A Cruz Caída | Por Juarez Duarte Bomfim

Monumento 'Cruz Caída', situado na Praça da Sé, ao lado do Palácio do Arcebispado de Salvador, é uma obra do artista plástico Mário Cravo Junior (†1923 — ★2018).Monumento 'Cruz Caída', situado na Praça da Sé, ao lado do Palácio do Arcebispado de Salvador, é uma obra do artista plástico Mário Cravo Junior (†1923 — ★2018).

O urbanismo demolidor do governo J.J. Seabra (1912-1916; 1920-1924), na Bahia, tinha como traçado original da abertura da Avenida Sete de Setembro, na altura do Distrito de São Pedro, a área do Mosteiro de São Bento, onde seria construído um conjunto de edifícios para abrigar as novas instalações do serviço público. Uma mobilização popular coordenada pelo abade do Mosteiro o salva da destruição.

Ainda que também com resistência, igual sorte não teve a Igreja da Sé. Sua morte foi anunciada através da Resolução Municipal n° 344 de 29 de agosto de 1912, no projeto de melhorias para o Distrito da Sé, com o propósito de demolição da Igreja da Sé e do Palácio Arquiepiscopal, entre outras edificações e quarteirões inteiros.

No ano de 1916, a Companhia Linha Circular de Carris da Bahia, concessionária dos serviços de bonde na cidade, pretendeu modificar o tráfego dos seus veículos até o local em que estava a Igreja da Sé (construída em 1552) e ofereceu indenização ao Arcebispado.

D. Jerônymo Thomé da Silva, arcebispo de Salvador, pede autorização ao Papa para vendê-la, expondo que “o Governo do estado da Bahia deseja adquirir uma igreja na Cidade da Bahia, com o fim de demolir, para o trânsito público se tornar mais fácil”; sua Eminência argumenta que “a sobredita igreja não tem valor artístico nem é necessária para o culto porque perto dela há seis outras igrejas”.

De Roma, a Sagrada Congregação do Concílio, com autorização de sua Santidade N. S. Bento pp. XV, dá a sentença final, atendendo à petição. Porém, exige que no local “se deva fazer uma Cruz”. Corria o ano de 1919.

Note-se no evento descrito a cumplicidade entre o Poder Público e a iniciativa privada, pois a compra deveria ser feita pelo Governo da Bahia e o pagamento do imóvel pela empresa concessionária dos bondes.

Porém, há resistência na cidade contra tal ato. Por dezessete anos seguidos trava-se uma luta entre os representantes da Igreja, apoiados pela imprensa, e os intelectuais da Bahia, em número cada vez maior. Projetos alternativos de engenharia são oferecidos, salvando a velha Sé da destruição. A batalha é travada nos jornais da cidade. Tendo como título “A Sé multissecular que tudo resiste”, editorial do Jornal A Tarde de 22 de maio de 1928 conclama:

“Têm dez anos as primeiras negociações. O atual intendente cogita de demolir a Sé? Já viveu demais. Há pela cidade outros monumentos do passado que podem ser conservados sem prejuízos. Mãos à obra, pois! Recorramos à campanha da demolição da Sé”.

No mesmo ano de 1928 um grupo de pessoas proeminentes contra-ataca, assinando um protesto, com o argumento de que a Sé era um templo histórico, tradicional e palco de importantes fatos religiosos ali ocorridos.

O Diário da Bahia de 10 de julho de 1928, ao comentar a nomeação do engenheiro baiano Francisco de Souza para a Prefeitura de Salvador, e dando como eminente a derrubada da Sé, o enaltece como o “mago que realizou o milagre, destruindo o feio sortilégio”, e demoniza a velha Catedral de Thomé de Souza, aplaudindo “em definitivo que se pusesse abaixo o trambolho ignóbil”. Os argumentos da época para a demolição são: a higiene, a estética, a circulação, a modernidade e o progresso.

A execução da sentença deu-se no dia 7 de agosto de 1933, e a Igreja da Sé foi derrubada. Muitos artistas e intelectuais dela se despedem com crônicas e poesias lamentando o acontecimento. O então jovem escritor baiano Jorge Amado publicou na revista Rio Magazine uma crônica transcrita em 10 de agosto de 1933 pelo jornal O Estado da Bahia, em que fazia o seu protesto:

“Bahia de ruas de nomes gostosos: Santo Antônio da Mouraria, Cruz do Paschoal, Rua dos Quinze Mistérios, Ladeira do Pelourinho, Portas do Carmo, Ladeira do Taboão, Bahia que vive de saudades, saudades da Igreja da Sé que a Light vai derrubar…”

A Igreja da Sé foi demolida para deixar o bonde passar… No ano de 1940 dois quarteirões contíguos são derrubados, abrindo espaço para a atual Praça da Sé, então ponto final dos bondes.

Há males que vem para o bem?… A repercussão nacional da demolição da Igreja da Sé foi um dos principais motivos para que, a apenas 20 dias da decretação do golpe de estado liderado por Getúlio Vargas, a Ditadura do Estado Novo, se instituísse uma política jurídica de defesa do patrimônio brasileiro, com o Decreto-Lei nº 25, que organiza a proteção ao patrimônio histórico e artístico a nível nacional.

Ah… e a exigência papal que no local da demolição se devesse construir uma Cruz, só foi realizada no ano de 1999, quando contrata-se o artista plástico Mario Cravo para fazer uma escultura monumental em aço inox com 12 metros de altura, como homenagem a antiga Sé Primacial do Brasil. Segundo o historiador baiano Cid Teixeira “encomendou-se a Mario Cravo uma cruz fraturada como símbolo do arrependimento tardio por ter-se demolido a igreja da Sé”.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Monumento 'Cruz Caída', situado na Praça da Sé, ao lado do Palácio do Arcebispado de Salvador, é uma obra do artista plástico Mário Cravo Junior (†1923 — ★2018).

Monumento ‘Cruz Caída’, situado na Praça da Sé, ao lado do Palácio do Arcebispado de Salvador, é uma obra do artista plástico Mário Cravo Junior (†1923 — ★2018).

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]