneça sempre frio e evite a bravata,
Nada que desesperar-se com impostos em cascata.
Bobeando, a empresa vai parar no hospital.
Será fraco o consolo: tudo deu para o social!

Não esqueça que entre juros, PIS, COFINS e principal,
É capaz que pouco sobre do sofrido capital.
Para preservar a firma e o sucesso dos negócios,
Recomenda-se, agora, se cercar de novos sócios.

Acredito que se trate da melhor das soluções,
Dizem que é mais barato emitir novas ações.
Ordinárias que permitem ter um voto em assembléia,
Que decidem novos rumos, quando a situação for feia.

Ou, então, preferenciais. Não precisa ir correndo,
Pois vão com prioridade garantir o dividendo.
O melhor é que o momento seja de euforia,
Quando todo mundo fala na tal nova economia.

Novos sócios enriquecem? A resposta é: quem sabe.
Muitos sonham com um iate, um Picasso ou um Mabe.
Ou, talvez, na Cochinchina, passar a lua-de-mel.
Mas trocaram seu dinheiro por pedaços de papel.

Que depois de certo tempo valem rios de dinheiro
Ou, em casos infelizes, vão empapelar banheiro.
Como foi em vinte nove, hoje não ocorre mais.
E por um motivo simples, porque são escriturais.

Cabem todas num extrato, observado pelo fisco
Que, de vez em quando, olha um computador, um disco.
Fica-se sob os olhares da Receita Federal
Pois vendendo, se apura um ganho de capital.

Antes de falar em ganho, quem será que vai vender,
Se tiver boas ações, para que se desfazer?
Definiu com propriedade Lorde Keynes certa vez
“Por que todos possuímos propensão por liquidez.”

Caso a companhia tenha um futuro promissor,
Buscam os investidores as ações com furor.
E, se não houver oferta, os que buscam sinecura
Fazem decolar os preços: essa é a lei da procura.

Para isso serve a bolsa, através de um corretor,
Todo comprador encontra respectivo vendedor.
Tudo vale em teoria, pois se a ação dispara
Quem queria vender, some, e ninguém lhe vê a cara.

A recíproca, sabemos, vale tanto ou até mais.
Com ação em parafuso, não há comprador. Jamais.
Sobra para os vendedores, ouvir Lilian Witte Fibe:
“Ontem tinha uma Mercedes, hoje nem compra um quibe”.

Há ações que acompanham bem de perto o mercado,
Quando este está pra cima, elas têm acompanhado.
Para tanto os analistas sacam do vocabulário,
‘Trata-se com evidência de um beta unitário’.

Não seria tão difícil, mas, dizia Twain, é duro
Fazer boas profecias que prevejam… o futuro.
Vale a pena ser prudente, não dar sopa pro azar.
Como se evitam riscos? Deve diversificar.

Para quem tem vários ovos, evitar o mesmo cesto,
Pois, se ocorrer um tombo, pode adivinhar o resto.
Essas forças do mercado, aqui vale o lembrete,
Podem transformar o todo numa enorme omelete.

Para os investidores, há um último recado.
O ambiente do mercado se tornou globalizado.
Bolsas vivem amarradas em discreta harmonia.
Em Wall Street um resfriado, na Bovespa pneumonia.

Quem falar em pneumonia pensa logo em Raios X
Pode ser só um soluço, dizem: é o risco País.
Preocupação que mata nessa situação hodierna
Dependemos como nunca da tal dívida externa.

Sem contar com a cratera que se abriu na Previdência
As reformas, até hoje, mostram nossa impotência
Em lidar com esse drama.Essa é a lição de casa
Surgem os espertalhões que querem ‘tábula rasa’

Ao pedirem o calote, miram nos seus próprios pés
Radicais perorando justificam os porquês
O azar será o nosso e o sofrimento à toa,
Ao tentar impor ao mundo uma relés macacoa

E seria uma pena, pois não faltará castigo
Para quem se aventura ignorando o perigo.
Sobrará o comentário a dar volta no mercado:
‘É, foi mesmo uma pena, sucumbiu ao resfriado’.

Alexandru Solomon é autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` e o recente romance´Não basta sonhar` (Ed. Totalidade). Confira nas livrarias Cultura (www.livrariacultura.com.br), Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br) e Laselva (www.laselva.com.br).| e-mail: [email protected]

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