A imagem da classe política | Por Juarez Duarte Bomfim

Vista noturna do Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios.Vista noturna do Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios. Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Vista noturna do Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios.

Vista noturna do Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios.
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

A imagem que atualmente a atividade política e a classe política têm entre o senso comum não é das melhores, para não dizer que às vezes chega a ser a pior possível.

Mesmo entre estudantes universitários, encontra-se uma certa aversão à política e aos políticos. Percebo isso logo ao início de cada semestre escolar quando, em aulas introdutórias, busco sensibilizar resistentes alunos para a importância da política.

Noto que não importa que eu utilize aqueles argumentos clichês que o professor “esconde” dentro da manga, tipo “o problema de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”… ou coisas como: “falo de Política com P maiúsculo”… Sempre tenho a sensação de que os estudantes “não estão comendo nada…” como se diz em correto baianês.

Como conseqüência da imagem negativa que o vulgo cultiva da política vem a apatia do cidadão em épocas eleitorais. Apatia tentada extrair-se a fórceps pela massificação midiática da propaganda eleitoral e da participação compulsória através do voto obrigatório.

Entretanto, mesmo com a “obrigatoriedade democrática” o percentual de abstenção eleitoral é elevado, chegando em algumas cidades a uma média acima dos 20%, mesmo com todas as conseqüências penalizadoras a tal gesto, com a vítima, digo, o eleitor sendo obrigado a justificar a ausência antecipadamente ou, a posteriori, em labirínticos gabinetes burocráticos dos tribunais eleitorais.

Acostumado a sofrer nas longas e torturantes filas no país da burocracia cartorial hereditária para coisas como “reconhecer firma” ou “autenticar documentos”… um suplício a mais para abnegados cidadãos é “fichinha”…

Qual o motivo dessa ojeriza à política, particularmente pelos mais jovens? São muitas as justificativas: a longa noite que se abateu sobre o Brasil com a Ditadura Militar alijou da atividade política os melhores quadros da nossa vida pública, através da cassação dos direitos políticos e do exílio.

A apatia se abateu sobre as gerações criadas e nascidas sob a Ditadura e, segundo o cientista político Bolívar Lamounier, “ao interromper o regime (democrático), engenheiros, economistas que tinham o interesse de entrar na política eletiva, foram estudar no exterior e muitos desistiram. Qual era o sentido de entrar numa classe política num regime militar? Com isso, a qualidade política e principalmente o prestígio da classe política declinaram muito. Só permaneceram políticos antigos”.

Entretanto, a luta sindical da classe trabalhadora; o movimento pela redemocratização capitaneado por organizações estudantis, categorias profissionais e organizações sociais serviram para criar novos quadros de atores políticos e renovar a vida pública brasileira.

Na transição democrática que culminou no movimento pelas Diretas Já, destacaram-se líderes peemedebistas e o PT teve um papel importante “ao trazer para dentro do sistema político uma disputa eleitoral, forças de grupos”, segundo Bolívar Lamounier, que completa: “se não fosse essa atração, ou estaria na apatia ou até em movimentos violentos”.

E hoje, qual o saldo de tudo isso? Será verdade que, passadas quase três décadas do fim da ditadura militar ainda sofremos a sua funesta conseqüência na forma de carência de uma boa representação política? Ou a atividade política no Brasil “não tem jeito mesmo”?

Vejamos: das lutas sociais surgiram importantes líderes que, seduzidos pela tentação do dinheiro e do poder, se envolveram em “tenebrosas transações” batizadas de mensalão, cuecão… mancharam irremediavelmente as suas reputações e hoje são fantasmas do que um dia representaram para a vida pública nacional.

Com a redemocratização e a Constituição de 1988 se projetou um outro tipo de político, corrupto até a alma que, aproveitando as brechas da lei – que positivamente concedia certos poderes orçamentários ao Congresso – se organizou em máfia para roubar o erário público. Obviamente que nenhum deles foi punido, muitos dos “anões do orçamento” até continuaram na vida pública.

Hoje em dia se consolida um terceiro tipo de político, na verdade não é novo, e sim preserva o que existe de mais tradicional na nefasta cultura política brasileira: clientelismo; favoritismo; nepotismo; práticas maquiavélicas; uma visão essencialmente utilitarista do poder, para nele se manter, galgar importantes cargos e dominar a política regional, quiçá nacional.

Não se vê nessa classe de “político” nada que vislumbre aquilo que tentamos transmitir aos nossos estudantes sobre o que é política, da tradição clássica do conceito de política, como a busca da realização do interesse comum, do bem-estar da coletividade; a esfera da vida pública como oposto e contrário ao que é comum à vida privada, a esfera do privado – essa separação entre público e privado sendo uma das mais importantes conquistas da civilização moderna.

Nesse tipo de político não há nem cheiro do que designamos como “estadista” – aqueles poucos representantes da classe política que, independente de ideologias, merecem entrar para a história por alguns dos seus atos que resultaram em políticas públicas com caráter universalista, de real “interesse público”.

Declinarei de nomes, cada leitor que procure identificar esses “malandros federais” que se jactam de donos de vitórias eleitorais nas últimas eleições, sem terem tido um voto sequer, mas se intitulam donos de candidaturas exitosas, e já fazem planos e traçam ardis para se apossarem da máquina administrativa em benefício próprio – agora e em 2010.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]