Sexo, ternura, sensibilidade | Por Emiliano José

Emiliano José recebe apoio da Fenaj e do Sinjorba.
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Há textos que nos surpreendem, e se o fazem há fundadas razões na alma para tanto. O livro estava guardado, perdido entre tantos outros na minha biblioteca, e de súbito o tenho à mão e o leio de uma sentada, sem parar, com destaque para a primeira parte, constituída de oito pequenos textos, entre conferências, entrevistas e ensaios. Falo do Em busca de um homem sensível, de Anais Nin – e no meu caso refiro-me a uma edição de 1980, da Brasiliense. As páginas já estão soltas, sinal de pouco cuidados – não meus, mas da editora.

Anaïs Nin é uma autora que incomoda, provoca. Seus escritos eróticos quiseram desafiar o olhar masculino, especialmente o olhar violento, dominador, predador do homem. Trata com carinho e respeito a homossexualidade feminina. Recusa a noção masculina que pretende a separação entre amor e sexo, entre tesão e ternura. Busca um homem e uma mulher sensíveis, capazes de dialogar de igual para igual, inclusive na cama. Claro que alguns poderão argumentar que ela pretende a construção de modelos universais, impossíveis sob um mundo constituído por culturas e orientações sexuais tão diversas.

Talvez, no entanto, procure isso compreendendo que em todas essas culturas o patriarcado deite raízes ainda muito sólidas. E que, por isso, sua busca valha a pena. Se as garrafas que ela lança ao mar com suas mensagens chegarem a umas tantas praias, como chegou à minha, por menores que sejam os efeitos, seus esforços não terão sido em vão. Afinal, mesmo que se reconheça que a luta feminista conquistou espaços consideráveis, não há como esconder a prevalência de uma cultura ainda predominantemente machista, o que implica preconceito e discriminação e implica, também, violências de variada natureza.

A mulher dorme com o inimigo – e esta nem sempre é simplesmente uma frase de efeito. Que se releve, que se reconheça a existência de homens sensíveis. Eles existem aos montes. Mas que não se ignore os violentos. Os que batem em suas mulheres. Os que matam suas mulheres. Os que ferem fisicamente suas mulheres. E não raramente mulheres que apanham e não morrem, preferem o silêncio à denúncia. Às vezes porque temem morrer. Outras tantas vezes porque não conseguem escapar do infernal círculo vicioso de um relacionamento doentio, que pode subjugá-la até o fim de seus dias.

Há outras violências abrigadas nos casamentos e nas famílias contra a mulher. A dos pais – os homens – contra suas filhas. Esta não é contemplada satisfatoriamente nas estatísticas, como não o são tantas outras violências intrafamiliares em decorrência do silêncio provocado pelo medo.

E há outras, ainda, talvez muito mais camufladas, que é a do estupro no casamento, às vezes nem percebido como tal. A obrigatoriedade do cumprimento do dever leva a que muitas mulheres naturalizem esse procedimento e deixem, por se acostumar a isso, de experimentar o gozo por toda a vida. Algumas, provavelmente, podem até considerar como normal essa miséria sexual onde só o homem tem direito ao gozo.

Corro o risco de ouvir objeções à formulação sobre esse estupro no casamento, a essa prática sexual que não seja fruto do desejo mútuo. Essas objeções poderiam argumentar que pode haver uma entrega generosa, mesmo sem tesão. Vá lá que seja. O homem, no entanto, sempre visita o gozo. Essa relação que só satisfaz aos homens, para seguir a esteira de Anais Nin, retroage ao tempo das cavernas. E necessariamente constrange a mulher, por mais que ela, por delicadeza – será essa a palavra? – aceite o jogo. Creio que ainda estamos distantes de um tempo em que a ternura, o carinho, a delicadeza sejam, para o homem, parte necessária da relação sexual.

E que tudo isso – ternura, carinho, delicadeza, cuidado e atenção com a mulher – não seja apenas integrante do que o senso comum denomina preliminares. Que não seja apenas uma estratégia de conquista de território. O homem não conquistado pra a sensibilidade permanece refém da idéia de domínio, de mostrar o quanto ele é capaz de sujeitar a mulher, não importando que isso possa subtrair a ele próprio um prazer muito maior, que ele desconhece e que provavelmente desconhecerá sempre se não juntar amor e sensualidade, carinho e tesão. Este homem das cavernas não conhece a mulher, e esta fica sem conhecer o homem sensível que ela procura quem sabe desde as cavernas.

Podem acusar Anais Nin de ser prisioneira de uma idealização quando afirma que a mulher precisa amar o homem ao qual se entrega e ser amada por ele. O ato sexual, para a mulher, seria, na leitura dela, uma parte da troca ditada pelo amor. Isso ela escreveu em abril de 1974, há coisa de mais de 32 anos, portanto. Os japoneses antigamente, depois de uma noite de amor, faziam chegar à amada um poema antes que ela despertasse. Vinculavam, assim, o ato amoroso ao amor. Ela registra isso. As mulheres “ainda precisam das juras, do telefonema, da carta, gestos que fazem do ato sexual um ato único, e não anônimo e puramente sexual”.

Ela mesma, no entanto, admite que a mulher pode chegar a renegar tudo isso e conseguir, assim, separar o sexo do amor. Miseravelmente, pode se aproximar da mentalidade masculina predominante. Muitas provavelmente já conseguiram fazer essa conversão. E celebram isso como uma libertação. Pode ser. Isso, no entanto, na opinião Anaïs , implica em diminuição do prazer e prejudica a qualidade do ato amoroso. Esse é o olhar do erotismo feminino advogado por ela.

Não está presente no livro dela a discussão sobre a transformação da mulher em mercadoria sob o capitalismo. Algo já antigo, mas que se acentuou de modo obsceno – e aqui no mais amplo sentido – nas últimas décadas. A publicidade, esse potente instrumento do fetichismo da mercadoria, usa e abusa da utilização do corpo feminino porque ele vende, e vende bem. Não se vende um automóvel, um tipo de cigarro, um shampoo, um sabonete, um perfume. Vende-se uma espécie de mulher, com toda a carga de sexualização possível, e se contrabandeia junto o automóvel, o cigarro, o shampoo, o sabonete, o perfume.

O valor de troca da mercadoria, sabe-se, é que prevalece sob o capitalismo. E a mulher, o corpo feminino, é uma espécie de âncora fundamental da afirmação desse valor de troca. O hiperdimensionamento da exploração do corpo feminino nas sociedades contemporâneas ocidentais talvez pudesse ajudar a explicar a possível conversão de uma parte das mulheres à idéia da separação radical entre amor e sexo.

Só de passagem diria, ainda, que essa enorme sexualização do corpo da mulher acaba por empobrecer o que originalmente se compreendia como erotismo. O mundo do espetáculo da publicidade aqui empobrece a vida, reduz o campo da sensibilidade, da delicadeza, da descoberta – afinal, tudo está exposto. O bombardeio midiático em torno do corpo da mulher é tão intenso, tão excessivo, que aquelas mulheres reais, com suas belezas e imperfeições, não conseguem responder às expectativas masculinas.

Ou, ainda, as expectativas masculinas são reduzidas, sublimadas, diante de uma oferta tão vasta, tão variada de corpos perfeitos na mídia. Há um excesso de sexo na mídia – e não é só na publicidade, as novelas estão aí para não nos desmentir –, nesse mundo fantasmagórico da mercadoria. E, simultaneamente, uma acentuada miséria sexual na realidade. É o excesso provocando a escassez. Claro que podemos inverter o discurso e falar nas expectativas femininas, de que ela trata quando discute o tratamento que o macho – vamos chamar assim – dá à mulher no terreno sexual.

Anaïs Nin se levanta, por exemplo, contra a linguagem brutal de O último tango em Paris. A sensualidade ali é aviltada, vulgarizada – ela é mostrada “como os puritanos a viram, rasteira, má e suja”. Seria o reflexo do puritanismo “que torna a sexualidade animal”. Na visão dela, a linguagem do filme é parte de uma cultura que destrói o erotismo. E aqui ela faz a distinção entre erotismo e pornografia: esta trata a sexualidade de maneira grotesca, rebaixando-a ao nível animal. O erotismo, diferentemente, desperta a sensualidade sem precisar rebaixá-la. Por isso, ela vai defender a criação de uma literatura erótica diferente da do homem.

A literatura erótica masculina sempre trabalha com as idéias do caçador, do estuprador, onde sexualidade sempre rima com brutalidade, violência, sujeição da mulher, domínio. Ela incumbe a mulher de uma tarefa educativa: que mostre ao homem suas preferências; que o ensine, como nos contos orientais, “as delícias de outras formas de prática amorosa”. Nada disso é tão simples, entretanto. Os homens nem sempre são bons alunos. E temem ter mulheres como mestras. São inseguros, ao contrário do que aparentam.

E as mulheres nem sempre estão dispostas à introspecção, condição necessária, na visão de Anaïs Nin, para o autoconhecimento, para que a mulher se descubra, compreenda quais são os segredos e caprichos do seu corpo e os incontáveis caminhos de sua imaginação.

Ela convida as mulheres a se abrirem para o universo multifacetado do erotismo – que apresenta “mil facetas, milhões de formas, de objetos, situações, atmosferas e variações”. Sugere que elas se livrem da culpa por descobrirem o erotismo. Que estejam sempre abertas a todas as surpresas que ele encerra, às suas múltiplas expressões. E “quanto maior for a paixão por um só ser, mais o ritual a dois será essencial, intenso e cheio de êxtase”. Esta mulher, no entanto, só pode ser assim se encontrar o homem sensível ou se no decorrer do encontro conseguir transformá-lo nesse novo homem.

Fui alertado para os problemas dessa última conclusão. Quem disse que a mulher tem essa obrigação? Quem disse que ela depende só desse homem para ter uma relação cheia de amor, erotismo e sensibilidade? E para ser justo com Anaïs, ela não fala em paixão por um homem, mas paixão por um ser. Em todo caso, alertas à parte, é inegável não deixa de ser um belo sonho esse encontro, essa proposta de uma mulher e um homem sensíveis. A humanidade ganharia com isso, muito.a

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