A religiosidade cordial do brasileiro | Por Juarez Duarte Bomfim

Juarez Duarte Bomfim.Juarez Duarte Bomfim.

Alvissareiras notícias nos vêm lá do Sul, quando somos informados que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou ontem (20/11/2008) um Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e se comprometeu a enviar ao Congresso projeto de lei tornando mais rigorosas as punições à perseguição religiosa.

Em ato pelo Dia da Consciência Negra, no Rio, o presidente reuniu-se com líderes religiosos — presbiterianos, católicos, umbandistas e judeus. Lula recebeu um documento que, entre outros pontos, pede punição a veículos de comunicação que pregam a intolerância religiosa.

Uma das reivindicações é que o governo proíba patrocínio de órgãos e estatais a veículos de comunicação que estimulam a intolerância. A carta também pede ao Ministério das Comunicações punição a esses veículos com multa e retirada da programação do ar.

O pastor presbiteriano Marco Amaral destacou que sua presença no evento representava milhões de evangélicos que “não se alinham com os absurdos praticados notadamente” por certa religião detentora de grande rede de televisão. “Não queremos apenas tolerância, que pressupõe alguma intolerância; queremos que haja respeito. O cristianismo dialoga, é inclusivo e propositivo”, completa o pastor Amaral (O Globo, 21/11/2008).

Obviamente que o problema da intolerância religiosa é mais grave quando parte de grandes organizações religiosas sustentadas por poderosas redes de comunicação. Porém, em agrupamentos religiosos menores infelizmente também encontramos intolerância para com a crença dos demais, manifestado no mais das vezes na construção de um modelo religioso para si e o seu grupo de influência baseado na negação de outras crenças e rituais.

Um quê de fanatismo cego, de percepção particular do que é ortodoxia e dogma doutrinários leva a que esses indivíduos, líderes de agremiações (pequenas, médias ou grandes, não importa), construam o seu paradigma religioso a partir da negação do outro.

Na carência de uma cosmologia própria, de uma argumentação teológica original, se definem pelo que não é, quer dizer, pelo combate a outras crenças. Espantosamente, muitas vezes isso se desenvolve no seio de uma própria congregação ou doutrina religiosa, o que leva a infinitas divisões e subdivisões.

Isto em si não chega a ser problema, é uma espécie de curso natural das doutrinas e linhas religiosas. Torna-se problema quando surge a intolerância e a impossibilidade de convivência pacífica.

Entre as nações do planeta o Brasil se destaca pelo seu ecumenismo, ecletismo e, principalmente, sincretismo religioso. Esse é um fenômeno nacional e destacado pelos antropólogos como uma característica do nosso povo.

O caráter sincretista do povo brasileiro leva a existência de uma cordialidade e convivência pacífica e harmoniosa entre adeptos de diferentes crenças no seio de uma mesma família, de uma mesma coletividade.

Desgraçadamente alguns demagogos, lobos em peles de cordeiro, na condição de dirigentes religiosos com poder de manipulação das massas através dos meios de comunicação, do uso do poder econômico – ou, numa escala menor, demagogos e manipuladores existentes nas inúmeras e pequenas seitas – contrariam a generosidade do brasileiro na convivência pacífica no culto a Deus, aos santos, aos orixás, aos deuses ameríndios, aos caboclos, pretos-velhos, encantados… e quantos e tantos seres divinos existentes nos planos invisíveis – e passam a vida condenando, combatendo, zombando, desrespeitando.

A mudança de mentalidade ocorre através de modificações comportamentais de âmbito cultural e geracional, mas mudanças institucionais-legais atuam como agentes impulsionadores e aceleradores dessas mudanças. Daí que é muito bem-vindo o projeto de lei da presidência da República tornando mais rigorosas as punições à perseguição religiosa, à intolerância religiosa.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]