Tecendo o futuro na noite sombria | Por Lilia Campos

Lilia Campos, jornalista.Lilia Campos, jornalista.

Os que resistem, os que se lançam nos braços da revolução, os que se insurgem contra as tiranias são embalados por sonhos. No mais das vezes, sequer avaliam a correlação de forças, o poderio do inimigo. Estão sempre com o olhar posto no horizonte. Tecem o futuro com suas lanças de Quixote. Assim fomos nós, os que enfrentamos a ditadura. Depois de 1968, AI-5, os militares investiram-se de todos os poderes. Até o final dos anos 70, foi o terror, a morte, a tortura, o desaparecimento de companheiros, a loucura. E foi sob essa noite sombria que tentávamos tecer um futuro sem ditadura. Com toda a força de nossa alma. “Se entrega, Corisco. Eu não me entrego não. Só me entrego na morte de parabelum na mão”. Não nos entregávamos.

Não conseguíamos nem ver que estávamos sendo dizimados. O general Fiúza de Castro, que andou pela Bahia à frente da VI Região Militar, chegou a dizer que a ditadura usou um pilão para matar uma formiga. Esse chefe torturador, nesse caso, dizia a verdade. Revelava toda a violência que se abateu sobre os que ousaram lutar. Nós não víamos o martelo pilão. E a minha geração foi uma espécie de farol avançado da resistência. Caminhávamos em meio à escuridão, combatendo o dragão da maldade. “Faz escuro, mas eu canto porque o amanhã vai chegar”. Enfrentei eu próprio a prisão, e a tortura – porrada pra valer, pau-de-arara, afogamento, choque elétrico.

Ali, no Quartel do Barbalho. E quase quatro anos de cadeia, na Penitenciária Lemos Brito, aqui na velha Salvador, a mesma Salvador arrancada do jugo português no dia 2 de julho de 1823, por outros tantos sonhadores, que não se conformavam com tiranias.Não fomos melhores que outras gerações. Erramos muito. Mas também sonhamos muito e ousamos tentar realizar os nossos sonhos. E tantos dos nossos puderam ver o fim da ditadura, uma página triste de nossa história.

Ditadura, nunca mais!

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