Galeria F: Lembranças do Mar Cinzento (XLII) | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, deputado federal (PT-BA) e membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate.Emiliano José é jornalista, deputado federal (PT-BA) e membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate.

Nesse jogo, que não tinha nada de sutil, dois objetivos eram atingidos. De um lado, a legenda tida como oposicionista transformava-se num campo alternativo para táticas eleitorais do grupo dominante. De outro, essa política, vinda do poder dominante, imobilizava o partido, fazia com que ele jogasse contra o seu próprio futuro, como apropriadamente diz Paulo Fábio.

E fazia isso por dois caminhos. Primeiro, dificultava e mesmo impedia a formação de novos diretórios no interior, garantindo que a disputa política local ficasse restrita às sublegendas arenistas. Segundo, com isso, afugentava a opinião pública das maiores cidades da militância no partido, pela fixação de uma imagem negativa como se ele fosse, na definição de Paulo Fábio, “um biombo adesista dominando por gangsters”.

Dito isso, nosso esforço a partir daqui é tentar entender o processo de transição que leva esse MDB adesista ao PMDB que Waldir Pires encontra quando chega de volta à Bahia, no início de 1979, quando já é um partido bastante distinto daquele dominado pelo adesismo. Procurar rememorar qual a constelação de forças que vai se constituindo para derrotar o transformismo de Antonio Carlos Magalhães e, assim, para brincar com as palavras, transformar o MDB, e na seqüência PMDB, num partido com feições efetivamente oposicionistas capaz de derrotar, mais à frente, em 1986, o aparentemente invencível esquema carlista.

É necessário voltar ao ano de 1970. Eram poucas as vozes que se levantavam contra o adesismo até porque para tanto impunha-se uma boa dose de coragem, para além da clareza política. Claro que havia alguns personagens com tal característica. Mas é imperioso dizer que um encarnou de modo muito especial a coragem e a lucidez: Francisco Pinto. Ele que, como vimos, relutara em assumir a candidatura a deputado federal, não por qualquer indício de medo, mas por acreditar que tinha outras tarefas a cumprir.

Eleito deputado federal naquele ano, transformou-se na principal voz oposicionista no Estado, denunciando, no plano nacional, a ditadura, e na Bahia não só o autoritarismo de Antonio Carlos Magalhães como também o adesismo do MDB, partido ao qual pertencia, até porque o País vivia sob o bipartidarismo por uma imposição da ditadura. Durante o início da década de 70, insista-se, algumas poucas vozes se levantavam contra esse domínio. Chico Pinto era, na Bahia, a face mais visível da resistência, a grande liderança oposicionista. E uma ave quase solitária na vida pública.

Um breve parêntese para afirmar que o domínio do MDB pelo adesismo na Bahia contava com o beneplácito da Direção Nacional do MDB, especialmente com o secretário-geral do partido, Thales Ramalho. Houvesse, é evidente, um interesse efetivo por parte dos dirigentes nacionais e, por certo, essa situação não perduraria por tanto tempo, como perdurou.

De 1970 a 1974, a ditadura parecia dominar a cena. Parecia. As eleições de 1974, no entanto, e já falamos dos resultados delas em outro momento desse livro, foram uma ducha de água fria no ânimo da ditadura. Contrariaram de modo frontal a expectativa dos militares.

Na Bahia, não houve grandes modificações, é verdade. Mas, os resultados, favoráveis ao MDB, não deixavam de produzir impactos positivos para o partido. As perspectivas tornavam-se mais animadoras. O adesismo não tinha a força anterior, não podia jogar contra o futuro, como o fez durante a primeira metade da década.

Além disso, um outro governador fora nomeado pela ditadura: o professor Roberto Santos. Evidentemente, era outro personagem, com características bem menos ditatoriais, ao menos como pessoa, do que Antonio Carlos Magalhães. Santos não teria as mesmas relações com o MDB adesista. Não era de seu feitio. Ele assume o governo em 1975.

É a partir desse momento que cresce o movimento em torno da constituição da Ala Jovem do partido – um movimento político capitaneado pela juventude e destinado a fazer frente ao adesismo, a se contrapor àquela dinâmica que colocava o MDB inteiramente nas mãos de Antonio Carlos Magalhães.

Creio que é necessário dizer que esse esforço pela constituição da Ala Jovem, que sempre enfrentou a dura oposição da direção do partido liderada por Ney Ferreira, era parte de uma articulação mais ampla, que encontrava no Partido Comunista Brasileiro (PCB) o seu principal inspirador e articulador.

Jornalista, escritor, autor de Lamarca, o Capitão da Guerrilha; Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar; As asas invisíveis do padre Renzo; Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte I e II.

*Emiliano José, jornalista e escritor.

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Faça uma doação ao JGB

About the Author

Redação do Jornal Grande Bahia
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]