História do transporte coletivo em Feira de Santana | Por José Ferreira Pinto

Em abril de 1968, foi inaugurada a primeira frota de Kombi, destinada ao serviço de transporte coletivo de Feira de Santana. A imagem reproduz trecho da Avenida Senhor dos Passos em 1968.Em abril de 1968, foi inaugurada a primeira frota de Kombi, destinada ao serviço de transporte coletivo de Feira de Santana. A imagem reproduz trecho da Avenida Senhor dos Passos em 1968.
Em abril de 1968, foi inaugurada a primeira frota de Kombi, destinada ao serviço de transporte coletivo de Feira de Santana. A imagem reproduz trecho da Avenida Senhor dos Passos em 1968.

Em abril de 1968, foi inaugurada a primeira frota de Kombi, destinada ao serviço de transporte coletivo de Feira de Santana. A imagem reproduz trecho da Avenida Senhor dos Passos em 1968.

Em 1951 era Prefeito de Feira de Santana o Prof. Almáchio Alves Boaventura, em quem o povo havia depositado grandes esperanças na eleição do ano anterior. Nesta mesma época, quatro nordestinos vindos do Rio Grande do Norte, trazendo consigo três “marinetes”, aportaram em nosso município, no desejo de conseguirem permissão da prefeitura municipal, para colocarem as mesmas para prestarem o serviço de transporte coletivo na cidade.

Dirigiram-se à prefeitura e pediram uma audiência ao Prefeito. Após demorada conversa com o Prefeito Prof. Almáchio Alves Boaventura, o mesmo autorizou que eles realizassem suas intenções, contanto que prestassem um bom serviço à comunidade. Isto ocorreu no dia 21 de junho de 1951 e no dia seguinte, já trafegavam pelos bairros Sobradinho até a Pampalona, Ponto Central via Rua Quintino Bocaiúva (antiga Rua do Fogo), Brasília via Rua Senador Quintino, Rua Pedro Suzarte e Cristóvão Barreto (antigo Pilão). Passados alguns meses, os referidos senhores que se chamavam Otávio, Buriti, Manoel e Pedro voltaram ao Prefeito para comunicar-lhe a desistência, pois não conseguiam passageiros suficientes, para pelo menos cobrirem as despesas, e os prejuízos já eram grandes.

O prefeito Almáchio Alves Boaventura, após refletir com eles, propôs o seguinte: A prefeitura patrocinaria o combustível pelo prazo de um ano, enquanto eles conseguissem se manter nas linhas. Eles concordaram e assim foi feito.

Após dois anos prestando este serviço, os mesmos venderam as velhas “marinetes” ao casal Antoninho e Dona Zizi Mascarenhas sua esposa. Algum tempo depois, como este casal não tinham concessão da prefeitura e não recolhiam impostos regularmente, foram obrigados a vende-las, pois o prejuízo acumulado também já não viabilizava o negócio.

Assim, a cidade voltava a não possuir mais o serviço de transporte coletivo, e se percebia claramente a grande dificuldade que os estudantes, comerciários, donas de casa, operários e o povo em geral encontravam para locomover-se para os lares, escolas, comércio, etc.

Parte da Frota em frente à Igreja da Matriz.   Desta vez, em 1962, José Ferreira Pinto (Zé Pinto), que já sonhava colocar um serviço de transporte coletivo decente em Feira de Santana e percebendo aquele momento de grande carência, reuniu-se com seu irmão Júlio Ferreira Pinto, seu primo Romeu de Alcântara Pinto e o conselheiro da família, seu tio Petronillo Ferreira Pinto, mais conhecido como Sinhô Pinto para amadurecerem a idéia sobre a implantação deste serviço. Grandes foram as dificuldades, críticas destrutivas e falta de incentivo não faltavam, porém o amor à causa era muito maior.

Para tanto, foram ao então Prefeito Arnold Ferreira da Silva, com um ofício, no qual solicitavam a concessão para explorar o serviço de transporte coletivo em Feira de Santana através de veículos Kombi. O prefeito Arnold Silva os recebeu com muita gentileza em seu gabinete e como conhecia toda a família Pinto, bem como acreditou na importância do projeto, não hesitou em enviar à Câmara de Vereadores Projeto de Lei, a fim de que, após apreciada pelos Edis, ele pudesse dar seu parecer.

Dias depois, chegava à Câmara o referido projeto, o qual, recebeu de pronto parecer favorável da comissão, que teve como Relator o Vereador Hugo Navarro da Silva, sendo aprovado por unanimidade, tendo recebido elogios de todos os Vereadores presentes, por se tratar da primeira empresa do gênero no nordeste.

Desfile do Expresso Alvorada pelas ruas da cidade.   Sancionada a Lei pelo Prefeito Arnold Silva e publicada nos jornais, aí foi que, realmente os idealistas tiveram condições de iniciar a compra dos 13 (treze) primeiros veículos Kombi, na antiga concessionária Volkswagen denominada Feira Motor Ltda., de propriedade dos senhores Willie Azevedo, Raimundo Esquivel e Luiz Azevedo Filho, os quais confiados na palavra dos compradores financiaram metade do valor das mesmas. A empresa já estava registrada sob a denominação “Expresso Alvorada” e alguns meses depois foram adquiridos mais 15 (quinze) veículos Kombis de cinco portas, totalizando a frota em 28 (vinte e oito) veículos.

No dia 19 de outubro de 1962, às 10 horas, realizou-se a inauguração com Missa Solene na Catedral Matriz, celebrada pelo Primeiro Bispo de Feira de Santana, Dom Jackson Berenger Prado, Monsenhor Aderbal Saback de Miranda e Monsenhor Mario Bahiense Pessoa da Silva, Capelão do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, todos de saudosa memória.

Após a Missa Solene, realizou-se a benção dos veículos, motoristas, cobradores e proprietários; todos fardados e com gravatas, tendo ao final da mesma, saído em passeata pelas ruas da cidade, aplaudidos pela comunidade e seguidos pelo carro da Rádio Sociedade de Feira de Santana, o qual, através de Amadeu Pitanga de Jesus ao volante e Francisco Almeida o popular Chico Caipira, locutor, anunciavam entusiasticamente aquela efeméride.

Nada havia sido feito antes que se comparasse ao que Feira de Santana assistia naquele momento, vindo de uma família da terra, humilde, e que concretizava naquele momento o sonho de contribuir efetivamente para o progesso de Feira de Santana.

A população participa da grande festa na Praça da Matriz.   Na Rua Desembargador Filinto Bastos (antiga Rua de Aurora), em frente à Praça 2 de Julho, estava a sede da Rádio Sociedade de Feira de Santana, onde seu Diretor Presidente Frei Hermenegildo de Castorano e o Diretor Comercial Prof. José Manuel de Araújo Freitas, convidaram todos os participantes a tomarem assento no auditório e José Araújo Freitas prestou linda homenagem falando em nome da rádio: “Feira ganha no dia de hoje, algo muito importante e só o amor destes feirenses da família Pinto, poderia nos oferecer tamanho presente”.

Em nome da empresa, o seu Diretor Presidente José Ferreira Pinto agradeceu as homenagens afirmando: “Estamos plantando uma grande semente, esperamos que as bênçãos de Deus multipliquem nossa ação e que os frutos que vierem sejam benéficos para o povo, o município de Feira de Santana e toda a Bahia”.

Após o desfile, a Volkswagen do Brasil ofereceu através da Feira Motor Ltda. Um coquetel às autoridades, imprensa falada e escrita, funcionários e tantos quantos se fizeram presentes.

Com o passar do tempo foram surgindo outras empresas, dentre elas o Expresso São Cristóvão também em veículos Kombi.

Os sócios Júlio Ferreira Pinto e José Ferreira Pinto e dois motoristas no dia-a-dia da empresa.   Posteriormente, José Ferreira Pinto e sócios, compraram no Rio de Janeiro 21 (vinte e um) micro-ônibus, as famosas “bicudinhas” e 01 (um) ônibus grande semi-novos, os quais estavam saindo de linha do Estado da Guanabara, pois o Governador Carlos Lacerda estava substituindo-os por uma frota zero quilômetro. E como se tratavam de veículos bons, compramos e trouxemos para Feira de Santana, para servirmos à população. Aí foi outra festa!

Após registrados, receberam o batismo com o nome de “TRANSLAR” Transportes para o Lar Ltda. E foram colocados nos roteiros mais necessitados. Isto aconteceu em 1965.

Posteriormente, outro irmão Joviniano Ferreira Pinto Neto, mais conhecido por “Venú Pinto” , entrou na sociedade e adquiriu 15 (quinze) ônibus, colocando-os nas linhas de Campo Limpo, Cidade Nova e Mangabeira.

Com este advento, outras pessoas passaram também a colocar Kombis, Ônibus e Marinetes, criando um clima de mal estar e uma competição desleal, visto que, para a época, a oferta estava bem maior que o número de usuários, inviabilizando pouco a pouco o negócio. Assim, os sócios resolveram vender todo o patrimônio da empresa. Sendo que, parte dela foi vendida para a Sra. Dona Ivone Falcão Vieira, a qual mudou o nome de Translar para Transul e os Senhores Nezinho Oliveira e Carlos Lacerda o segundo prefeito na época do município de São Gonçalo dos Campos, os quais denominaram sua empresa de Oliveira Lacerda, com sede no bairro do Tomba.

Visita à sede da Rádio Sociedade de Feira de Santana, quando da inauguração do serviço.   Com o passar do tempo, Zeca Marques criou a empresa Autounida. Oswaldo Santos de Jesus, o popular “Vavá de Manoel de Milha” criou a empresa Safira. Dona Valdelice adquiriu ônibus e abriu sua empresa no bairro da Queimadinha denominada Autocel. O Sr. Raimundo Souza Silva, ex-prefeito de Milagres, implantou também em Feira de Santana a empresa R. S. Silva. O Sr. José de Paula Maciel Filho e Sérgio Augusto de Almeida, ambos de Minas Gerais, adquiriram a empresa Transul e foram adquirindo as outras posteriormente, tendo vendido ao Srs. Gilson Almeida Rodrigues e Dílson Almeida Rodrigues.

Após 43 anos que fundamos o transporte coletivo em Feira de Santana, a cidade e toda a região cresce, demonstrando que a semente de amor e de um ideal plantados naquela época, cresceram e têm dado bons frutos.

Hoje, 19 de outubro de 2005, faltando apenas 8 dias para o Prefeito José Ronaldo de Carvalho inaugurar o novo Sistema Integrado de Transporte Coletivo de Feira de Santana, orgulhosos e felizes, sentimos que da mesma maneira que acreditamos naquela época em uma cidade mais humana e moderna, ele também sonha e acredita num futuro melhor. E para isto precisamos acreditar, ousar, passar pelos obstáculos para concretizarmos todos os sonhos que sirvam para construir um futuro melhor para todos.

Nós, só temos que agradecer a Deus e parabenizar nossa querida terra, na pessoa de todos aqueles que tiveram e têm uma visão de futuro, pensando sempre em proporcionar dias melhores para todos aqueles que aqui nasceram e os que, aqui chegando adotaram Feira de Santana, como sua terra natal.

*José Ferreira Pinto publicou, originalmente, o artigo em 18 de outubro de 2005. Ele é fundador da primeira empresa de transporte coletivo de Feira de Santana.

Feira de Santana, Praça do Comércio em 1932, atual Praça da Bandeira.

Feira de Santana, Praça do Comércio em 1932, atual Praça da Bandeira.

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