Mídia, morte, absolvição | Por Emiliano José

Emiliano José da Silva Filho.Emiliano José da Silva Filho.

Pode a morte absolver? Há uma estranha tradição a indicar que sim. As pessoas podem ser autoritárias, discricionárias, violentas, acostumadas a serem senhores de baraço e cutelo, e quando chega o momento final parece que tudo se apaga, e o que era em vida pecado torna-se, na morte, virtude. Os meios de comunicação, quase em uníssono, cantam loas nessas ocasiões.

O morto, o que se foi, pudesse olhar, e talvez desse um sorriso irônico, ou uma gargalhada, quem sabe, com tanto elogio e até tanta deformação. Ele próprio, pudesse contemplar o espetáculo, poderia dizer: não foi tanto assim, menos, menos. Embora o fizesse baixinho, sussurrando, pra quem ninguém pudesse ouvir.

Mas nem pode mais alterar o rumo das coisas. E aqui estivesse, o morto, e não gostaria de alterar. No entanto, olhando mais de perto, com mais cuidado, vamos observar que esse comportamento da mídia, no caso, não é tão acidental ou singular.

Em vida, os mortos ilustres, inclusive os que se valeram das benesses da ditadura, tornaram-se fontes fundamentais dos meios de comunicação, uma espécie de regra ainda difícil de entender. Tornaram-se o que chamei em um estudo meu de fontes oraculares, menos por seus méritos e mais pela bajulação, submissão da mídia. Mesmo que eventualmente fosse maltratada por este ou aquele morto, em vida.

Nelson Rodrigues, tão cruel, venenoso com as mulheres, talvez pudesse analisar essa síndrome da mídia brasileira. Apanha, é maltratada, ao menos os repórteres, e corre atrás de seus algozes, como se eles, sempre eles, fossem os oráculos, os que podem revelar a verdade, embora a mídia saiba que entre o que ela divulga e a verdade há uma distância abissal. Aliás, nem sei se sabe, ou se pensa que, de fato, o que revela é verdade. De tanto mentir, de tanto deturpar, de tanto tomar partido ao lado das classes dominantes brasileiras, quem sabe, pensa que mentira se torna verdade.

É impressionante como os oligarcas, os coronéis de antanho, os que se foram e os que sobrevivem, continuam a ser oráculos da mídia brasileira, ocupam laudas e laudas de texto, revelam e recriam o mundo ao seu redor pela pena de seus escrevinhadores.

Confesso: é um fenômeno que me intriga, este, o da absolvição pela morte.

Absolvição pela mídia. Os que objetarem que em vida havia críticas ao morto, ou aos mortos, estarão só parcialmente certos. Porque mais do que críticas, havia admiração. É como se a mídia gostasse do autoritarismo, e volto a Nelson Rodrigues.

Eu lia recentemente o livro A fabricação do rei, sobre Luiz XIV, o Rei Sol, o do Estado sou eu, o da autoglorificação permanente em vida, e pensava nessas coisas. Como as coisas mudaram e como continuam iguais, de alguma forma.

O morto, que em vida se autoglorificou o quanto pôde – e se não fazia medalhas ou estátuas a granel, como Luiz XIV, podia valer-se de seus poderosos meios de comunicação para dizer-se espécie de Rei Sol das terras ressequidas e miseráveis da Bahia enquanto pôde dominar – o morto às vezes sofria críticas, mas de modo geral era aplaudido, e não só pelos meios de comunicação que controlava. Pelos demais também, salvo as raras exceções, e vamos lembrar CartaCapital, Caros Amigos, e alguns poucos colunistas independentes, Bob Fernandes entre eles.

Ninguém deve celebrar a morte. E ninguém deve desrespeitar a dor de quem perde um ente querido. Trata-se aqui da análise dos fatos. Politicamente, a rigor, a derrota já havia acontecido. Não tem nada a ver com o fim da vida, destino de todos. O que se trata aqui é dessa estranha mania da submissão da mídia, do não apego à verdade histórica, da recusa aos fatos indiscutíveis.

A população, no entanto, apesar de tanta tinta gasta, de tantas horas de tevê, já havia dito o que pensava dessa fase. Na Bahia e no Brasil. A mídia, tanto quanto absolve uns, condena outros, sem qualquer critério, salvo o dos interesses de classes. Lula venceu contra a mídia. Wagner, também.

Por isso, a absolvição é da mídia. Não do povo, que já disse que pretende um outro tipo de liderança – democrática, transparente, capaz de dialogar, de resolver os problemas pelos caminhos da negociação, nunca pela imposição, como foi a característica dos anos de ditadura e de domínio oligárquico na Bahia. A Bahia já escolheu um outro caminho.

*Por Emiliano José é professor aposentado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA. Em 1999, defendeu a tese “A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha”, tornando-se doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Começou a carreira jornalística na Tribuna da Bahia, passou pelo Jornal da Bahia, O Estado de S. Paulo, O Globo, e pelas revistas Afinal e Visão. Foi um ativo integrante da imprensa alternativa nos tempos da ditadura.

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