Feira de Santana humaniza tratamento psiquiátrico e muda a realidade manicomial | Por Carlos Lima

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

O programa Municipal de Saúde Mental foi implantado pelo prefeito José Ronaldo de Carvalho no final do primeiro semestre de 2002, para transformar a realidade manicomial segregacionista, estigmatizante e produtora de doença, visando construir na sociedade as condições que viabilizem as transformações que digam respeito a melhoria da qualidade terapêutica das pessoas com transtornos mentais.

As ações tiveram início com a implantação dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), criando uma rede de atendimento aos portadores de transtornos mentais e dependentes de álcool e drogas. Com a consolidação da rede o passo seguinte foi à implantação do Programa “De Volta Para Casa”, em parceria com o Ministério da Saúde, assumindo a desinstitucionalização do Hospital Especializado Lopes Rodrigues (HELR), através de ensaios de uma vida normal, em que 350 pacientes do Núcleo de Atenção a Moradores da ex-Colônia que começavam a sonhar com a derrubada dos “muros” que os impediam de ter uma vida digna.

Os questionamentos iniciais foram muitos: será que vai dar certo? Como esses pacientes que estão em regime de internato a mais de 20 anos vão reagir? Esse negócio não vai dar certo, doido vivendo em comunidade e tomando conta de uma casa, é impossível?
O prefeito não mudou o seu posicionamento e inaugurou as primeiras residências terapêuticas no dia 18 de maio de 2005. A solenidade foi marcada pela emoção, dois casais, ex-pacientes do HELR, Gildésio Vieira de Santana, Antonia dos Santos Cintra e Jailton da Silva, Iara Francisca de Jesus, que viviam internados na Colônia, casaram-se, o casamento foi celebrado pelo Frei Cal. Graças às residências terapêuticas passaram a viver em sociedade, assistidos pelo Caps III João Carlos Lopes Cavalcante. Continuam convivendo.

Gildásio e Antonia residem na Rua Manoel Mendes Pereira, 2008, e Jailton e Iara moram na Rua São Gonçalo, 1005, no bairro Ponto Central. Antonia Cintra quando recebe uma visita faz questão de mostrar a casa, fala de sua felicidade e diz: “agente não tinha onde guardar as nossas roupas. Era uma vestida e outra ficava dentro de um saco que ficava em nossas mãos, senão os outros roubavam. Agora tenho a minha casinha, faço compras, assisto televisão, ouço o rádio, olha, tenho um ventilador o calor é grande”.

Jailton e Iara dizem que: “todos os dias tomo o meu remédio, arrumo a casa, lavo minhas roupas, os pratos, passeamos, vamos ao cinema, estamos felizes, aqui é muito bom, temos o nosso dinheirinho para a gente comprar o que agente quer”. Nas outras residências terapêuticas, os ex-pacientes escolheram seus colegas para dividir o espaço da casa, e muitas foram às escolhas, participaram de reuniões, conversaram entre eles, enfim tiveram todas as liberdades para aproximar os desejos e vontades na partilha do mesmo teto.

Wilson Lopes de Menezes, um dos oito moradores da casa nº 396, na Rua Rio Itapemirim, bairro Capuchinhos, com os olhos lacrimejando falou de sua alegria: “agora tenho uma família. A minha família está aqui, moramos todos juntos, brincamos, assistimos filmes na televisão, cada um faz uma coisa dentro de casa, tem uma pessoa que conversa com agente, dá remédio, ninguém tira as nossas coisas, ninguém briga com agente. O senhor quer água, o café agente já tomou!”.

A coordenadora do Departamento de Saúde Mental, da Secretaria Municipal de Saúde, disse que não existe nada mais gratificante para todos os profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial que dão assistência aos moradores das residências terapêuticas do que a constatação dos avanços na qualidade de vida dos ex-internos do Hospital Especializado Lopes Rodrigues (HELR), e na maioria das vezes ficam emocionados com os depoimentos e agradecimentos que eles fazem.

Eles falam com uma satisfação contagiante de como preparam o café, do banho de chuveiro com água quente na hora que desejam, dos cuidados com a casa, dos novos amigos que fizeram, da roupa que esta no guarda-roupa, do rádio na cabeceira da cama, da novela na televisão, que foi na rua comprar um celular, tomou sorvete, comprou uma calça, um vestido, do salão de beleza que alisou o cabelo e que ficou mais bonita. Enfim, eles estão vivendo tendo liberdade e resgatando a cidadania. Tudo isso acontece pela determinação de resgatar a humanidade que deve existir no tratamento das pessoas que possuem transtornos mentais.

*Por Carlos Antonio de Lima, brasileiro, natural de Caruaru, Estado de Pernambuco, nasceu no dia 22 de dezembro de 1951. Jornalista e radialista. Atualmente Tesoureiro da Academia Feirense de Letras, membro do MCC – Movimento do Cursilho de Cristandade da Arquidiocese de Feira de Santana, âncora do programa jornalístico Jornal da Povo, da Rádio Povo, emissora que pertence ao Sistema Pazzi de Comunicação e chefe de Redação e Divulgação da Secretaria Municipal de Comunicação Social.

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