Orixás deixam de ser nome de ruas de Feira de Santana

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

A Rua Xangô virou São Lucas. A Rua Oxumarê agora é denominada pelo nome bíblico Rosa de Saron. A Rua Ogun Sete Linhas foi transformada em Rua Maranata, termo aramaico que significa ‘O Senhor vem’. Coincidência ou não, os orixás que davam nome a ruas de Feira de Santana, segundo maior município da Bahia, a 110km de Salvador, perderam terreno ao longo dos anos para termos bíblicos ou nomes de pessoas. Ao todo, a Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA) já identificou oito projetos de lei que avalizaram as mudanças. Não fosse um movimento mais recente na Câmara de Vereadores do município, os números poderiam ser ainda mais expressivos.

A última tentativa do tipo não está diretamente relacionada à religiãodos orixás,mas à cultura africana. ‘Há menos de um mês, foi levado ao plenário um projeto de lei que previa mudança de nome da Rua da Crioula para o de uma pessoa, mas barramos’, contou o vereador Renildo Brito, que fez novo projeto pedindo a revogação das leis que mudaramos nomes das ruas. Embora as alterações tenham sido feitas em momentos e mandatos distintos, para o presidente da AFA, Leonel Monteiro, só há uma explicação para o fato: intolerância religiosa.

‘A mudança é uma tentativa de apagar da memória do povo o legado africano que os terreiros têm como espaço de preservação. As leis reforçam a intolerância religiosa e o desrespeito às diferenças’, avalia Monteiro. Ele ingressou com uma ação no Ministério Público Estadual (MPE) para reverter a situação. Porém, se houver movimento nesse sentido, ele deve partir da Câmara Municipal.

‘Não vamos a juizar nenhuma medida para voltar aos nomes originais por entender que, como há casos em que as mudanças foram feitas há muito tempo, alterar o nome agora seria pernicioso à comunidade’, pontuou o promotor Cristiano Chaves.

A única providência adotada foi uma recomendação aos poderes Executivo e Legislativo para que, a partir de agora, não aprovem projetos que alterem nomes de ruas que sejam referentes à cultura ou religiosidade africana.

Para o doutor em antropologia e ogã do Terreiro da Casa Branca, Ordep Serra, os orixás representam um patrimônio que resgata e valoriza a contribuição dos africanos para a formação do povo e da cultura baianos. ‘A história tem que ser respeitada. Os nomes indígenas são pistas da história, assim como os nomes negros. Quando eles desaparecem, desaparece uma referência da nossa história’, avalia o pesquisador.

(Reportagem publicada na edição de 08/10/2008 do CORREIO DA BAHIA, por Perla Ribeiro)

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Faça uma doação ao JGB

About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]