Flechas para corruptos e bala para ministro | Por Luiz Holanda

Ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal. “Não ia ser ameaça não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar Mendes) e depois me suicidar”, afirmou Rodrigo Janot à Revista Veja.

Ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal. “Não ia ser ameaça não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele (Gilmar Mendes) e depois me suicidar”, afirmou Rodrigo Janot à Revista Veja.

A bala seria de metal; a flecha, de bambu. Ambas pertenciam a Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República (Ex-PGR).  A bala não existe mais. A flecha veio com um arco, entregue pela procuradora Lívia Tinoco, de Sergipe, a pedido de um grupo indígena do estado. Na ocasião (encontro que reuniu alguns procuradores para um balanço dos quatro anos de Janot à frente da PGR), a imprensa deu um enorme destaque. Janot foi capa de importantes revistas.

O apetrecho indígena simbolizava as bravatas do então procurador geral quando, pomposo ao apontar os corruptos descobertos pela Lava Jato, bradou que “enquanto houver bambu, lá vai flecha”. Logo depois se aposentou, não sem ser contraditado e atacado, tanto pelos deslizes praticados durante sua gestão, quanto pela escandalosa exposição perante a mídia. Janot, que se apresentava como o símbolo da moralidade pública, acabou acusado de manter relações pouco ortodoxas com os sócios da JBS.

Agora a bravata aparece ligada a uma esdrúxula tentativa de assassinar um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), justamente Gilmar Mendes, o mais criticado membro de nossa Suprema Corte. Segundo Janot, quando entrou no plenário da Corte, “ele já estava lá. Não pensei duas vezes. Tirei a minha pistola da cintura, engatilhei, mantive-a encostada à perna e fui para cima dele. Mas algo estranho aconteceu. Quando procurei o gatilho, meu dedo indicador ficou paralisado. Eu sou destro. Mudei de mão. Tentei posicionar a pistola na mão esquerda, mas meu dedo paralisou de novo. Nesse momento, eu estava a menos de dois metros dele. Não erro um tiro dessa distância. Pensei: “Isso é um sinal”. Acho que ele nem percebeu que esteve perto da morte”.

Uma declaração desse tipo era tudo que Gilmar queria para continuar criticando a atuação dos procuradores nas investigações da Lava jato. Ao tomar conhecimento do fato, afirmou que lamentava que boa parte do “devido processo legal no País” tenha ficado “refém de quem confessa ter impulsos homicidas”. Em nota crítica à atuação do ex-procurador, recomendou que ele procurasse ajuda psiquiátrica para acalmar seu ódio, e que o combate à corrupção no Brasil se tornou refém de fanáticos.

Mais tarde, em entrevista após evento em Brasília, Gilmar disse que não imaginava que houvesse um “potencial facínora” no comando da PGR, e que, “dadas as palavras de um ex-procurador-geral da República, nada mais me resta além de lamentar o fato de que, por um bom tempo, uma parte do devido processo legal no País ficou refém de quem confessa ter impulsos homicidas, destacando que a eventual intenção suicida, no caso, buscava apenas o livramento da pena que adviria do gesto tresloucado. Até o ato contra si mesmo seria motivado por oportunismo e covardia”.

Por ironia do destino, ambos eram amigos. Entraram juntos no Ministério Público Federal e foram para a Europa estudar e tomar cerveja. São também muito parecidos, pois jamais souberam controlar a língua. Ambroise Bierce, a respeito da loquacidade, afirmou tratar-se de uma desordem que torna o paciente incapaz de frear a língua quando deseja falar. Quanto à intenção de matar, Disraeli nos ensina que o assassinato nunca mudou a história do mundo.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

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Perfil do Autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]