Raul Monteiro analisa mudanças no Jornal A Tarde; Jornalista dirige site Política Livre

Vista panorâmica da sede do jornal A Tarde, em Salvador.Vista panorâmica da sede do jornal A Tarde, em Salvador.
Vista panorâmica da sede do jornal A Tarde, em Salvador.

Vista panorâmica da sede do jornal A Tarde, em Salvador.

Se foi efetivamente surpreendido com a notícia da demissão do jornalista Vítor Hugo Soares, conforme teria revelado a dura discussão que travou ontem com o editor-chefe do jornal, Florisvaldo Mattos, reproduzida imediatamente e em primeira mão por este Política Livre, o empresário Sylvio Simões pode estar experimentando um declínio no poder e influência que exerceu praticamente sozinho no comando de A TARDE a partir de meados da década de 90, quando assumiu a função de principal executivo do grupo, avalizado por sua mãe, a herdeira Regina Simões de Mello Leitão.
Vitor Hugo era na redação a figura mais próxima de Sylvio, que viu em sua contratação, para o cargo de editor de Opinião, em finais de 2003, a contrapartida editorial na medida para um conjunto de mudanças bem-sucedidas que empreendeu na direção da modernização da empresa. Com carta branca dada pelo executivo, o jornalista montou uma equipe formada por jovens cultos e talentosos – dos quais o recém-desligado Cláudio Leal era o exemplo de maior destaque -, e praticamente revolucionou a seção, abrindo a página à sociedade e estimulando a produção interna de artigos críticos e independentes.

A liberdade exercida no espaço, considerado um bunker de intelectuais e de inteligência no jornal, com excelente feed-back junto ao até então órfão leitor mais jovem e qualificado de A TARDE, teria descontentado setores políticos eventualmente criticados na página, que passaram a protestar junto ao núcleo conservador da empresa, liderado pelos outros dois herdeiros – Renato Simões e Vera Banville, tio e tia de Sylvio – dos quais Florisvaldo Mattos teria assumido a representação na redação. Neste período, em pelo menos duas ocasiões artigos de Cláudio Leal sofreram críticas severas do Conselho de A TARDE, formado pelos herdeiros e seus filhos.

Raul Monteiro é baiano, atua como jornalista desde 1989, tendo ocupado diferentes funções em jornais e TVs locais – de produtor a repórter e editor de Economia e Política. Tem passagem pela área acadêmica e, atualmente, edita a coluna Raio Laser, da Tribuna da Bahia, com a ajuda de colaboradores. No POLÍTICA LIVRE, sua missão será revelar os bastidores da política baiana e seus principais atores. Sem amarras nem restrições. Junte-se a nós!

Num deles, o jovem articulista criticava abertamente o prefeito João Henrique (PMDB), cujas queixas de A TARDE o político não faz segredo. Em outro, fez uma análise ferina do polêmico ministro Geddel Vieira Lima, uma das maiores expressões do PMDB nacional, alvo também de críticas em um outro texto do editor de Opinião. A partir daí, as produções de Leal passaram a ser desestimuladas até o veto total por parte de Florisvaldo Mattos, que até aquele momento se limitara a aconselhar mais moderação ao grupo, supostamente atendendo a orientação do núcleo conservador formado por Renato e Vera.

Sem espaço e desapontado com a postura do jornal, Cláudio Leal decidiu aceitar proposta para trabalhar numa publicação do Sul do País, o que isolou ainda mais Vítor Hugo no matutino. Dias antes da partida do articulista, o editor de Opinião teria chegado a manifestar a Sylvio preocupação quanto aos rumos da redação. No encontro, entretanto, não teria percebido sinais de que o empresário tivesse poder para enfrentar a desmobilização de seu projeto de modernização, o que seria confirmado agora com o fato de sua demissão ter ocorrido sem o conhecimento do executivo.

Alterações societárias, decorrentes do envelhecimento dos herdeiros diretos do fundador Ernesto Simões Filho – Regina Simões de Mello Leitão, Renato Simões e Vera Banville -, podem explicar a necessidade de Sylvio ter de passar a compartilhar mais poder com os tios e os primos, alguns dos quais presentes na estrutura administrativa e redacional do jornal.

Trata-se provavelmente do maior desafio da carreira do executivo, cuja ousadia e grande ímpeto, características que afirmam ter herdado da mãe, foram fundamentais para promover uma virada na história da empresa, ao assumir seu controle, nos anos 90.

Naquele momento, A TARDE dava curso quase letárgico a seu histórico de veículo chapa-branca, tradicionalmente alinhado aos governos de plantão e a uma trajetória de submissão “administrada” a Antônio Carlos Magalhães (que sempre manteve canal aberto com Renato Simões), acumulando problemas de toda ordem, de procedimentos operacionais ultrapassados nas áreas gráfica e comercial ao risco de exclusão do movimento digital, além de muita desorganização na área administrativa, que ameaçavam sua sobrevivência.

Destemido, Sylvio iniciou praticamente sozinho um conjunto de mudanças voltadas à profissionalização dos vários setores da empresa, que descontentaram a muita gente fora e dentro do veículo, inclusive da redação, onde um grupo de editores acostumara-se a dar as cartas no matutino, aproveitando-se do afastamento do ex-diretor Jorge Calmon e da debilidade de seu sucessor de fato, Cruz Rios. De Jorge, dizia-se que sempre representou os interesses de Regina Simões, enquanto Cruz Rios, os de Renato.

Brandindo politicamente a bandeira da independência com relação a ACM, no momento do auge político do líder baiano e do esmagamento das oposições locais, o que fez com que muitos apostassem em seu fracasso, Sylvio, que costuma se auto-proclamar um “socialista”, foi aos poucos, mas muito frequentemente de forma abruta e inesperada, enfrentando as resistências e superando os obstáculos, dando à secular empresa da família a fisionomia que tem hoje, muito longe ainda, entretanto, de qualquer definição.

Vista do parque gráfico do jornal A Tarde, em Salvador.

Vista do parque gráfico do jornal A Tarde, em Salvador.

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Redação do Jornal Grande Bahia
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