Barack Obama: contemporaneidade e Relações Raciais | Por Lucia Correia Lima

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

O jornalista John Carlin, repórter do espanhol El País, com uma simplicidade que me faz lembrar uma brincadeira dos ingleses, que goza com a palavra miss, (senhorita), transformando-a em uma sigla, que quer dizer: meke it simple, stupid!. Ou seja: faça a coisa simples, estúpido! Na matéria “A Cor de Obama nos desafia”, reúne em seu texto, informações antropológicas, históricas e sociológicas, que nos faz entender a questão, que o mestiço norte americano enfrenta em seu caminho para a Casa Branca, diante dos afro-americanos, que têm semelhanças, mas, fundamentais diferenças de nossos afro-brasileiros.

Na matéria de página inteira, publicada no jornal A Tarde deste domingo, que comprei mais para ver as fotos de Rejane Carneiro, no suplemento dominical Muito, o repórter nos mostra os abismos entre os que se autodenominam afro-americanos e são descendentes dos escravos, com origem na África Ocidental que chegaram à América entre os séculos XVII e XIX; e, os que são a nova geração de descendentes africanos que “se instalaram na terra das oportunidades de maneira voluntária, atraídos pela possibilidade de uma vida melhor. E disso nasce aquele otimismo fresco, às vezes ingênuo, que segue definindo a American Way of Life.”.

Obama, não é descendente de escravos, e nasce de uma mãe bem branquinha e corajosa, ao se casar com o africano, em um Estado em que uniões entre brancos e negros, eram proibidos por lei. Depois, tão corajosa quanto, se casou novamente com um oriental, que obviamente colaborou na educação, daquele que segmentos menos conservadores no mundo, torcem, para que seja o próximo presidente dos Estados Unidos.

Temos simpatia por Obama, embora ele, como todos os mortais, tenha equívocos; e já está equivocado, completamente equivocado quando disse em um dos seus discursos de campanha, que “a Amazônia é internacional”. Se assim o for, quero voltar para New York sem visto, apenas com minha identidade da FENAJ. (Federação Nacional dos Jornalistas, que, com lei federal nos fornece o mesmo documento fornecido pelas Secretarias de Seguranças).

Lendo, neste sereno domingo, o matutino baiano, depois de chegar de uma festa para Omolu, em São Francisco do Conde, onde dormir no barracão ao lado dos filhos e filhas da casa, lembrei-me do dia em que as torres, símbolos do poder econômico americano, estavam tragicamente sendo derretidas, por ações terroristas. Acontecia naqueles 11 de setembro em Salvador, um encontro internacional de capoeira angola. A arte “afro-brasileira”, que me encantou desde jovem, e sua prática, faz com que meu corpo e vida, sejam vistos, de uma forma, em que as pessoas pensam que tenho dez anos menos.

Hospedavam-se em minha casa, quatro capoeiristas norte-americanas; e aqueles que se instalaram nas pousadas de minha rua, fizeram dela ponto de encontro. No exato dia em que os aviões destruíram as torres em New York, uma das meninas do noroeste, chegou em casa aos prantos, dizendo que a guerra havia começado. Só aí ligamos a TV, e juntas, em silêncio e perplexas vimos as cenas que durante séculos, o mundo não vai esquecer.

Sofri com os colegas capoeiras, que estavam fora de seu país em um momento como aquele. Mas, logo vi que para eles, era também um momento de reflexão. Convivi de perto, com a força da alma do povo norte americano. Conversando com um dos meninos da Califórnia, ele lembrou com tranqüilidade: “tivemos um presidente que disse: a cada duzentos anos, o povo americano tem que fazer uma revolução”.

O fato de Obama já ter chegado tão próximo da presidência de seu povo, possivelmente, esta revolução que desejou ou profetizou o líder, está a caminho com mais nitidez. Embora este conceito de revolução, já seja para muitos um mito, depois da chegada do capitalismo; depois da revolução burguesa. No processo irreversível de industrialização, as maquinas estão sempre a revolucionar as relações de produção e consequentemente sociais. O velho Marx há muito já nos disse: “tudo que é sólido, desmancha no ar”!

Para o repórter do jornal espanhol, Obama é também a realização do sonho do líder negro Martin Luter King, de que um dia, seus filhos fossem julgados não pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. O mestiço chamado de negro, filho de um emigrante queniano e uma branca do Kansas, venceu porque sua inteligência emocional não é formada pela insistente memória da escravidão e da crueldade do racismo, mas pela busca de oportunidades e pela memória da coragem de sua nobre mãe, penso eu, puxando a brasa para a sadinha de nós mulheres. Ou simplificando como nos ensina os ingleses.
O jovem advogado que venceu o poderio dos Clintons, foi para Harvard, uma das melhores universidades, e tem “colhido com as duas mãos, sem um complexo aparente, as oportunidades que abundam em seu país.” Disse o jornalista John Carlin, que com este nome, deve ser também fruto desta mistura vinda da modernidade: John é um nome inglês e Carlin possivelmente italiano, não sei.

Esta matéria me fez refletir, sobre a forma enganada com que nossos lideres negros, tentam transplantar a realidade dos descendentes de escravos nortes americanos, arrastando-a para dentro de nossa realidade. Principalmente da realidade baiana, aonde o capitalismo chegou muito tempo depois que no sul do país.

O sul que recebeu imigrantes para as plantações de exportação, e para o início ao processo de industrialização, deixando os descendentes de escravos a própria sorte, como nos mostra Florestam Fernandes em seu fundamental texto de 1968, Relação de Raça no Brasil: Realidade e Mito: “… Pode-se verificar como este mecanismo se manifestava em cidades como São Salvador, Recife ou Rio de Janeiro, nas quais as populações negras e principalmente, mestiças logravam a aquisição de um nicho relativamente vantajoso na organização social e econômica daquelas comunidades.”

O genial Florestan, também fruto de uma mistura de “raças”, (porque raças não existem), descreve o quanto a vida dos ex-escravos da Princesa Isabel, em São Paulo, continuou dramática, pelo fato de não serem absolvidos e preparados para a vida de libertos e assalariados. Sendo rapidamente substituídos pelos imigrantes. Ficando os homens negros libertos em degradante situação; sustentados pelas mulheres que se adaptaram aos salários e obrigações das empregadas domésticas.

Os afro-americanos foram objetos de estudo do escritor catedrático negro Shelby Steele, que há quase vinte anos escreveu “O Conteúdo de Nosso Caráter”, que deveria ser estudado por nossos lideres afro-brasileiros, que comentem o equivoco de trazer para nós as dores e estratégias dos descendentes de escravos norte americanos, dos quais Obama não faz parte.

“Steele fala da “carga perigosa” que representa a memória histórica da opressão e da condição mental “defensiva e guerreira” que ela gera. O movimento em direção ao passado é tão irresistível que as oportunidades que alguém tem no presente se tornam invisíveis”. Escreve John, mas deixa claro também, a obviedade da continuação de sinais importantes de racismo no país de Obama; e esta obviedade sim, pode ser transplantada para o Brasil, quando insiste em tapar o sol com a peneira ao esconder em palavras o racismo em nossa sociedade.

Mas, como evoluímos, mesmo que não queiramos (ave Maria!) existem sim muitos lideres negros baianos, que têm também esta visão contemporânea de Obama. Lembro-me de um evento para homenagear mestres de capoeira, organizado pela CUT e patrocinado pelo Sindicato dos Químicos e Petroleiros, em que a mestra angoleira Janja, disse em seu discurso: “A questão do racismo em nossa sociedade, é de toda ela, brancos e negros, é do conjunto da sociedade.”

Por isto entendo Obama, quando ele, na presença de milhares de pessoas em um estádio, e para as câmaras de TV, disse, com suas palavras, que aqueles negros que esperavam dele esta memória da escravidão, esta dor nunca superada que os levam para trás, para um baixo desempenho nas escolas, para alto índice de doenças cardíacas e uma constante baixa-estima, não para o futuro, que estes, não precisavam votar nele. Barack em toda sua campanha está deixando claro: quer ser o presidente de todo o povo americano, negros, brancos, oriental-descendentes e hispânico-descendentes.

Ah! Rejane continua dando um banho na fotografia do caderno Muito, do jornal A Tarde; e fazendo sozinha, o trabalho, que no texto, é feito por seis profissionais!!! Ah os repórteres fotográficos, sempre sofrendo discriminação e tendo que trabalhar mais que todos os jornalistas, pelo mesmo salário! Mesmo no mundo da imagem! Ah o capitalismo atrasado da Bahia! Ah, adorei quando Florestan Fernandes chamou Salvador, de São Salvador, é mais chick!

Lucia Correia Lima

Salvador – 18 de agosto de 08

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