Nas asas da imaginação, no embalo da indignação | Por Emiliano José

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Emiliano José palestra na UFRB.
Emiliano José palestra na UFRB.

O ano de 1968 é o ano de um encontro marcado com a esperança, com os loucos sonhos de nossa juventude, com a ousadia de nossas utopias, desfrutando sempre da companhia de nossa bela amante, a Revolução, paixão intensa, desesperada, cheia de canções de amor.

O encontro vinha sendo preparado. Vinha amadurecendo no ventre da história. Foi à síntese de um tempo. As águas confluíram para 1968, o sertão virou mar, o mar virou sertão, foi um rebuliço só. Vinha lá de trás aquele rebuliço. Dos barbudos, jovens barbudos que se deixaram inebriar pela doce loucura de derrubar um ditador e libertar uma ilha de seus cassinos, libertar os trabalhadores, infundir a noção de soberania ao povo. Ao povo da Ilha de Cuba.

Ali onde nasce Fidel Castro, Camilo Cienfuegos, Raul Castro. Aonde aportara aquele argentino enlouquecido de indignação, uma indignação revestida de sonhos, Che Guevara. Era 1959 quando Fidel e seus guerrilheiros chegaram a Havana. E havia outras revoluções. Havia os Panteras Negras. Havia o movimento hippie. Os movimentos de libertação nacional nas colônias. E havia o Vietnã. Embalados por esses sinais dos tempos, em 1968 nós queríamos assaltar os céus. Nós acreditávamos nessa possibilidade. Revolução não conhece limites – era assim que raciocinávamos.

O ano começou com a ofensiva do Tet no Vietnã – que se constituiu numa espécie de signo a indicar a derrota dos EUA, que viria à frente. Ora, se aqueles camponeses maltrapilhos, que só comiam arroz, podiam derrotar, afrontar o Império, quem diz que nós não podíamos derrotar a ditadura? Loucos? Ora, pensávamos nós, quem diz que a sensatez algum dia fez revolução? Se Lênin fosse sensato faria, dirigiria a Revolução Russa?

E íamos assim, cavaleiros andantes, lanças em riste a desafiar impérios e ditaduras. Veio março e veio a morte de Edson Luís de Lima Souto, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, assassinado pela ditadura.

E muito antes que Paris nós fomos pra rua, cheios de raiva, ódio da ditadura, prontos a derrotá-la. Há versões equivocadas dando conta de que 1968 no Brasil foi conseqüência das mobilizações parisienses. Não foi. Desde a morte de Edson Luís ocupamos as ruas do Brasil. Eu vivia em São Paulo, no Jaçanã. Seu eu perder esse trem… Minha militância explodiu a partir dali.

A passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro também foi outro encontro marcado. Caminhando e cantando, nós já havíamos enlouquecido o País, inundando-o de indignação com a ditadura. Nas cidades grandes, médias e pequenas.

E o Rio, que ainda era o nosso centro político, como que concentrou as energias de um País inteiro naquela fantástica passeata, sob o comando de Wladimir Palmeira, uma das nossas maiores lideranças estudantis de então. Existiam outras: Luís Travassos, Jean Marc, Luís Raul, Catarina Meloni, José Dirceu. Eram lideranças de expressão e visibilidade porque o movimento estudantil foi a mais poderosa expressão da luta contra a ditadura militar naquele ano.

Expressão que foi amplificada por alguns bolsões críticos do jornalismo brasileiro naquele ano: as revistas Realidade, Fatos e Fotos e Veja, e os jornais Correio da Manhã, Zero Hora, Última Hora e Folha da Tarde. E vamos ser verdadeiros: em 1968 a censura ainda não era barra pesada. Ela virá com toda força já no sol daquele triste dezembro do AI-5. E aí quase toda a grande imprensa se agachará, num exercício de complacência com a ditadura.

A passeata dos 100 mil foi um momento único naquele fantástico ano. A maior mobilização do povo brasileiro depois de 1964 até ali. Momento síntese de nossos sonhos, expressão concentrada da indignação contra a ditadura. Mais tarde, início dos anos 80, viria a campanha das diretas, que coloca milhões de pessoas nas ruas, e que dá o empurrão final para a queda da ditadura. O ditador Costa e Silva recebeu uma comissão da passeata dos 100 mil, a indicar a dimensão que ela ganhara, acuando politicamente a ditadura naquele momento.

O ano de 1968 não foi vitorioso. Nós sofremos uma grande derrota. O AI-5 lançou uma nuvem sombria de terror e morte sobre todos nós. Daquela derrota, no entanto, recolhemos até hoje os sonhos, a convicção da importância da luta por um mundo que acolha o ser humano como centro. De lá, daquele passado tão próximo, ouvimos o eco das ruas, o eco das vozes da passeata dos 100 mil. E insistimos naqueles propósitos de mudar o mundo numa festa de trabalho e pão, alegria, alegria, onde a imaginação esteja solta para cultivar e lutar por nossas mais generosas utopias.

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