Afinal, somos águias ou galinhas? | Por Leonardo Boff

Francisco de Assis e Francisco de Roma, escrito por Leonardo Boff.Francisco de Assis e Francisco de Roma, escrito por Leonardo Boff.

Leonardo Boff em seu livro: A águia e a galinha – uma metáfora da condição humana (Editora Vozes) -, que recomendo a leitura, nos dá uma idéia bastante significativa, vivenciada por todos nós brasileiros. Na verdade fomos verdadeiras galinhas por quase quatrocentos anos, enquanto colônia portuguesa até 1822, e Império até 15 de novembro de 1889. Na condição de colônia fomos saqueados todo tempo. Todas as riquezas naturais aqui retiradas, ou aquelas produzidas seguiam para Portugal, quando não para outros colonizadores que por aqui aportaram, a exemplo dos holandeses e franceses.

Na condição de Império, não melhor, nossas riquezas iam para as mãos de suas majestades, os Imperadores. Desde a proclamação da república tentamos em vão, em vôos desconcertantes e rasteiros, ser águias. É que a nossa galinha continua enrustida em nossa águia que não olha para o sol; não tenta alçar vôos mais altos. Diríamos que a nossa águia tem pouco mais de cem anos, e se foi por quase quatrocentos anos galinha, certamente, com um pouco mais de tempo e de treino, alçará longos vôos. Evidentemente que, pacientemente, aguardaremos esse momento, afinal, como já disse, a galinha continua enrustida em nossa águia.

Entretanto, se conseguirmos olhar diretamente para o sol poderemos alçar altos e longos vôos, e impedir que continuemos a ser saqueados. Foram-se nossos colonizadores. Ficamos. Proclamamos a república, mas, por aqui ficaram os seus legados, que continuam a saquear as nossas riquezas. Bilhões de reais são mandados para contas em paraísos fiscais, e, enquanto isso, não conseguimos aprimorar a educação, diminuir as desigualdades sociais, ou mesmo manter a segurança pública. Não conseguimos sequer alimentar o nosso povo de forma digna. Nossas instituições se apresentam cada vez mais corruptas.

Os escândalos já não são tão escandalosos, porque se tornaram freqüentes. Afinal, escândalo é a aberração grandiosa que deveria acontecer eventualmente (presume-se), e, se já não é eventual, e, se os pequenos escândalos se misturam com os grandes escândalos, quando já não sabemos quais são os grandes ou pequenos escândalos, mesmo porque, às vezes, os pequenos escândalos são mais noticiados que os grandes escândalos, muito à vontade e a mercê da possível repercussão que valha o noticiário.

Um pequeno escândalo, como na hipótese da mulher de um político famoso filiado a um grande partido, que venha traí-lo com outro político do ‘baixo clero’, filiado de um pequeno partido (ou do mesmo partido, quem sabe?), certamente dará muito mais páginas de jornal e revistas Brasil afora, principalmente na televisão, se por azar dos amantes fossem flagrados e filmados saindo de um motel qualquer, do que a descoberta de um grande golpe aplicado por políticos, onde hipoteticamente fosse lesado o Estado em alguns bilhões de reais, que resultasse na morte indireta de milhares de brasileiros, caracterizando o crime de genocídio tal a sua abrangência. Portanto, cuidemos de ser águias, sem deixar de cultivar a nossa galinha para não perdermos a ternura.

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