Amor ao futebol

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Poucas esferas da vida social provocam tanto interesse e paixão como o futebol. Ele é tão essencial como o ar que respiramos. O futebol é um universo em si, talvez por isso o Planeta Terra se assemelhe a uma bola. O futebol é o Planeta Bola.

O futebol se basta. Ele é vida e arte. Talvez por isso não caiba na arte. Não existe uma boa literatura sobre futebol, nem música, poesia ou artes plásticas, teatro, dança… o que quer que seja… É que ele é tudo isso e aquilo e mais um pouco. Futebol é dança, teatro épico, ópera, poesia, comédia, tragédia…

Futebol é brincadeira séria, de crianças grandes e pequenas. Entretenimento para os mais sisudos, expansão de afeto dos mais brutos.

Equivocadamente alguns desdenham à toa do futebol… não reconhecem o seu valor simbólico, de representação da guerra imaginária que felizmente deixa de ser real, sanguinária, quando assovia o apito do mal afamado juiz. Em visita a país africano em guerra civil, Pelé conseguiu parar a violência fratricida, mesmo que tenha sido por algumas horas…

Devido a sua imensa popularidade o futebol é instrumentalizado pelos homens maus. Atrai para si os que não prestam… políticos carreiristas, gestores oportunistas, juízes suspeitos e técnicos de araque.

O encanto da bola rolando faz com que os bons – geraldinos e arquibaldos – tolerem tudo isso, em nome do gol.

Futebol é farsa, representação teatral. Entretenimento e diversão. Tolo de quem o leva a sério. Raros os resultados que não são manipulados. O escândalo do apito em 2005 tornou público e documentado o que “todo mundo” mais ou menos já sabia: a “fabricação” de resultados motivados por diversos interesses, e executado principalmente por aqueles que se denominam “juízes”.

O que surpreende são os meios de comunicação terem sido pegos com “as calças na mão”, isto é, nem sequer desconfiarem das armações de resultados promovidas pelo “juiz” Edílson Pereira de Carvalho.

Verdadeiras enciclopédias do futebol, esses comentaristas esportivos de nada sabiam ou suspeitavam, ao tempo em que nas casas (clandestinas) de apostas ninguém arriscava nem mais um centavo em jogos arbitrados por tal vilão.

Vox populi vox Dei… A voz do povo é a voz de Deus. E o povo nas arquibancadas unanimemente já deu o veredicto: o juiz é ladrão e a sua (lá dele) mãe é suspeitíssima…

Na farsa do futebol o papel do juiz é central, mesmo que exista a possibilidade dele influenciar resultados não intencionalmente, isto é, sem má fé.

Sendo um esporte autocrático, onde o poder absoluto de decisão está concentrado em mãos de um só, interesses escusos maiores inevitavelmente são executados pelo juiz, secundado por seus colaboradores, os “bandeirinhas”.

Talvez a solução para isso fosse acabar com as regras, assim como nas lutas livres. Por exemplo, acabar com a marcação de faltas e pênaltis, para o juiz não roubar; ou acabar com a tal “lei do impedimento”… para o bandeirinha não roubar. Os especialistas dizem não ser possível, pois se tornaria uma guerra campal ou um outro jogo… não sei.

Entretanto, quê dizer da Copa de 66, onde a equipe anfitriã foi declarada campeã com um gol inexistente?

Ousadamente, às vezes o sentimento de onipotência é tamanho que os homens maus prescindem de comprar o juiz e resolve comprar o time adversário completo, como suspeita-se que aconteceu nas semifinais da Copa de 78.

Na decisão da Copa do Brasil de 2008 a televisão entrevistou o ilustre rubro-negro Ariano Suassuna, no Recife, vestido das demoníacas cores dos pés até a cabeça. O dramaturgo pernambucano emitiu tal pérola:

– O prazer será maior se o Sport for campeão por um a zero, com gol roubado!…

Suassuna, que é o pai de personagens como João Grilo e Chicó, mentirosos e embusteiros, levava assim a farsa do seu teatro para a falsa realidade que é o futebol.

Essas constatações não diminuem em nada o amor ao futebol que possamos ter. Porém, colocando-o no devido lugar: diversão, lazer, entretenimento, arrebatamento, arte, brincadeira, paixão… tudo menos coisa séria.

Sério e honesto (ou não) pode ser o “negócio do futebol”, assaz lucrativo para alguns… mas aí já é outra história…

Post scriptum: Para desdizer o que foi dito, reproduzo a seguir o encantador poema “A Bola” de João Cabral de Melo Neto (1920-1999):

“A bola não é inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que não se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reação própria como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcia de mão.”

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]