Falta coragem | Por Carlos Chagas

Carlos Chagas foi um advogado, escritor, professor e jornalista brasileiro. Carlos era pai de Helena Chagas, ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo de Dilma Rousseff.Carlos Chagas foi um advogado, escritor, professor e jornalista brasileiro. Carlos era pai de Helena Chagas, ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo de Dilma Rousseff.

E as empresas? Afinal, o governo passa seis meses tergiversando a respeito da crise no tráfego aéreo, acaba dando uma paulada na Aeronáutica, quebrando a hierarquia militar, humilhando o ministro da Defesa e cedendo à pressão de amotinados controladores de voo, tudo para depois anunciar a desmilitarização do setor. Descaso total para com os passageiros, tratados pior do que gado, pois este pelo menos é alimentado. Um caos para ninguém botar defeito.

E as empresas? Para elas, nem uma palavra de repreensão. Perto delas o poder público não chega. Vendem mais passagens do que poltronas, nas aeronaves; deixam ao abandono passageiros que já pagaram seus bilhetes; retiram de atividade quantos aviões queiram, a pretexto de manutenção em massa, atrasando e cancelando os vôos que bem entendem; em vez de aumentar, diminuem o número de atendentes nos aeroportos, intimidados com a reação crescente dos usuários; nada informam quando o cidadão desesperado busca saber a que horas e se vai viajar; não pagam refeições nem providenciam hospedagem para a maioria dos que permanecem até mais de um dia nos saguões. Por último, sequer distribuem colchões para o indigitado passageiro, obrigado a dormir no chão frio dos aeroportos.

Houvesse vontade política por parte do governo em resolver a crise e as empresas já estariam sob intervenção. Mesmo sem precisar apelar para a estatização, a hora seria de ocupar por prazo determinado a atividade desses grupos interessados apenas no lucro. E se não há mais brigadeiros para exercer a função de interventores, que se convoque a tecnocracia. Que tal funcionários do Banco Central ou da Polícia Federal nos balcões? Perdão, os funcionários do Banco Central e os agentes da Polícia Federal também ameaçam paralisar suas atividades…

Uma ajudinha imprescindível

Bem que o Supremo Tribunal Federal poderia dar uma ajudinha para resolver a crise. Depois que o relator Celso de Mello manifestou-se favorável à constituição da CPI do Apagão na Câmara dos Deputados, mas deixou a decisão final para o pleno daquela corte, seria de esperar que os doutos ministros não perdessem tempo para a palavra final. Especialmente quando a nação inteira clama pela investigação e responsabilização do caos, por que aguardar o final do mês, como vem sendo divulgado? Haveria questão mais importante a examinar e decidir, quando os próprios ministros do Supremo e famílias sofrem os efeitos do apagão aéreo?

A CPI não vai resolver a crise, muito menos servirá para fazer os aviões decolarem e pousarem no horário, mas exporá as entranhas desse fracasso nacional. A sociedade quer saber por que, de repente, virou tudo de pernas para o ar. Quais os responsáveis? Vale mais o lucro para as empresas do que o bem-estar dos passageiros? Essas e mil outras perguntas teriam resposta com o início dos trabalhos da CPI, coisa que só depende de uma sessão do STF.

Represália à vista

Para ficar no tema, vale registrar a indignação da Aeronáutica diante de haver sido o seu comandante desautorizado pelo presidente em questão puramente castrense, como a defesa da hierarquia militar. Não poderiam ter feito greve, como não podem fazer agora, os amotinados controladores de vôo. Sem retirar-lhes parte da razão por se exasperarem pelo acúmulo de trabalho e pelos baixos vencimentos, eles estão incursos em tudo quanto é regulamento castrense, além de terem rasgado a Constituição que proíbe paralisação em serviços essenciais.

Há que esperar a reação da Força Aérea, superior ao estrilo exposto em manifesto do presidente do Clube da Aeronáutica, brigadeiro Ivan Frota. Desde sábado que os oficiais comandantes dos Cindactas não aparecem para comandar os sargentos controladores. Mas é pouco, mesmo sem se admitir qualquer volta ao passado remoto, da insurreição diante da quebra da hierarquia promovida pelo então presidente João Goulart, nos idos de 1964.

Uma boa resposta seria a FAB manter no solo suas aeronaves, inclusive o Aerolula e os jatinhos postos à disposição de ministros. Sem esquecer os helicópteros que servem à presidência da República. Motivos e pretextos não faltariam, como a dengue ameaçando pilotos e mecânicos.

*Carlos Chagas, advogado, escritor, professor e jornalista.

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