Procurador da República Deltan Dallagnol sugeriu que Sérgio Moro protegeria Flávio Bolsonaro; Novas revelações indicam provável extensão da ORCRIM

Evidente conluio entre MPF em Curitiba e Sergio Moro também inclui proteção a certamente envolvidos em corrupção, como Flavio Bolsonaro.

Evidente conluio entre MPF em Curitiba e Sergio Moro também inclui proteção a certamente envolvidos em corrupção, como Flavio Bolsonaro. Novas conversas reveladas pelo “Intercept” revelam que, apesar da certeza do esquema de corrupção envolvendo o filho do presidente, procuradores sabiam que o agora ministro estava interessado mesmo em não perder indicação ao STF.

Em nova reportagem da séria Vaza Jato, publicada pelo The Intercept Brasil, o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da operação Lava Jato, concorda com avaliação de colegas do Ministério Público Federal (MPF) em Curitiba de que o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), mantinha um esquema de corrupção em seu gabinete quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro. Dallagnol, porém, afirma que o então juiz Sergio Moro não prosseguiria com a investigação. Primeiro, por pressões políticas do então recém eleito presidente Jair Bolsonaro e pelo desejo de Moro de ser indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF).

“É óbvio o q aconteceu… E agora, José?”, digitou o procurador, ao pedir a opinião dos colegas sobre os desdobramentos de uma reportagem publicada no dia 8 de dezembro de 2018, sobre um depósito de R$ 24 mil feito pelo ex-assessor de Flavio, Fabrício Queiroz, numa conta em nome da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Dallagnol queria saber dos demais procuradores que avaliação faziam sobre como seria a reação de Moro.. “Seja como for, presidente não vai afastar o filho. E se isso tudo acontecer antes de aparecer vaga no supremo?”, escreveu. Ele mesmo acrescenta em seguida, falando sobre Jair Bolsonaro: “Agora, o quanto ele vai bancar a pauta Moro Anticorrupcao se o filho dele vai sentir a pauta na pele?”

Segundo os procuradores, o esquema operado pelo assessor Queiroz seria similar a outros escândalos em que deputados estaduais foram acusados de empregar funcionários fantasmas e recolher parte do salário como contrapartida.

Dallagnol diz ainda que Flávio “certamente” seria implicado no esquema. No entanto, até hoje, como ele mesmo presumia, não há indícios de que Moro, que na época das conversas já havia deixado a 13ª Vara Federal de Curitiba e aceitado o convite de Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça, tenha tomado qualquer medida para investigar o esquema de funcionários fantasmas que o filho do presidente é acusado de manter e suas ligações com poderosas milícias do Rio de Janeiro.

Não há indícios de que Moro tenha tomado qualquer medida para investigar o esquema de funcionários fantasmas que Flavio é acusado de manter e suas ligações com poderosas milícias do Rio

Além de ter, como se diz entre jornalistas, esfriado, o escândalo envolvendo Flávio, que dominou as manchetes nos primeiros dias do novo governo, desapareceu da mídia nos últimos meses. Moro tampouco dá sinais de que está interessado em investigar com seriedade o caso. Nas poucas vezes em que respondeu a questionamentos sobre a situação do filho do presidente, ele repetiu que “não há nada conclusivo sobre o caso Queiroz” e que o governo não pretende interferir no trabalho dos promotores.

Entretanto, o caso voltou aos noticiários na segunda-feira, 15 de julho, quando o presidente do STF, Dias Toffoli, atendeu ao pedido de Flávio Bolsonaro e suspendeu as investigações iniciadas sem aprovação judicial envolvendo o uso dos dados do Coaf, órgão do Ministério da Economia que monitora transações financeiras para prevenir crimes de lavagem de dinheiro.

No mesmo dia que o grupo conversou sobre o caso Queiroz, Dallagnol conversou com Roberson Pozzobon, também procurador na operação Lava Jato, em um chat privado. Eles aprofundaram a preocupação com entrevistas nas quais a situação de Flávio Bolsonaro poderia ser abordada.

Ao contrário de sua usual ânsia em falar publicamente sobre outros casos de corrupção, Deltan deu a entender que estava relutante em fazer uma condenação mais severa de Flávio por temer as consequências políticas de desagradar o presidente – exatamente como sugeriu que Moro pudesse agir.

Depois de sugerir diferentes declarações que poderiam dar sobre o caso de Flávio, Dallagnol concluiu: “Só pode ser lido como chapa branca”. Pozzobon concordou e deu o seu veredito: “O silêncio no caso acho que é mais eloquente”.

Um mês e meio depois, em janeiro passado, no mesmo grupo, Dallagnol disse ter sido convidado pelo Fantástico, da rede Globo, para uma entrevista sobre foro privilegiado . O procurador estava ansioso para falar do caso que a produção do programa indicou ser o tema da matéria: denúncias envolvendo o deputado federal Paulo Pimenta, do PT.

No entanto, ele mostra temor em aceitar o convite por receio de que tivesse que falar também das tentativas de Flávio Bolsonaro de usar o foro privilegiado para barrar as investigações, mesmo que o caso tenha ocorrido quando ainda era deputado estadual, antes de sua posse como senador. Para o procurador, o risco de ter de tratar do assunto poderia contrariar Moro e Bolsonaro, o que reduzia, na sua avaliação, os benefícios da oportunidade. ‘Acho q não é uma boa; além da bola dividida Flávio Bolsonaro’ e “Eu não vejo que tenhamos nada a ganhar porque a questão do foro já tá definida.”, escreveu. Os colegas da Lava Jato concordaram que a melhor opção era rejeitar o convite do Fantástico (a emissora preferiu não comentar o assunto).

*Com informações do The Intercept Brasil e RBA.

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).