Em Carta ao Leitor, Revista Veja afirma que “Sergio Moro exorbitava de suas funções de juiz, comandando as ações dos procuradores na Lava Jato”

Capas da Revista Veja, referentes a cobertura jornalística do Caso Lava Jato. “Nos últimos cinco anos, foram publicadas 68 capas e centenas de reportagens sobre o assunto nas versões impressa e digital”, informa Veja.

Tratado como herói pela Revista Veja, o ex-juiz Sergio Moro foi capa da publicação em diversas oportunidades, a maioria favorável. “Embora ele tenha sido fundamental na luta contra a corrupção, não se pode fechar os olhos ante as irregularidades cometidas”, diz Revista Veja.

Em Carta ao Leitor, com título ‘Sobre princípios e valores’, publicada na edição nº 2.642, desta sexta-feira (05/07/2019), a Revista Veja diz que a reportagem, resultado da parceria com o The Intercept Brasil, “revela de forma cabal como Sergio Moro exorbitava de suas funções de juiz, comandando as ações dos procuradores na Lava Jato”.

O editorial de Veja alerta para a arbitrariedade identificada na atuação de Sérgio Moro, afirmando que “um dia, o justiceiro bate à porta e, sem direito a uma defesa justa, a pessoa é sumariamente condenada”.

A Carta ao Leitor é parte da publicação impressa da Revista Veja desta sexta-feira (05), cuja reportagem de capa recebe o título ‘Justiça com as próprias mãos: diálogos demostram que Sérgio Moro cometeu irregularidades desequilibrando a balança da Justiça em favor da acusação nos processos da Lava Jato’.

As matérias, reunidas na edição 2.642, revelam novos aspectos do evidente conluio estabelecido entre o, à época, juiz Sérgio Moro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo Bolsonaro, e o procurador da República Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa do Caso Lava Jato, em conjunto com outros membros do Ministério Público Federal (MPF), no processamento e julgamento de ações judicias do Caso Lava Jato, no âmbito da 13º Vara Federal de Curitiba.

Confira o editorial da Revista Veja, na Carta ao Leitor

‘Sobre princípios e valores: ao contrário daqueles que fomentam o ódio ou se aproveitam dele, os compromissos de VEJA não são com pessoas ou partidos’

Nesta edição que chega a você, leitor, VEJA publica uma reportagem em parceria com o site The Intercept Brasil. O texto utiliza como matéria-prima o conjunto de diálogos repassados por uma fonte anônima ao jornalista Glenn Greenwald, editor do Intercept, e revela de forma cabal como Sergio Moro exorbitava de suas funções de juiz, comandando as ações dos procuradores na Lava Jato.

Durante duas semanas, oito jornalistas, cinco de VEJA e três do site, selecionaram os diálogos e checaram — em processos judiciais e com entrevistas — as informações que constavam neles. Pela leitura do material, fica evidente que as ordens do então juiz eram cumpridas à risca pelo Ministério Público e que ele se comportava como parte da equipe de investigação, uma espécie de técnico do time — não como um magistrado imparcial. Alguns dos exemplos de irregularidades: Moro apontava abertamente aos procuradores as delações de sua preferência, alertava sobre a falta de provas nas denúncias e chegava a receber material dos procuradores para embasar suas decisões.

VEJA sempre foi — e continua — a favor da Lava Jato. A luta contra a corrupção tem sido um dos pilares da nossa história. Mas os diálogos que publicamos nesta edição violam o devido processo legal, pedra fundamental do estado de direito — que, por sinal, é mais frágil do que se presume, ainda mais na nossa jovem democracia. Jamais seremos condescendentes quando as fronteiras legais forem rompidas (mesmo no combate ao crime). Caso contrário, também seríamos a favor de esquadrões da morte e justiceiros. Há quem aplauda e defenda esse tipo de comportamento, reação até compreensível no cidadão comum, cansado de tantos desvios éticos. Mas como veículo de mídia responsável não podemos apoiar posturas como essa. Um dia, o justiceiro bate à porta e, sem direito a uma defesa justa, a pessoa é sumariamente condenada. Na Lava Jato ou nas operações que virão no futuro, é fundamental que a batalha contra a corrupção seja feita de acordo com o que diz o regime constitucional. Essa é a defesa de todos os brasileiros contra os exageros do Estado.

É importante ressaltar que a reportagem desta edição não tem nada a ver com Lula Livre ou com levantar uma bandeira da esquerda. VEJA não faz parte dessa polarização que tanto empobrece a discussão política no país. Nosso objetivo é justamente buscar o equilíbrio, a razão, elevar o nível do debate. Quem acha que estamos contra Sergio Moro também erra. Poucos veículos de mídia celebraram tanto o trabalho do ex-juiz na luta contra a corrupção (veja as capas acima). Mas, ao contrário daqueles que fomentam o ódio ou se aproveitam dele, nossos compromissos não são com pessoas ou partidos. São com princípios e valores. Fomos implacáveis com os crimes cometidos por Lula e pelo PT, dedicando dezenas de capas ao assunto. No momento em que seu algoz cruzou a linha, não vamos fingir que não vimos. Essa postura é parte da nossa missão: fiscalizar e apurar todos os poderes e seus representantes. Afinal, ninguém tem salvo-conduto ou está acima da lei.

A reportagem desta edição é a primeira em parceria com o The Intercept Brasil. Comandados pelo redator-chefe Sérgio Ruiz Luz, nossos repórteres continuam vasculhando a enorme quantidade de diálogos e áudios trocados entre procuradores e o juiz Sergio Moro. Assim como a Folha de S.Paulo, também parceira do site, analisamos dezenas de mensagens trocadas ao longo dos anos entre membros do nosso time e os procuradores. Todas as comunicações são verdadeiras — palavra por palavra (o que revela fortíssimos indícios de veracidade do conjunto). Caso esta equipe depare com outras irregularidades no decorrer do processo de apuração, novas reportagens sobre o tema serão publicadas.

Confira síntese da reportagem produzida pelo UOL

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).