Rússia: Um novo bunker à dominação global? | Por Sérgio Barroso

Vista panorâmica de Moscou, Russia.Vista panorâmica de Moscou, Russia.

Artigo de A. Sérgio Barroso, médico e doutorando de economia da Unicamp, procura desvelar o futuro do país que em novembro próximo completará 90 anos de revolução socialista (1917), a Rússia. Com informações políticas, econômicas, culturais, socais e históricas, Barroso traça um panorama da trajetória no tempo da Rússia que tem incomodado os EUA. Barroso dá a palavra a Putim, na conclusão de seu artigo: ”a Rússia quase sempre teve o privilégio de uma política externa independente, não será nos dias de hoje que vamos abandonar esta tradição”. Leia abaixo o artigo na íntegra.

”As relações entre os EUA e a Rússia passam por um período difícil” (Condoleezza Rice, 11/5/2007)

Quem acha, com ares de historiador iluminado, o Brasil um país especialíssimo, não afeito a amadores etc e tal, deveria refletir e vasculhar algo sobre a Rússia – estranha e profunda.

Nos tempos modernos, o país se configura na segunda fase da industrialização (segunda metade do séc. 19), notadamente após a Reforma russa de 1861 – promotora, inconclusivamente, da abolição da servidão feudal; lança-se mão do Estado para consolidar seu capitalismo, visando a três objetivos centrais: a) emancipação da servidão camponesa e formação do mercado de trabalho; b) arranque da ”idade da estrada de ferro”, baseada nas necessidades militares e no exemplo ocidental; c) crescimento duma grande indústria têxtil, utilizando-se de máquinas e técnicos estrangeiros. ”Surfa” então na chamada segunda onda das industrializações atrasadas – juntamente ao Japão e a Itália -, na década de 1890.

A Rússia de Lev Tolstói

Velha Rússia que Nadeja Krupskaia, companheira do revolucionário Vladimir Lênin, em suas memórias sobre a vida e a obra dele, aclara alguns de seus subterrâneos idiossincráticos. Desvela, por exemplo, que para conhecer a alma de seu país e de seu povo, e para lutar pela transformação social, Lênin estudou o imenso painel de fundo: a grande literatura progressista de Gogol, Nekrassov, Turgueneiev, Chetchedrine, Herzen, Tolstói, Uspenski, entre muitos outros. São nítidas as influências da revolução francesa em Dostoievski, por exemplo.

A propósito, quase nada se diz do belo e emblemático artigo L. N. Tolstói, escrito por Lênin em razão da morte desse grande escritor. Expressivamente, escreve lá o teórico marxista: ”A época da preparação da revolução num dos países oprimidos pelos feudais surgiu, graças à interpretação genial de Tolstoi, como passo em frente no desenvolvimento artístico de toda a humanidade”. [1]

Resumindo bem a coisa, na formidável construção literária do país se desenhava sobre o pano de fundo da relação da aldeia russa – um mundo estreito, fechado, de vida patriarcal, com divisão entre camponeses ricos e pobres -, versus a devastação e a miséria provocada pela insurgência da industrialização. E, por volta de 1850, efervesciam idéias em duas direções e suas variantes. Num rumo, os que se alinhavam na defesa das tradições históricas do passado e do caráter nacional do povo russo, os ”eslavófilos”; noutro, aqueles que teorizavam mimetizando o padrão de desenvolvimento capitalista ocidental e por isto chamados de ”ocidentalistas”. [2]

Revolução e contra-revolução

Em meio à Primeira Grande Guerra, a Rússia é palco da primeira revolução socialista – um império czarista milenar desaba. Na carnificina interimperialista morreram nos campos de combate da Primeira Grande Guerra cerca de 8 ou 9 milhões de pessoas; acrescente-se mais 5 milhões de mortos por doenças e privações, na Europa – afora Rússia, onde a guerra civil se arrastou até 1921, computando a matança 16 milhões; resultou ainda em aproximadamente 7 milhões de incapacitados e 15 milhões de feridos. [3]

A influência da revolução russa – 90 anos em novembro próximo – foi (e ainda é) fonte de inspiração às esperanças dos trabalhadores em luta por um mundo melhor. E de passagem tomando aqui emprestada à idéia de Domenico Losurdo de que o desenvolvimento chinês atual se assemelha a ”uma grande NEP” (Nova Política Econômica, 1921-1927), relembro o firme proposto de Lênin em fixar naquele programa concessões ”por tempo limitado”. [4]

Curioso notar: o capitalismo mundial da Grande Depressão (1929-33) só se recupera, efetivamente, em meio à Segunda Guerra Mundial, enquanto a URSS, obteve taxas de crescimento ”impressionantes”. Fernandes (1999, p. 270) analisa os planos três qüinqüenais da URSS (1928 a 1941), tendo sido o terceiro interrompido pela invasão nazista: PIB de 13,2% médios no 1° Plano, e 16,1% no 2°. [5]

A admiração pelas formidáveis conquistas da revolução socialista da Rússia se agiganta quando a URSS doa 20 milhões de vidas humanas para destruir a máquina de guerra de Adolf Hitler. Sim, em Stalingrado o ”bunker” soviético paralisou a ofensiva nazista e iniciou o seu despedaçar.

A derrocada dos países socialistas do leste europeu (1989) e particularmente a desintegração da União Soviética (1991) engendraram, entre outros fenômenos, voraz expansão capitalista, processo comandado pela grande burguesia financeira e o Estado norte-americanos. Depois da débâcle tornou-se ”dramaticamente incerto” o destino político da parte do mundo que se estende ”desde a fronteira da Romênia até a da China” – asseverou o grande historiador Eric Hobsbawm. Nada disto tinha ocorrido depois de duas guerras mundiais: ”a questão para o próximo século – afirmou – é saber o que irá tomar o lugar do antigo sistema de potências que regia o mundo” (O novo século – Entrevista a Antonio Polito, São Paulo, Companhia das Lertas, 2000).

Da grande tragédia histórica à resistência?

”Vladimir Putin tenta dar à Rússia seu estatuto de grande potência…fazer renascer o orgulho nacional” (Robert Gates, ex-diretor da CIA e atual ministro da Defesa dos EUA) [6]

A atual Rússia, do presidente Vladimir Putin, parece ter profunda consciência disso. Em mensagem ao Parlamento russo (Abril, 2005), Putin disparou:

”É preciso reconhecer que a queda da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século. Dezenas de milhões de nossos cidadãos e compatriotas encontravam-se fora dos limites do território da Rússia. A epidemia do deslocamento propagou-se na Rússia. O patrimônio dos cidadãos foi desvalorizado, os velhos ideais destruídos, inúmeras instituições dispersadas ou reformadas rapidamente e sem o menor cuidado. A integridade do país foi atingida por intervenções terroristas e pela capitulação que se seguiu ao Khassaviurt [o cessar-fogo de 1996, que legalizou a vitória dos independentistas tchetchnos]. Os grupos oligárquicos, que tinham conquistado um poder sem limites sobre os fluxos de informações, serviam apenas a seus próprios interesses corporativos. Aceitou-se como ‘norma’ a miséria das massas. Tudo isso aconteceu tendo como pano de fundo a queda da economia, a instabilidade financeira, a paralisia da esfera social”. [7]

Note-se que no início de 2007, o produto interno bruto (PIB) da Rússia retomou, enfim, seu nível de 1990. Após a depressão dos anos 1990, o país passou por seis anos de crescimento – em média de 6% ao ano (2000-2006). Ao ”milagre” petroleiro juntam-se sucessos em outras áreas (metalurgia, alumínio, armamento, agronegócio), uma forte alta do consumo familiar, o resgate da dívida externa pública e mais: em cinco anos, o dobro de despesas com Educação e o triplo com Saúde.

Surpreendendo, algumas empresas russas ocupam novos espaços no cenário capitalista transnacional. E, embora o Estado não proíba a presença do capital estrangeiro, é claro que a ofensiva em setores estratégicos de monopólios públicos energéticos (Gazprom e Transneft) vai em direção oposta à política de restringir ao máximo o papel internacional da Rússia, pelos EUA.

Em setembro passado, China e Rússia fizeram a primeira manobra conjunta de exercícios militares de toda a história. Já no discurso ”O caráter indivisível e universal da segurança global” (43ª Conferência de Munique sobre Política de Segurança, 11/2/2007), disse Putin que Rússia, com mais de mil anos, quase sempre teve o privilégio de uma política externa independente: ”Não será nos dias de hoje que vamos abandonar esta tradição” – disparou.

Agora, diante da vassalagem de Polônia e República Checa, decidindo instalar escudos antimísseis dos EUA – bases de interceptação e espionagem -, Putin, em seu último discurso anual como chefe de Estado, atacou o ”estilo colonial” da superpotência. E congelou a adesão russa ao tratado de armas assinado no final da ”Guerra Fria”.

No último dia 8 de maio, nas comemorações de 62 anos da derrota da Alemanha nazista, disse Putin, em discurso, que:

”o mundo enfrenta ameaças à paz como aquelas que levaram à Segunda Guerra. [os EUA] desrespeitam a vida humana, agem e ditam regas como se fossem donos do mundo, tal como na época do Terceiro Reich”. [8]

Notas

[1] Lênin abre assim o artigo, referindo-se à revolução de 1905-1907 em seu país: ”Morreu Lev Tolstói. A sua importância mundial como artista, o seu renome mundial como pensador e doutrinador reflete, à sua maneira, a importância mundial da revolução russa”. In: V.I. Lenine.Tomo 2, p. 34 – Obras Escolhidas em Seis Tomos. Lisboa/Moscovo, 1984.

[2] Ver: ”Lênin:anotações sobre a gênese da inteligência revolucionária da nossa época”, de A. Sérgio Barroso, ”Princípios”, nº 72, São Paulo, Anita Garibaldi, 2004.

[3] Ver: ”Os anos de chumbo. Notas sobre a economia internacional no entre-guerras”, de Frederico Mazucchelli, no prelo, 2007.

[4] O objetivo principal da NEP apontava para a criação de bases materiais que avançassem à socialização generalizada da produção. Assentava-se em: 1) alocação e/ou aluguel de parte das forças produtivas a capitalista nacionais e estrangeiros por ”prazo de tempo determinado”; 2) cooperativas agrárias (e a terra), pertencendo ao Estado, liberava-se a comercialização da produção; 3) comissionava-se o pagamento a capitalistas que atuassem comércio. 3) montagem de empresas mistas e associação com o capital estrangeiro. Ver: URSS: ascensão e queda – a economia política das relações da União Soviética com o mundo capitalista”, de Luís Fernandes, p. 82, São Paulo, Anita Garibaldi, 1991.

[5] Ver; ”Rússia: do capitalismo tardio ao socialismo real”, de Luís Fernandes. In: Estados e moedas no desenvolvimento das nações, Fiori, J. L. (org.), Rio de Janeiro, Petrópolis, Vozes, 1999.

[6] ”Izvestia”, Moscou, 15 de dezembro de 2006; in: ”A Rússia busca seu lugar no mundo”, de Jean-Marie Chauvier, ”Le monde Diplomatique”, edição eletrônica, janeiro de 2007.

[7] In: ”A Rússia busca seu lugar no mundo”, idem.

[8] In: ”Folha de São Paulo”, 11/5/2007, p. A-20.

*A. Sérgio Barroso é médico e doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.

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