Cargos e emendas liberadas pelo papai conduzem Eduardo Bolsonaro à liderança do PSL na Câmara dos Deputados; Autofagia entre extremistas de direita prossegue

Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), deputado federal. Com ajuda do papai presidente, filhinho se tornou líder do PSL na Câmara.

Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), deputado federal. Com ajuda do papai presidente, filhinho se tornou líder do PSL na Câmara.

Em mais um capítulo da autofagia do PSL no Congresso Nacional, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (SP) se tornou nesta segunda-feira (21/10/2019) novo líder do partido na Câmara dos Deputados. Um grupo de 29 dos 53 parlamentares do PSL assinou lista em favor de Eduardo e a apresentou na Secretaria-Geral da Câmara, o que permitiu que ele passasse a figurar como líder do partido no sistema da Câmara.

Na sequência, o deputado federal Waldir Soares (PSL-GO), ex-líder do PSL na Câmara, divulgou vídeo em que admite a derrota e reconhece o filho do presidente Jair Bolsonaro como novo líder.

Waldir Soares disse estar à disposição da nova liderança e mandou recado ao presidente. “Nós não rasgamos a Constituição ainda. A Constituição prevê que o Executivo não deve interferir no Parlamento em nenhuma ação”, disse.

Nos bastidores, a informação é que a ampliação da base que permitiu a indicação de Eduardo Bolsonaro como líder foi feita a partir de cargos e emendas, liberadas pelo presidente Jair Bolsonaro, papai do parlamentar.

A lista pró-Eduardo Bolsonaro

Em uma rede social, o deputado Vitor Hugo afirmou ter assinado a lista e reunido as assinaturas de Alê Silva (MG), Aline Sleutjes (PR), Bia Kicis (DF), Bibo Nunes (RS), Carla Zambelli (SP), Carlos Jordy (RJ), Caroline de Toni (SC), Chris Tonietto (RJ), Coronel Armando (SC), Coronel Chrisóstomo (RO), Daniel Freitas (SC), Daniel Silveira (RJ), Dr. Luiz Ovando (MS), Eduardo Bolsonaro (SP), Enéias Reis (MG), Filipe Barros (PR), General Girão (RN), General Peternelli (SP), Guiga Peixoto (SP), Helio Lopes (RJ), Junio Amaral (MG), Léo Motta (MG), Luiz Lima (RJ), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP), Marcelo Brum (RS), Marcio Labre (RJ), Ricardo Pericar (RJ) e Sanderson (RS).

Presidente do PSL na Bahia, Dayane Pimentel não assinou a lista.

Com R$ 8,3 milhões mensais de fundo partidário, PSL tem diretórios funcionando apenas em 25% dos municípios

Segundo reportagem do Jornal O Globo, além das disputas internas, que racharam o partido em dois grupos, o PSL terá de superar outra barreira para emplacar o desejado projeto de expansão pelo país: a presença ainda tímida nas cidades. Apesar de receber R$ 8,3 milhões mensais do fundo partidário, a legenda do presidente Jair Bolsonaro não tem diretórios municipais constituídos ou está com a estrutura partidária suspensa por falhas nas prestações de contas ou outras irregularidades em 75% das cidades brasileiras, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Somados, a crise política e a baixa capilaridade têm potencial para frear um ritmo de crescimento que tendia a ser acelerado, a julgar pelo resultado das urnas em 2018 — vitória presidencial, segunda maior bancada na Câmara e governadores eleitos em Santa Catarina, Rondônia e Roraima.

Com 30 prefeitos vitoriosos em 2016, o PSL está formalmente presente em 1.656 dos 5.570 municípios do país. Dentro desse universo, há ainda 272 diretórios suspensos pelo TSE — o motivo mais comum é a não apresentação da prestação de contas no prazo estipulado pela lei. Desta forma, restam 1.384 cidades — um quarto do Brasil — em que a sigla tem representação formal, sem nenhuma objeção.

‘Pretendo beneficiar, sim’: Relembre momentos em que Jair Bolsonaro saiu em defesa dos interesses dos filhos

Na quinta-feira (18/10/2019), o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender a indicação de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), como embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Em sua live semanal no Facebook, ele rebateu as acusações de que estava favorecendo o filho.

“Pretendo beneficiar filho meu, sim. Se eu puder dar um filé mignon ‘pro’ meu filho, eu dou, mas não tem nada a ver com o filé mignon essa história aí. É aprofundar o relacionamento com a maior potência do mundo”, afirmou o presidente.

Defesa de Flávio no “caso Queiroz”

Essa não foi a primeira vez que Bolsonaro saiu em defesa publicamente de um dos seus filhos. Na última terça-feira, 16, o presidente afirmou que desconhecia a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, que beneficia o seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PSL), no “caso Queiroz”.

Toffoli suspendeu todas as investigações que utilizam dados obtidos pelo Coaf e outros órgãos de controle, como Receita Federal e Banco Central, sem autorização judicial prévia. “Quem fala sobre isso são nossos advogados”, afirmou o presidente, se incluindo no caso. No entanto, nesta sexta-feira, 19, Bolsonaro defendeu a medida tomada pelo presidente do STF.

A afirmação foi feita a jornalistas após o evento de posse do novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),  Gustavo Montezano. Na ocasião, Bolsonaro exaltou amizade dos seus filhos com Montezano, que morou no mesmo condomínio que eles durante a juventude, e disse que Flávio, por ser seu filho, “tem seus problemas potencializados”.

“Vejo que, daquela garotada do condomínio, temos um presidente do BNDES. Temos um senador da República (Flávio Bolsonaro), que, por ser meu filho, tem seus problemas potencializados. E teremos, se Deus quiser, um embaixador na maior potência do mundo”, afirmou Bolsonaro. “Até porque um pai, mesmo sendo deputado na época, não tinha como bancar o aperfeiçoamento dele nos Estados Unidos e ele (Eduardo) tinha que trabalhar”, continuou o presidente.

Em entrevista à revista Veja no dia 31 de maio, Bolsonaro voltou a alegar que as acusações contra Flávio e Queiroz são superdimensionadas por ter seu filho envolvido. “Pode ter coisa errada? Pode, não estou dizendo que tem”, disse Bolsonaro, que mantinha uma relação de amizade com Queiroz.

“Mas tem o superdimensionamento porque sou eu, porque é meu filho. Ninguém mais do que eu quer a solução desse caso o mais rápido possível”, afirmou. Ele ainda disse que “se alguém mexe com um filho teu, não interessa se ele está certo ou está errado, você se preocupa”.

Carlos Bolsonaro e o “caso Bebianno”

Em fevereiro, durante a primeira crise do governo, Bolsonaro endossou críticas feitas por seu filho Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro, no Twitter, ao então ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Carlos chamou Bebianno de mentiroso, ao desmentir a fala do então ministro em que dizia que não havia crise no governo e que havia falado com o presidente sobre o caso das supostas candidaturas laranjas do PSL, partido do presidente, nas eleições de 2018. Bebianno era o presidente do partido na época da campanha.

“Ontem estive 24h do dia ao lado do meu pai e afirmo: ‘É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano (sic) que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista’”, escreveu Carlos Bolsonaro no microblog.

Para “comprovar” que o ministro havia mentido, Carlos divulgou um áudio no qual Bolsonaro, que estava hospitalizado, falava para Bebianno que não podia falar. Na sequência, o próprio presidente compartilhou a postagem do filho. O episódio acabou levando à saída de Bebianno, resultando na primeira demissão de um ministro do governo Bolsonaro.

Além de Bebianno, Carlos Bolsonaro já entrou em atrito, sempre via redes sociais, com outros nomes fortes do governo, como o vice-presidente Hamilton Mourão, o ex-ministro Santos Cruz – que também foi demitido -, e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno.

Mesmo com o incômodo da ala militar do governo com as críticas de Carlos, o presidente nunca repreendeu o filho em público. Por outro lado, Bolsonaro já chegou a afirmar que deve sua eleição ao “filho 02” – a quem se refere como “pitbull” – por conta de sua atuação durante a campanha nas redes sociais.

“Defesa dos filhos faz parte do personagem construído durante a campanha”
Para o professor de Comunicação Política da Universidade Metodista de São Paulo, Kleber Carrilho, Bolsonaro pode até confundir a função de presidente com o papel de pai, mas afirma que essa postura é natural e legítima para parte do eleitorado que o elegeu, uma vez que esse perfil já foi apresentado durante a campanha presidencial.

“O personagem que foi eleito não é exatamente um personagem desenvolvido a partir da capacidade de entender a diferença entre o que é familiar e o que é político. Ele se afirmou durante a campanha e tem se reafirmado durante o mandato como uma pessoa comum que deixa de lado as questões políticas para defender as ideias que ele representa, isto é, a ideia de família, que faz com que para uma parte do eleitorado dele isso tenha força de algo legítimo”, observa Carrilho.

O processo de autofagia

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro tentou emplacar o filho no cargo, mas houve resistência dentro da legenda. Em uma guerra de listas para demonstração de força, o deputado Delegado Waldir (GO) havia ganhado sobrevida no cargo. Nesta segunda-feira, o parlamentar reconheceu a derrota e anunciou que está à disposição do novo líder.

Ao agradecer o apoio dos colegas, o deputado deixou um recado para o Planalto.

“Queria agradecer os parlamentares que confiaram nesse nosso projeto, dizer que não somos subordinados a nenhum governador, a nenhum presidente, mas sim ao meu eleitor e vou continuar defendendo todas prerrogativas do Parlamento. Nós não rasgamos a Constituição ainda. Nós não rasgamos a Constituição. A Constituição prevê que o Executivo não deve interferir no Parlamento em nenhuma ação”, disse Waldir.

O próprio presidente Jair Bolsonaro se empenhou pessoalmente na campanha para tornar o filho líder da legenda. Era necessário ter maioria das assinaturas dos 53 deputados da legenda. Embora tenha conseguido 27 assinaturas, a rubrica da deputada Bia Kicis (DF) não conferiu.

Assim que apresentaram este requerimento, parlamentares da legenda ligados ao Delegado Waldir e a Luciano Bivar (PE) —  presidente do PSL e outro alvo de troca de farpas com Bolsonaro — também apresentaram um requerimento para retornar o posto a Waldir. No fim, quatro parlamentares assinaram as duas listas e a Secretaria-Geral da Mensa da Câmara manteve Waldir na liderança.

Irritado, Bolsonaro tirou a deputada Joice Hasselmann (SP) da liderança de governo. Ela assinou a lista pela manutenção de Waldir. Até então, Eduardo era o nome do presidente para ocupar o cargo de embaixador do Brasil em Washington. Com a crise no partido, a indicação de Eduardo esfriou.

Desde o início do governo, integrantes do PSL se queixam do relacionamento da legenda com o presidente. No entanto, desde que Bolsonaro disse publicamente que Bivar estava queimado, a crise se acirrou.

Na semana passada, em meio a briga de forças entre as duas alas do partido — uma pró-Bolsonaro e outra, pró-Luciano Bivar — , o PSL havia suspendido cinco parlamentares que eram ligados a Bolsonaro. Com a troca de líder, a suspensão caiu e os deputados voltaram a ter seus direitos restabelecidos dentro da legenda.

Autofagia entre extremistas prossegue

A dissidia autofágica entre extremistas de direita prossegue com novos episódios envolvendo a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), em decorrência da mesma pleitear a presidência do partido em São Paulo, com a finalidade de disputar a prefeitura municipal, em 2020. O espaço político é, também, disputado por Eduardo Bolsonaro, que tem projetos de aliança para PSL de São Paulo.

*Com informações do Estadão, HuffPost e Jornal O Globo.

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