A Feira de Santana de cabeça para baixo | Por Jhonatas Monteiro

Vista aérea da Praça Jackson do Amauri em Feira de Santana.

Vista aérea da Praça Jackson do Amauri em Feira de Santana.

Quantos municípios no Brasil têm “feira” no próprio nome? Contando inclusive nossa vizinha Conceição da Feira, são sete em todo o país. Não custa reforçar: apenas sete em meio a 5570 municípios. Apesar disso, a discussão pública dominante em Feira de Santana ignora aquilo que é um traço fundamental da identidade feirense. O município, especialmente a própria cidade, tem sua história entrelaçada ao comércio de rua. Para quem desconhece isso, recomendo uma boa olhada nas fotos que retratam a grande Feira Livre. Ferida de morte em 1977, a Feira Livre ocupava um bom pedaço das avenidas Senhor dos Passos e Getúlio Vargas. Porém, não é necessário estudar o passado para perceber que a Feira continuou resistindo e ganhou outras formas pelas ruas. Basta uma volta atenta pelo Centro da cidade, onde feirantes, camelôs e ambulantes continuam sua labuta – Cenário hoje alimentado pelo violento desemprego que aflige quase 13 milhões de pessoas no país.

Por outro lado, o que se vê é uma obsessão em negar, criminalizar e acabar com essa cultura de comércio de rua que é marca própria da vida feirense. A extinção da Feira Livre histórica foi um marco disso e, não à toa, os discursos usados na época para justificar esse absurdo continuam circulando. Vez por outra, alguém da mídia, representante do empresariado comercial ou da elite política local aparece com o discurso que o Centro está uma “bagunça”, está “favelizado” ou precisa de uma “limpeza”. Em geral, essa conversa fiada serve principalmente a dois interesses.

Em primeiro, promover soluções projetadas para garantir o lucro de um punhado. O exemplo mais recente: o impropriamente chamado “Shopping Popular”. É um negócio da China: 13 milhões reais do dinheiro público, terreno público bem localizado e de graça, destruição de uma parte e abandono do restante do Centro de Abastecimento, contratos suspeitos, imposição de desvantagens econômicas às vítimas do esquema e outras jogadas.

Em segundo lugar, esses argumentos tentam justificar a expulsão dos trabalhadores e trabalhadoras que ganham a vida com o comércio de rua. Ali adiante, graças ao dito Shopping, o grupo político na Prefeitura dirá que “não há mais razão para feirantes, camelôs e ambulantes ficarem nas ruas já que têm seu espaço agora”! Afinal, pouco importa que as 1800 vagas do Shopping nem cheguem perto das milhares de pessoas que vivem do comércio de rua nas áreas centrais de Feira. Para entender o plano em andamento, vale atenção ao recente reforço no “rapa” promovido pelo prefeito.

Mesmo que o tal Shopping fosse fruto de boas intenções, o que não é o caso, ainda assim seria equivocado. O projeto parte da velha ideia de retirar e concentrar o comércio de rua em um prédio – O que em Feira, além de tudo, é como tapar o Sol com a peneira. Isso é governar de costas para a realidade do município. É ver Feira de Santana de cabeça para baixo. É possível algo diferente? Sem dúvida, mas só se para começar o comércio de rua for reconhecido legalmente como patrimônio cultural municipal. Ao invés de repressão, zelo e garantia de espaço no planejamento do município. Uma oportunidade para essa luta se aproxima: o governo municipal anunciou 130 milhões de reais para uma tal “requalificação do Centro Comercial”, envolvendo 800 mil metros quadrados no Centro da cidade. Resta saber: essa “requalificação” se trata de novo negócio de compadres, como o “Shopping Popular”, ou o povo que batalha nas ruas de Feira terá voz e vez? Feirantes, camelôs e ambulantes terão espaço?

* Jhonatas Lima Monteiro (Rasta), liderança política do PSOL de Feira de Santana.

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