A graça divina de ter conhecido Santa Dulce dos Pobres, o Anjo Bom da Bahia | Por Juarez Duarte Bomfim

Na Bahia de todas as Santas, Inquices, Vodus e Orixás nasceu Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, ordenada como Irmã Dulce — que logo recebeu o epíteto de Anjo Bom da Bahia.

Irmã Dulce e as crianças

Irmã Dulce e as crianças

Passei a minha humilde infância e juventude no proletário bairro do Uruguai (Salvador – Bahia), e a poucos metros da casa paterna, erigiam-se as precárias moradias de palafita dos Alagados, construídas sobre o fétido mangue.

Parte do manguezal dos Alagados logo seria aterrado, e a matéria-prima para o aterro foi o pródigo lixo da Cidade do Salvador, despejado ali.

Os homens caranguejos das famílias depauperadas dos Alagados criavam os seus filhos naquele ambiente dantesco. Na fedentina do lixão, entre ratos e baratas.

E a doença, fome e miséria no lugar era tanta que, diariamente, da porta do pequeno comércio de secos e molhados do meu pai, seu Vavá — situado na Rua da Esperança — assistíamos o cortejo de “enterro de anjos”. Isto é, meninas e adolescentes passavam carregando suas crianças natimortas, dentro de caixas de sapato, para serem entregues ao SANDU — sistema de saúde pública da época – e assim lhes ser dado alguma destinação.

“Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia

Traz do sonho pro mundo quem já não o queria

Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia

E a cidade que tem braços abertos num cartão postal

com os punhos fechados da vida real

lhes nega oportunidades, mostra a face dura do mal

 

“Alagados, Trenchtown, Favela da Maré

A esperança não vem do mar, nem das antenas de TV

A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê.”

(Paralamas do Sucesso)

Alagados dos homens caranguejos

À época, anos 1960-70, um estranho fenômeno deixou felizes os moradores do Alagados, aterrado pelo lixão. Os favelados passaram a cozinhar o pouco arroz e feijão que conseguiam, com o gás que, magicamente, exalava do chão de suas casas. Não precisariam mais comprar o caríssimo gás de cozinha! Tocavam fogo no chão e ali mesmo cozinhavam nas suas amassadas panelas. O jornal A TARDE fez as primeiras reportagens sobre o surpreendente acontecimento.

Os pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, após investigação, deram o alarme: o aterro do Alagados como um todo era um “barril de pólvora”, preste a explodir a qualquer hora. O lixo decomposto tornara-se gás metano e o subsolo do bairro aterrado se transformara em uma bolha de gás.

Os governos constituídos criaram então um programa de aterramento do fundo da Enseada dos Tainheiros, na Península Itapagipana, ao constituir a empresa AMESA — Alagados Melhoramentos S.A., o programa teria inclusive caráter de política habitacional. Através de grossos dutos se captava areia da Praia do Bogari, na Ribeira, que era utilizada para o aterramento dos Alagados.

Quando, em visita a Salvador da Bahia, em 1980, o Papa João Paulo II conheceu o bairro popular, e inaugurou a Igreja de Nossa Senhora dos Alagados, na área do aterro — que ficou conhecida como a “Igreja do Papa”.

Foi neste ambiente de sujeira, miséria e fome que a freirinha de nome Irmã Dulce começou a sua missão de caridade e, tijolo por tijolo, edificou o Hospital Santo Antônio e sua vasta obra social.

Bahia de todos os pobres

As ruas do bairro do Uruguai eram compostas de habitação proletária, constituídas por famílias com numerosos filhos. Subnutrição e alto índice de mortalidade infantil era a regra. As altas taxas demográficas, da época, faziam com que o desemprego do pai de família resultasse na carência alimentar de 8, 9 ou mais filhos.

Brinquedos para alegrar a infância humilde? Nem pensar… Imagino que foi daí que surgiu a expressão “o dono da bola”. Aquele menino, “perna de pau”, que não sabia jogar futebol, mas obrigatoriamente tinha de ser escalado, pois era o feliz proprietário daquela desejada prenda.

Salvador era então uma cidade caracterizada pela extrema pobreza urbana. Sociólogos da Universidade Federal da Bahia publicaram um detalhado estudo, que denominaram ‘Bahia de todos os pobres’.

Só no final dos anos 1970 a Capital da Bahia se tornaria uma próspera e dinâmica urbe, com a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari, na região metropolitana. Obviamente o progresso foi excludente e desigual. Afinal, isto é Brasil.

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, Santa Dulce dos Pobres (26.5.1914 -13.3.1992)

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, Santa Dulce dos Pobres (26.5.1914 -13.3.1992)

Irmã Dulce e os seus pobres

Na Bahia de todas as Santas, Inquices, Vodus e Orixás nasceu Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, ordenada como Irmã Dulce — que logo recebeu o epíteto de Anjo Bom da Bahia.

A caridosa freira visitava casa por casa do bairro do Uruguai, atendendo os necessitados. Os casos mais graves de saúde eram encaminhados para o pequeno hospital que ela fundara, com apoio de médicos voluntários e ajuda financeira de comerciantes locais.

Meu pai, seu Vavá, sempre encontrava a freirinha circulando pelo bairro da Calçada, onde se localiza a Estação Ferroviária de Salvador e se concentrava o comércio atacadista itapagipano. Era a estes prósperos comerciantes que Irmã Dulce pedia auxilio, para socorrer “os seus pobres”.

Seu Vavá tinha uma enorme admiração por Irmã Dulce — aliás, a freirinha era uma unanimidade na Bahia. Homem de poucas letras, seu Vavá tinha apenas o “curso primário” completo, porém, cultivava o hábito de leitura diária do ‘Jornal da Bahia’, do qual era assinante. Herdei este costume dele, e daí surgiu o meu amor pela letra impressa.

Seu Vavá também assinava a famosa Readers Digest, que enviara repórteres a provinciana Cidade do Salvador e publicou uma edição da revista com matéria de capa, intitulada “o Anjo Bom da Bahia”. E essa expressão se popularizou.

Com o crescimento das obras sociais de Irmã Dulce, a burguesia financeira baiana passou também a contribuir. Havia apoio da mídia e muita visibilidade nos eventos de massa, como nos concorridos jogos de futebol no Estádio da Fonte Nova.

Suas obras sociais só se tornaram, de fato, perenes, quando foram assinados convênios com o Poder Público. Buscava-se também autossustentabilidade, mesmo que parcial, nas atividades e projetos de empreendedorismo.

Irmã Dulce e sua sanfona

Irmã Dulce e sua sanfona

De como conheci a Santa da Bahia e recebi o seu darshan

Era comum aos moradores do bairro do Uruguai ver e se relacionar com a freirinha passeando por suas ruas, sem calçamento e esgoto a céu aberto. A pé ou na sua velha Kombi, Irmã Dulce estava sempre presente, auxiliando os necessitados.

Por 2 situações a Santa da Bahia adentrava a nossa casa paterna, e tivemos a suprema honra de, em algumas oportunidades, a caridosa freira sentar no humilde sofá da sala da modesta mansarda.

A primeira situação era de que, uma das voluntárias que acompanhava Irmã Dulce em sua obra de caridade era a preta velha Bete, ou dona Bete, de profissão lavadeira de roupa, que prestava serviços à nossa mãe, dona Dalva. As máquinas de lavar roupa era então um objeto raro, só acessível a elite do bairro da Graça.

Por volta das 14 horas, a freirinha passava lá em casa para buscar Bete na sua Kombi. Nesses momentos, tínhamos a graça de receber o seu darshandarshan, em sânscrito, significa “visão divina”, quando se recebe a bênção de um ser superior apenas estando na sua presença. Essa visão é tão poderosa que purifica o pecador e queima parcialmente os seus pecados, acelerando o seu processo de evolução cármica.

A outra oportunidade que Irmã Dulce sentava no nosso puído sofá, era quando ela vinha em procura do Maestro Pedro Torres, nosso vizinho, que comandava uma escola de música para meninos carentes, em sua humilde casa, e criara a ‘Bandinha do Maestro Pedro Torres’, ou ‘Bandinha do Pedroca’, de metais e percussão — que se apresentava nos eventos de caridade promovidos por Irmã Dulce. Esperando Pedro Torres chegar para a audiência e reunião de trabalho, era na nossa casa que a freirinha se abrigava, brevemente.

A enfermidade de Irmã Dulce e a festa da Lavagem do Bomfim

Foi longa a enfermidade de Irmã Dulce, internada no próprio hospital que fundou. 16 meses acamada. O tempo de 2 festas da Lavagem do Bomfim.

Uma tocante cena marcou definitivamente o carinho e o respeito dos baianos para com o Anjo Bom da Bahia. Foi na festa da Lavagem do Bomfim. Repetindo: por 2 vezes!

Na terceira quinta-feira do mês de janeiro, em pleno verão da Bahia, o cortejo sacro-profano sai das portas da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e peregrina por 8 quilômetros até o átrio da Igreja do Senhor do Bomfim. Quem tem fé vai a pé.

Quanto mais percorre as ruas da Bahia e se aproxima do Largo de Roma e Rua dos Dendezeiros, a temperatura da alegre “fuzarca” vai ao máximo, com aquela alegria e musicalidade que só se vê na Bahia. As meninas dançam.

Respeitosamente, quando o cortejo se aproximava do Largo de Roma e próximo ao quarto de hospital onde a querida Irmã Dulce da Bahia se encontrava acamada, silenciaram os clarins e tambores; contritos e em zeloso silêncio, os baianos caminhavam por aquela via pública, sacralizada pela intensa devoção dos fiéis. Emociona lembrar de tal momento.

Ao se afastar do ambiente hospitalar, a “muvuca” (efusiva festa) era retomada, do ponto em que parou…

Irmã Dulce e o Papa Jão Paulo II, em Salvador, 1980

Irmã Dulce e o Papa Jão Paulo II, em Salvador, 1980

Irmã Dulce e o Papa João Paulo II

Quando em visita pela segunda vez a Salvador da Bahia, em 1991, é neste recinto que o Papa João Paulo II se despede, em vida de matéria, da caridosa santinha, em seu leito de morte.

Que energia balsâmica se derramava naquele momento, naquele lugar!

Irmã Dulce e o Papa João Paulo II em Salvador, 1991

Irmã Dulce e o Papa João Paulo II em Salvador, 1991

A Igreja da Imaculada Conceição da Mãe de Deus

O antigo Cine Roma da minha infância, no Largo de Roma, foi restaurado para se tornar a Igreja da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, belo e espaçoso santuário que tem a honra e o privilégio de abrigar o mausoléu do Anjo Bom da Bahia e do Brasil: a Santa Dulce dos Pobres.

Lugar sagrado, local de orações e rogos pela intercessão da caridosa freira aos deserdados filhos de Eva que aqui permanecem, gemendo e chorando no vale de lágrimas que é este mundo Terra.

Ao lado do templo encontra-se o ‘Memorial Irmã Dulce’, com relíquias da santinha dos baianos e, neste lugar especial e meditativo, acha-se a cela (quarto) que era escritório e dormitório da amável freirinha.

Atualmente a cela de Santa Dulce dos Pobres é uma representação museológica, e ao lado do gabinete e do divã rústico no qual ela dormia, há uma caminha.

Porém, é dito que Irmã Dulce não tinha cama, até porque sua doença respiratória impedia que ela se deitasse.

Quando pessoas abastadas a visitavam, e constatavam a ausência de cama, gentilmente lhe perguntavam:

— Irmã, a senhora não tem cama… posso lhe doar uma cama?

— Sim senhor(a). Eu aceito.

Quando a cama de doação era entregue, prontamente ela destinava ao Hospital Santo Antônio, que ganhava mais um leito.

Causos semelhantes são narrados da vida do Senhor São Francisco de Assis, aquele que desposou a irmã pobreza. Ele vestia andrajos. Assim era a sua túnica: velha e puída.

Os amigos de Pai Francisco, ao vê-lo vestido assim, pediam permissão para ofertar-lhes uma nova túnica. Todavia, o novo vestuário não demorava em seu corpo, pois ele logo o trocava com as paupérrimas roupas de algum necessitado, sofrendo com o rigor do inverno italiano.

Depoimento do escritor Paulo Coelho, em gratidão a Irmã Dulce

“Eu estava literalmente passando fome há dias, doente, perdido em Salvador. Tinha fugido de um sanatório psiquiátrico onde fora internado por meus pais – não porque me queriam fazer mal, mas porque estavam desesperados para controlar o filho ‘rebelde’.

“Vaguei sem rumo pelas ruas da cidade, que me era completamente estranha, sem um centavo no bolso, até que alguém me disse que havia uma freira que poderia me ajudar — eu já corria o risco de ser preso por vagabundagem.

“Fui a pé até a casa da freira. Juntei-me às muitas pessoas que estavam ali em busca de socorro, chegou minha vez, e de repente estava frente a frente com ela. Perguntou o que eu queria – e a resposta foi simples: ‘Não aguento mais, quero voltar para casa e não tenho como’. Ela não fez mais perguntas (O que está fazendo aqui? Onde estão seus pais? Etc.). Eu não comentei que tinha fugido do hospício e que corria o risco de voltar pra lá.

“Ela pegou um papel em sua mesa, escreveu ‘Vale um bilhete de ônibus até o Rio’, assinou, e pediu que fosse à rodoviária com ele e mostrasse a qualquer motorista. Achei uma loucura, mas resolvi arriscar. O primeiro motorista que leu o que estava escrito no papel mandou que eu embarcasse. Isso era o poder daquela freira: uma autoridade moral que ninguém ousava desafiar.

“É com lágrimas nos olhos que escrevo essas linhas. Obrigado, Irmã Dulce, por seus dois milagres: matar a fome de alguém e permitir a volta do filho pródigo” (Paulo Coelho).

Gratidão dos baianos a Irmã Dulce

Todos baianos humildes, da minha geração, têm gratidão àquela Santa e sua bondade. Principalmente os habitantes da Cidade Baixa de Salvador.

Este que vos escreve foi por algumas vezes atendido por médicos e acadêmicos do Hospital Santo Antônio. Esses estudantes que estagiavam ali também desenvolviam a prática de auxílio ao próximo, aos mais necessitados. A saudosa Tia Júlia foi muito bem tratada de suas enfermidades crônicas de chagástica, por sua origem pobre em São Filipe – Bahia, região endêmica daquela terrível doença. Agradecida, Tia Júlia depunha elogiosamente sobre os cuidados recebidos pela gentil equipe do Hospital Santo Antônio. E assim foram muitos. Milhares, quiçá milhões de baianos e brasileiros que receberam a graça e a caridade de Santa Dulce dos Pobres.

Muito mais se pode falar da vida e obra de Irmã Dulce, a serva de Deus que viveu para a caridade e o amor ao próximo. Aclamada santa pelo amor e reconhecimento dos baianos, neste 13 de outubro do ano da graça de 2019 será oficialmente canonizada pelo Papa Francisco, um sacerdote que segue os mesmos passos do Pobrezinho de Assis, o Senhor São Francisco, que dedicou e consagrou a sua vida a imitar a Missão do Nosso Senhor Jesus Cristo aqui no mundo Terra. Assim também o fez o Anjo Bom da Bahia.

Viva Santa Dulce dos Pobres!

Assista Irmã Dulce, o Filme:

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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Perfil do Autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]