Discretas esperanças | Por Emiliano José

Emiliano José da Silva Filho.Emiliano José da Silva Filho.

Vivemos tempos em que a reflexão, o pensamento filosófico estão em baixa. O mundo transformado em mercadoria, a instantaneidade, a fugacidade como fenômenos presentes em nosso cotidiano. Tudo que é sólido se desmancha no ar e numa velocidade antes nunca vista. É o império do efêmero sob o capitalismo, e mais ainda sob o capitalismo que se recicla a cada minuto, capaz de produzir bens quase de consumo imediato.

 É contra a abolição do pensamento crítico da sociedade contemporânea que se bate Olgária Matos, uma filósofa de tradição iluminista, herdeira do pessimismo inteligente e arguto de Walter Benjamin, cultora do pensamento clássico naquilo que ele tem de melhor. Trata-se de um espírito inquieto, desaconselhável a quem procura conforto. A filosofia é faca amolada nas mãos dela, navalha na carne. Como deve ser o pensamento filosófico.

 Por tudo isso, resolvi compartilhar brevemente o livro Discretas Esperanças, de autoria dela. Creio que é boa leitura para todos. Mas, mais ainda para jornalistas. A mídia, como se sabe, hoje mais do que ontem, é refém do pensamento aligeirado, da instantaneidade, da colagem de fatos sem preocupações históricas. Serve como reflexão, também, para todos os que celebram o progresso, com seu natural impulso destrutivo, como se ele fosse sempre o bem, o avanço. Walter Benjamin identificou, lá pelos idos dos fins dos anos 30, início dos 40 do século passado, a relação inseparável entre progresso e barbárie.

Não é agradável, mas é inevitável concluir que a sociedade contemporânea desacostumou-se da leitura atenta, concentrada, que cedeu lugar à “demagogia da facilidade”. Ou que a educação formadora, de tradição humanista, foi decretada inútil em uma época voltada para o consumo e para o espetáculo midiático. A concepção contemporânea de felicidade está na assimilação dos valores de consumo e aquisição de bens materiais. O fervor econômico capitalista gera valores disseminados pela mídia – produtividade e competitividade.

 É o culto constante da eficácia e do sucesso, veiculado e reforçado pela mídia.

 Sob os auspícios da mídia, aprender foi decretado fastidioso e o esforço intelectual, proscrito – outra lição de Olgária Matos. A cultura autêntica seria inacessível ao grande público. A população é estimulada a se sentir instruída quando se torna capaz de opinar acerca de assuntos do momento.

Rigorosa, ácida, diz que os cidadãos, quando aceitam esse jogo, tornam-se “lacaios do instante”, “escravos da manchete do dia”. A mídia não só prescinde da leitura, “mas a torna demodée”. Semiformação é a formação da mídia. O mundo do semiculto, formado pela mídia, é o da uniformidade.

 É o paradoxo de um tempo em que quanto mais tecnologia o homem produz, menos tempo tem à sua disposição. Em tese, o homem hoje teria um largo espaço para o lazer, para a fruição do tempo livre, para pensar, refletir, elaborar. Não, não há tempo para pensar. É preciso agir sempre com presteza, se apressar, correr para conquistar não se sabe o quê. Tudo se passa como se o homem imitasse a máquina, abdicando da faculdade de julgar e pensando por clichês.

Será que a autora exagera? Não creio. Creio, isso sim, e ela não abandona essa perspectiva, que é preciso lutar para mudar isso, para recuperar a noção de humanidade, buscar alternativas à barbárie que se apresenta como civilização.

*Por Emiliano José é professor aposentado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA. Em 1999, defendeu a tese “A Constituição de 1988, as reformas e o jornalismo de campanha”, tornando-se doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Começou a carreira jornalística na Tribuna da Bahia, passou pelo Jornal da Bahia, O Estado de S. Paulo, O Globo, e pelas revistas Afinal e Visão. Foi um ativo integrante da imprensa alternativa nos tempos da ditadura.

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