Caso Marielle Franco: Presidente Jair Bolsonaro confessa crime de obstrução da Justiça ao confirmar que pegou áudios de condomínio antes que provas fossem adulteradas

Presidente Jair Bolsonaro confessa crime de obstrução da Justiça.

Presidente Jair Bolsonaro confessa crime de obstrução da Justiça.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste sábado (02/11/2019), ter obtido os áudios de ligações feitas entre a portaria e as casas do condomínio Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro, antes que elas tivessem sido “adulteradas”. “Nós pegamos antes que fosse adulterado, pegamos lá toda a memória da secretária eletrônica, que é guardada há mais de ano. A voz não é minha”, disse.

A reportagem pediu ao Planalto detalhes sobre as declarações do presidente, para esclarecer quando os áudios foram obtidos, em que circunstâncias e se Bolsonaro obteve uma cópia deles, mas a resposta foi de que não haveria comentários.

Após a declaração, os líderes da Oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ), e no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), informaram que iriam acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro, sob a alegação de que o presidente cometeu “obstrução de Justiça”, ao “ter se apropriado de provas relacionadas às investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes”.

Os líderes informaram em nota que “também pedirão que seja determinada a devolução do material que Bolsonaro se apropriou ilegalmente e que todo o conteúdo seja periciado”.

Reportagem do Jornal Nacional veiculada na terça-feira, 29, mostrou que o porteiro do condomínio onde o presidente tem casa contou à polícia que horas antes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o ex-PM Elcio Queiroz, suspeito de participação no crime, teria dito que iria à casa 58 – que pertence ao presidente.

De acordo com depoimento porteiro, cujo nome não foi revelado, uma ligação teria sido feita para a casa 58 e que “seu Jair” atendeu o telefone e autorizou a entrada. Ainda segundo o porteiro, Elcio Queiroz seguiu para a casa de Ronnie Lessa, outro suspeito do assassinato. Registros da Câmara dos Deputados mostram que, no dia do assassinato de Marielle, Bolsonaro estava em Brasília.

Um dia depois da exibição da reportagem, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, exibiu arquivos obtidos por ele na portaria em que não havia registros da ligação mencionada pelo porteiro à polícia. No mesmo dia, o Ministério Público do Rio, numa entrevista coletiva, afirmou que o porteiro mentiu no depoimento.

Uma das integrantes do MP que participaram da entrevista coletiva, Carmen Bastos de Carvalho, fez campanha para Bolsonaro. E, nesta sexta-feira, diante da repercussão negativa, deixou as investigações da morte de Marielle e do motorista. Bolsonaro falou sobre as gravações “não adulteradas” quando foi questionado, neste sábado, sobre a atuação da promotora. “Olha só, deve ter no meio de vocês gente que votou em mim, deve ter, com toda a certeza. Agora a promotora resolveu sair, tá certo?”.

O presidente repetiu que estava em Brasília, conforme comprovado pelas passagens no painel eletrônico.

Bolsonaro não deu, no entanto, detalhes sobre quando pegou as gravações e o que quis dizer sobre “adulterações.” Ao falar sobre o tema, ele voltou a atacar o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC). “Agora, quem está por trás disso? Eu não tenho dúvida, governador Witzel, que só se elegeu graças ao meu filho, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ)”.

Após as declarações do pai, Carlos Bolsonaro afirmou, no Twitter que, se não tivesse “acesso às gravações dos áudios”, “hoje, além do linchamento moral proposital que (Bolsonaro) sofre diariamente, certamente já estariam discutindo seu impeachment”.

Ministro Sérgio Moro teria ficado ‘chateado’ com declarações da família de Marielle Franco sobre ele

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, revelou a interlocutores ter ficado ‘chateado’ após a família da vereadora Marielle Franco (PSOL) ter pedido que ele fique fora das investigações em torno do assassinato da parlamentar, em março de 2018.

O Estadão apurou que ele comentou a pessoas próximas que a PF foi responsável ‘excluir a linha fraudulenta de investigação’ na Polícia Civil do Rio, em que foi ‘plantada testemunha’ para desviar atenção dos ‘verdadeiros culpados’. Também ponderou que a ex-procuradora-geral Raquel Dodge foi quem pediu a federalização do caso.

Neste sábado, 2, a família afirmou, em nota, discordar do ministro da Justiça, Sergio Moro, que passou a defender a federalização das investigações da morte da política e do seu motorista Anderson Gomes.

“Somente após a menção ao presidente da República, Jair Bolsonaro, no inquérito, o ministro começou a se declarar publicamente a favor da federalização. Acreditamos que Sergio Moro contribuirá muito mais se ele permanecer afastado das apurações”, afirmaram em nota Marinete da Silva (mãe), Antonio Francisco da Silva (pai), Anielle Franco (irmã), Monica Benício (esposa) e Marcelo Freixo.

Mônica Benício se reuniu com Moro e dois delegados da Polícia Federal no ministério da Justiça, em Brasília no dia 15 de outubro.

O ministro da Justiça pediu ao procurador-geral, Augusto Aras, que abra um inquérito para apurar se houve ‘tentativa de envolvimento indevido’ do nome do presidente Jair Bolsonaro na investigação.

A medida veio após reportagem do Jornal Nacional mostrar que um porteiro firmou à Polícia Civil que, às 17h10 de 14 de março de 2018 (horas antes do crime), um homem chamado Elcio (que seria Elcio Queiroz, um dos acusados pelo duplo homicídio) entrou no condomínio dirigindo um Renault Logan prata e afirmou que iria à casa 58, que pertence a Bolsonaro e onde morava o presidente.

Naquela data, Bolsonaro estava em Brasília, segundo registros na Câmara, e também publicações em suas redes sociais. O filho do presidente, Carlos Bolsonaro, vereador pelo PSC, mostrou, em suas redes sociais, que um telefonema foi feito diretamente à casa de Ronnie Lessa. O Ministério Público do Rio afirmou, em entrevista coletiva, que o porteiro ‘mentiu’ em depoimento ao citar Bolsonaro.

Ao dar adeus à Procuradoria-Geral da República, em setembro, Raquel Dodge denunciou o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Domingos Brazão por atrapalhar as investigações. Ele também é alvo de inquérito por ser o suposto mandante da execução da vereadora.

A então PGR também chegou a afirmar que ‘foram engendrados depoimentos que conduziram a Polícia Civil, a um certo tempo, a indicar que os autores eram pessoas que não tinham participado da atuação’.

Extremista de direita, governador Ronaldo Caiado defende Bolsonaro no caso Marielle: Calúnias não têm sustentação

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), saiu nesta quarta-feira (30/10/2019), em defesa do presidente Jair Bolsonaro no episódio do porteiro do condomínio onde ele tem casa que o citou em depoimento que integra o inquérito do assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol). Pelo Twitter, Caiado disse identificar-se com Bolsonaro.

“As calúnias lançadas ontem contra o presidente Jair Bolsonaro não têm nenhuma sustentação. A matéria (do ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo) sequer podia ser publicada, pois o presidente estava na Câmara dos Deputados. Qual o objetivo disso? Desestabilizar a estrutura democrática porque não ganharam as eleições?”, escreveu o governador de Goiás, que disse, então, que Bolsonaro é vítima de “uma montagem para tentar reverter a vontade da população”.

Caiado disse que já passou “por situações difíceis” onde foi “penalizado por calúnias desferidas” contra ele e a família, e que não tem nada mais doloroso do que o ataque a “quem amamos”. “Mas, como homem temente a Deus, isso faz com que a gente seja ainda mais firme. Não desista, Jair Bolsonaro”, concluiu.

*Com informações de Idiana Tomazelli, Fausto Macedo, Luiz Vassallo e de Gregory Prudenciano, do Broadcast de Política do Jornal Estadão.

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