Inteligência emocional para o autoconhecimento

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

O aforisma socrático mais célebre é o “conhece-te a ti mesmo”. A importância do autoconhecimento. Porém, socraticamente podemos indagar: para que conhecer a si mesmo? Para que se conhecer melhor?

O autoconhecimento objetiva uma melhor qualidade de vida, e melhor qualidade de vida significa pessoas satisfeitas e preparadas para o sucesso pessoal e profissional.

O insucesso na vida pessoal pode afetar a vida profissional do indivíduo, gerando pessoas fracassadas, profissionais derrotados, empresas falidas ou destinadas ao fracasso. A falta de um projeto de vida leva a um vazio existencial e objetivos débeis e vagos. Se o objetivo na vida é vago, as realizações serão vagas e bem escassas. As pessoas se descobrirão sem um ideal, sem uma causa, daí o desânimo e a falta de motivação.

Para se tornar um realizador exitoso na sua vida profissional, se faz necessário que assim também o seja na sua vida pessoal. É certo considerar que há uma relação direta entre sucesso pessoal e sucesso profissional. Gustavo Boog afirma que não deixamos a dimensão profissional para entrar na humana. Mesmo que exerçamos papéis diferenciados, somos indivisíveis, únicos.

No caso do indivíduo empreendedor, a fronteira entre “papéis diferenciados” é tênue, ou inexistem. Isso porque enquanto de um mero funcionário a organização exige apenas o envolvimento de parte da sua personalidade, apenas para o desempenho de um papel (os problemas devem ser deixados do lado de fora da empresa), já para o empreendedor a sua vida pessoal é totalmente integrada com a da empresa. Não é mais possível uma dupla personalidade, em casa e na empresa, porque o empreendedor é uma só pessoa, que exige a sua doação integral. Seu ego está vinculado ao seu negócio, que lhe confere determinado status social.

São muitos os caminhos para conhecer a si mesmo, se conhecer melhor. Apresentaremos uma dessas sendas: a Inteligência Emocional, como umas das alternativas possíveis no caminho do autoconhecimento e do sucesso pessoal e profissional. A Inteligência Emocional é um paradigma recente e importante das ciências sociais e muito aceito na Administração

A continuidade de um processo de fracassos afeta a vida das pessoas, minam as suas forças e deixam o individuo suscetível a doenças físicas e mentais. São doenças associadas ao estresse. O estresse crônico, isto é, uma situação de permanente pressão, leva ao aparecimento de sintomas associados como insônia, cansaço e dores de cabeça, que reduz a qualidade de vida, e as pessoas podem se tornar ansiosas, deprimidas ou doentes.

Desânimo e tristeza são sinônimos de depressão. Uma pessoa deprimida, para não sucumbir à tristeza procura auxílio familiar, na sua rede de amizades, entre profissionais de saúde e/ou auxílio espiritual.

Para a compreensão do “homem complexo”, isto é, o homem visto como um sistema complexo de valores, percepções, características pessoais e necessidades, faz-se mister uma abordagem holística do caso, perceber o ser humano na sua totalidade, em todas as suas dimensões. E a “cura” dos problemas que nos afligem exige ações em todos os aspectos da vida, como (a) nos níveis físico (exames anuais, esportes, alimentação, relaxamento), (b) mental, (c) emocional (terapias) e espiritual (meditação).

A educação holística ensina ao educando a arte de viver em paz consigo mesmo, com os outros na sociedade e com a natureza. Viver em paz consigo mesmo, no nível mental, através da sabedoria; no nível emocional, através do amor, alegria, compaixão e equilíbrio; no nível corporal, cuidando de sua saúde. Viver em paz com os outros na sociedade, na economia, na vida social e na cultura, e com a natureza, procurando conhecer suas leis para viver em harmonia com ela.

Repitamos a pergunta: para que conhecer a si mesmo? Para que se conhecer melhor? Podemos enumerar algumas razões:

* Para a resolução das angústias que nos afligem no dia-a-dia; maior resistência a frustrações; o combate ao estresse, aos “medos”, e à depressão;

* Para a melhoria das relações interpessoais. Harmonização das relações familiares (cônjuges e filhos), com a parentela, amigos, colegas, superiores e subordinados hierárquicos;

* Melhor ambiência no local de trabalho, construção de um bom clima organizacional, para que o ambiente de trabalho não se assemelhe a uma instituição total (como presídios, manicômios etc);

* Melhorar o nível de convivência com vizinhos, transeuntes, comportamento no trânsito, enfim, melhoria da qualidade de vida.

Daniel Goleman, um dos divulgadores do paradigma da Inteligência Emocional, considera que se deve levar em conta a vivência das pessoas, e o desenvolvimento de suas competências emocionais em quatro domínios – autoconsciência, autogestão, conhecimento social e administração de relacionamentos – importantes para o autoconhecimento, e também autocontrole, empatia, trabalho em equipe, catalisação de mudanças e gerenciamento de conflitos, qualidades necessárias ao homem organizacional.

A Inteligência Emocional já foi definida como a capacidade de perceber e gerar sentimentos quando eles facilitam o pensamento; a capacidade de compreender a emoção e o conhecimento emocional; e a capacidade de controlar emoções para promover o crescimento emocional e intelectual do indivíduo.

Desta forma a inteligência emocional contempla a percepção, a avaliação e a expressão das emoções, pela capacidade que tem a pessoa de identificar suas próprias emoções ou a de outras pessoas, mediante sua linguagem, sua aparência e seu comportamento. A capacidade de expressar acuradamente suas emoções e as necessidades relacionadas com seus sentimentos, bem como a capacidade de discriminar entre o próprio e o impróprio.

As emoções humanas – medo, raiva, tristeza, alegria, afeto, sexo – podendo ser geradas por pensamento, definem que o individuo, no seu desenvolvimento pessoal, sofre influências que estabelecem para cada um, uma origem particular de seus determinantes emocionais.

É caracterizada a inteligência emocional como uma capacidade relacionada com a facilitação do ato de pensar, pois as emoções voltam a atenção para informações importantes para o pensamento e são utilizadas como auxílio para julgamentos e sentimentos que dizem respeito à memória. Estados emocionais estimulam de maneira diferente a abordagem de problemas específicos, como quando a felicidade facilita o raciocínio indutivo e a criatividade, enquanto a tristeza é depressora do raciocínio.

A inteligência emocional ajuda a compreender e analisar as emoções e a empregar o conhecimento emocional, pois permite rotular e reconhecer as relações entre as palavras e as emoções em si, e permite inferir os significados que as emoções transmitem, como o fato de que a tristeza quase sempre acompanha uma perda, e de que a raiva quase sempre se acompanha de frustração. Permite compreender sentimentos complexos como o ciúme, considerado uma mistura de amor, medo e raiva, e o espanto, combinação de medo e surpresa. Permite compreender e reconhecer transições entre emoções como da raiva para a satisfação, quando alguém enraivecido se vinga de outra pessoa.

Finalmente permite a inteligência emocional o controle reflexivo das emoções para promover o crescimento emocional e intelectual, quando a pessoa se mantém aberta a seus sentimentos, agradáveis ou desagradáveis, podendo se envolver com eles através da reflexão ou se distanciar deles, desviando a atenção para outros objetos de pensamento. A capacidade de monitorar suas emoções reconhecendo suas utilidades e suas influências em sua vida, enfim a capacidade de administrar a emoção em si mesmo, através da moderação das emoções negativas, desagradáveis, e da valorização das positivas, agradáveis, sem reprimi-las.

A Educação Emocional é um processo que utiliza a energia psíquica para a identificação e avaliação das emoções, bem como para orientar a ação do indivíduo no sentido de interferir no curso natural do processo emocional. Isto quer dizer que, para educar as emoções, só é possível atuar no processo emocional quando ele tornar-se consciente.

Um estímulo externo (agressão física ou verbal) pode desencadear em uma pessoa um processo inconsciente da elaboração de uma emoção (raiva), processo emocional este que pode aflorar na mente e ser identificada pela pessoa. Após identificar a raiva, ela pode decidir se deve ou não atuar sobre seu curso, mediante a utilização de sua atenção e de sua vontade, fazendo a prática da Educação Emocional.

A Educação Emocional tem por meta o desenvolvimento da Inteligência Emocional e implica em desenvolver no educando o autoconhecimento, a autoconsciência, a nível psicológico e somático; a capacidade de identificar e reconhecer suas emoções e sentimentos, avaliando suas intensidades, e as expressões corporais correspondentes, no momento em que ocorrem; a controlar suas expressões emocionais, a aprender a monitorar seus impulsos e a adiar suas satisfações.

Faz parte da educação emocional o desenvolvimento da empatia, capacidade de reconhecer corretamente as emoções do outro e de compreender seus sentimentos e perspectivas, respeitando as diferenças com que as pessoas encaram as coisas, permitindo convívio harmônico com as demais pessoas.

Através da educação emocional a pessoa vai ter a oportunidade de conhecer-se melhor, ao analisar suas emoções, pensamentos, atenção e sua vontade. Se a pessoa se conhece melhor, vai poder controlar melhor a sua vontade, e vai viver mais conscientemente, e terá melhor qualidade de vida, vivendo mais harmoniosamente.

A atenção primordial da educação emocional deve dirigir-se para emoções e sentimentos que mais interferem no comportamento social do indivíduo, tais como raiva, tristeza e medo, e suas assemelhadas: ira, fúria, ressentimento, mágoa, revolta, desânimo, desalento, desesperança, depressão, ansiedade e preocupação. Deve dirigir-se também para emoções outras, tais como, prazer, amor, surpresa, nojo e vergonha.

As emoções humanas são inatas e programadas. As emoções inatas são naturais, geneticamente programadas e tem finalidade biológica; já as emoções programadas são aprendidas, socialmente programadas e sem finalidade biológica.

A emoção inata é proporcional ao estímulo, origina-se no presente e tem função defensiva; a emoção programada é ser desproporcional ao estímulo, origina-se na programação passada e é autolesiva.

No processo de socialização do indivíduo ocorre a repressão das emoções inatas até o ponto em que a pessoa deixa de senti-las e passa a responder com emoções programadas. Dessa maneira, as emoções inatas são desaprendidas, e quando lhes são requeridas… as pessoas já não as tem, não as sabem.

No aprendizado de Educação Emocional, o indivíduo vai desaprender as emoções programadas aprendidas, com a neutralização dos seus efeitos corporais, e reaprender as emoções inatas que foram desaprendidas, esquecidas. Isso tudo num processo terapêutico na busca do bem estar como predominante.

O paradigma da Inteligência Emocional deve ser visto como uma ferramenta para desenvolvimento das competências emocionais do individuo.

Na medida em que puder controlar as emoções, o individuo poderá agir mediante uma ética baseada no bom relacionamento e respeito ao outros seres humanos, com compreensão e solidariedade.

Controlando suas frustrações, terá menos emoções negativas, e isto permitirá o afloramento de sentimentos de harmonia e paz. Por outro lado, a identificação e a abordagem adequada de suas emoções impedirá que a pessoa, por ter cedido demais aos outros, volte sua raiva sobre si mesmo num processo de autodestruição e diminuição de sua auto-estima.

A pessoa acostumada a controlar suas emoções adquire hábitos de autocontrole, que são introjetados em suas atitudes e comportamentos. Dizendo de outra forma, a pessoa emocionalmente educada desenvolve um processo de autocensura e autocontrole em relação a determinadas expressões emocionais de comportamento que não sejam socialmente adequadas. Isto implica na diminuição do número e do nível de conflitos na vida em sociedade e em sua esfera de atividades, quer seja em família, quer seja no mundo organizacional, empreendimento este que depende e muito da sua competência emocional para o sucesso.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]