Apreensivos, refugiados palestinos chegam ao Brasil na sexta-feira

“É o fim de uma longa espera para eles”, diz Anne-Marie Deutschlander, do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que acompanhou a situação dos palestinos desde abril de 2003, quando a maioria fugiu do Iraque após a queda de Saddam Hussein.

“Eles queriam saber onde iriam ser reassentados no Brasil, como é o clima, se iria ser em casa ou apartamento, como poderiam trabalhar…”, conta o oficial de reassentamento José Francisco Sieber Luz Filho, enviado pelo Acnur brasileiro para ajudar na adaptação cultural dos palestinos no Brasil.

Os palestinos, que passaram quatro anos vivendo em tendas no meio do deserto, ficaram felizes, mas apreensivos, quando receberam a notícia de que iriam para o Brasil.

Ao mesmo tempo em que foram distribuídos doces para comemorar e muitos choraram de alegria, surgiram dúvidas sobre um país desconhecido, com uma língua que ninguém sabia falar.

“Alguns revelaram medo em ir para São Paulo, porque ouvem dizer que é uma cidade muito violenta. O argumento que eu dou para eles é muito simples: ‘Vocês esqueceram que vieram de Bagdá?’”, diz Anne-Marie.

Os dois estados que receberão os refugiados, 117 ao todo, são Rio Grande do Sul e São Paulo.

A primeira leva, de 32 palestinos, a maioria idosos e famílias, desembarca no Brasil na sexta-feira.

Iraque

Muçulmanos sunitas, assim como o ex-presidente iraquiano, os palestinos que chegaram ao Iraque após as guerras de 1948 e 1967 viviam sob proteção até o início da guerra no país.

Segundo o Acnur, cerca de 25 mil palestinos moravam no Iraque antes de 2003 e, apesar de não ter sido possível fazer um levantamento muito preciso após o início do conflito, acredita-se que 15 mil continuem no país.

“Eles passaram a ser perseguidos e muitos deles foram e continuam sendo mortos pelos xiitas, que querem vingança depois de anos de opressão do regime de Saddam”, explica Imran Riza do Acnur.

A solução, adotada também por milhares de iraquianos ameaçados pela violência sectária, foi deixar o conforto da casa e o trabalho para trás e sair do país, no que está sendo considerado pelo Acnur a maior movimentação de uma população no Oriente Médio desde que os palestinos foram obrigados a se deslocar com a criação do Estado de Israel, em 1948.

Muitos foram para a Jordânia, que já tinha recebido milhares de iraquianos após a Guerra do Golfo, em 1991. Estima-se que o país abrigue atualmente cerca de 700 mil iraquianos e 1,5 milhão de palestinos.

Sofrimento

Saiez Ahmed Abbas, de 62 anos, diz ter abandonado a casa e a pequena fábrica de costura, com 15 funcionários, em Bagdá, para fugir da violência e mostra duas bolsas de viagem em que preparava colocar tudo o que tinha para embarcar para o Brasil nesta quinta-feira, dia 20.
“Nesta mala maior vão 30 kg de roupa e nesta outra vão 5 kg de bagagem de mão. É tudo o que eu tenho e com o que vivi nestes últimos quatro anos”, diz Abbas.

Ele e os outros 106 palestinos que permaneceram no campo de Ruweished – que em 2003 chegou a abrigar cerca de mil pessoas – passaram anos vivendo em tendas no meio de um deserto em que o ponto de referência mais próximo é a travessia de Al Karama, na fronteira do Iraque com a Jordânia, a 70 quilômetros do campo.

“As condições aqui são muito, muito ruins”, diz o professor de língua Árabe, Safah Ghazi Kamel, de 32 anos.

“No verão, o calor é insuportável e no inverno, o frio passa pelos ossos. Sem falar nas tempestades de areia, que são muito fortes”, explica Kamel, que assim como a maioria dos moradores do campo abre um sorriso quando lembra que o sofrimento parece finalmente ter chegado ao fim.

Segundo Riza, a atitude do Brasil em aceitar os palestinos resolve um grande problema e significa o fim do campo de Ruweished, do qual o governo jordaniano nunca sentiu orgulho.

Desde 2003, o governo anuncia o fechamento do local, mas o Acnur vinha pedindo o adiamento da medida para resolver o problema dos palestinos, que não podiam voltar para Bagdá por causa das ameaças de morte e não têm um Estado próprio para o qual possam voltar, restando apenas a opção de reassentamento em algum país que os aceite.

‘De porta em porta’

“A decisão brasileira é um exemplo de que a comunidade internacional está ajudando os refugiados, de que as pessoas estão recebendo a chance de começar uma nova vida”, diz Riza.

Porém, a chance demorou a aparecer. Primeiramente, o Acnur recorreu aos três tradicionais parceiros que costumam receber refugiados: os Estados Unidos, Canadá e Austrália. Todos recusaram os palestinos.

Em seguida, o Acnur foi “bater na porta”, nas palavras de Anne-Marie, dos países escandinavos, que também responderam negativamente.

“Os palestinos não são apenas refugiados, eles envolvem um problema político muito maior e vários governos não quiseram aceitá-los, muitas vezes por limitações das próprias leis do país”, explicou.

Quando uma porta finalmente se abriu, no Chile, a Autoridade Palestina interferiu para evitar a transferência, o que fez o governo chileno recuar da decisão de receber o grupo.

“A Autoridade Palestina quer evitar que estes refugiados saiam do Oriente Médio e se espalhem pelo mundo, além de estar muito preocupada com a perda do direito de retorno (a um possível futuro Estado palestino) destas pessoas. Nós explicamos a eles que ninguém vai perder este direito.”

Com o recuo do Chile, o governo brasileiro resolveu aceitar os refugiados, também com objeções da Autoridade Palestina.

“Mas o governo brasileiro não desistiu. Disse à Autoridade Palestina que lamenta muito, mas que este é um problema humanitário, que é mais importante do que o lado político”, diz Anne-Marie.

Este mês, a decisão chilena foi revertida novamente, quando houve o anúncio de que o Chile vai receber 100 refugiados, que atualmente vivem nos campos de Al-Tanf, na Síria, e Al-Waleed, no Iraque.

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