A democracia é como as estrelas no céu: faz falta quando desaparece | Por Josias Gomes

Josias Gomes (PT-BA), secretário de Desenvolvimento Rural  da Bahia e deputado federal licenciado.

Josias Gomes (PT-BA), secretário de Desenvolvimento Rural  da Bahia e deputado federal licenciado.

A democracia é como as estrelas no céu: faz falta quando desaparece. O problema é que, quando nuvens obscuras sequestram o direito do povo exercer o poder, nunca sabemos por quanto tempo a escuridão pode durar.

O documentário ‘Democracia em Vertigem’, que estreou na Netflix neste mês, é narrado com um olhar quase que autobiográfico da diretora mineira Petra Costa porque tem raízes hereditárias.

No tempo da maldade, a cineasta nem era nascida, mas a triste memória nos lembra que o país, os seus pais e muitos outros companheiros e companheiras foram torturados pela ditadura militar. A fatura já parecia ter sido paga. Lembrando a sua própria idade (35 anos) e a atual situação da democracia brasileira, a cineasta indaga: “Não deveríamos estar pisando em terra firme com 30 e poucos anos?”

Esta é a riqueza do documentário. Mesmo tendo como tema principal a narrativa do Golpe de 2016 e as virtudes em vertigens da nossa frágil democracia, faz um apanhado histórico da luta dos brasileiros na ditadura militar até os dias atuais em que o Brasil está mergulhado em incertezas profundas.

Resgatar a memória do passado autoritário e ditatorial brasileiro é de fundamental importância para se entender a conjuntura que estamos vivendo.

Boa parte da população brasileira não conhece a própria história do país. Uma prova disso são as recorrentes quedas nas armadilhas plantadas pela elite, que desde a segunda guerra mundial conta com o suporte dos EUA para afundar qualquer vestígio de democracia, no sentido literal da palavra.

Historicamente, todas as vezes que o Brasil respira ares de governos progressistas e causas sociais, a guilhotina burguesa recai sob nossas cabeças. No documentário, Petra Costa mostra este recorte desde Getúlio Vargas e João Goulart até os governos de Lula e Dilma.

Outro gol de letra marcado pela cineasta é denunciar que no Brasil toda ditadura é civil-militar. O Exército entra com a força, o medo, a opressão e o terror; as oligarquias, formadas por banqueiros, oligopólio de comunicação, industrias, construtoras, latifundiários e parte da classe média vassala validam o discurso pseudomoralista, ‘patriótico” e de anticorrupção, financiando economicamente a barbárie.

Os desavisados ou tendenciosos se inclinam a dizer que o filme é uma defesa da esquerda e possui cunho “ideológico”. Pura falácia de quem sente vertigem ao se deparar com a verdade. Petra Costa é imparcial na sua crítica.

Quando se trata do PT, ela faz “autocritica” como eleitora e é contundente em apontar decepções, erros estratégicos em alianças danosas para o partido como a que foi feita entre Dilma e o vampiro Temer. O próprio Lula confessa um forte arrependimento de não ter feito a reforma dos meios de comunicação, atores decisivos em todos os golpes de Estado no país. Dirigentes e militantes do PT lamentam não terem feito a reforma política.

O nome do documentário, Democracia em Vertigem, é significativo. Vivíamos o auge da democracia brasileira, um momento de ouro da classe trabalhadora e de empresários, o país com lucros recordes, além de muita força política. Por outro lado, perdemos chances imprescindíveis de mudar alguns paradigmas reacionários que são responsáveis diretos pela fragilização democrática. Lamentavelmente, não logramos realizar. Ficaram os inesquecíveis aprendizados.

Personagens como Aécio Neves, Michel Temer, Eduardo Cunha, deputados e senadores que venderam a democracia e jogaram o país nas garras do Bozo, não merecem neste texto uma linha de desprezo, já que foram desmascarados no documentário. Eles são comprovadamente políticos corruptos e golpistas.

Quanto a Sérgio Moro e seus procuradores, apesar de o documentário mostrar que o prêmio ao falso juiz por cometer tanta injustiça foi se tornar ministro da Justiça, não avançou em mais informações porque foi finalizado antes do escândalo da #VazaJato. O mundo merecia saber que aquela farsa e endeusamento a Sérgio Moro e Lava Jato não passou de mais um veneno seletivo e golpista no Brasil.

Em nossa visão, precisaríamos de um segundo documentário para mostrar mais verdades que foram magistralmente expostas pelo Intercept na matéria #VazaJato. Quem sabe, o cinema brasileiro começaria, ainda que tardiamente, a sua obra com o mesmo significado de A Batalha do Chile.

Seremos sempre aguerridos defensores da democracia. Ainda que nos custe a própria liberdade e até mesmo a vida. Temos orgulho de ter participado ativamente do processo de redemocratização do Brasil, desde os anos de chumbo até os dias atuais.

Estamos nos solidarizando com cada brasileiro e brasileira que está sofrendo as consequências deste golpe asqueroso. Mantemos todo nosso apoio ao presidente Lula, alvo principal desta perseguição implacável.

À presidenta Dilma queremos deixar neste texto a sua fala de desabafo final depois de ser injustamente afastada da presidência. Na ocasião, seguiu de cabeça erguida e respondeu com versos de Maiakovski:

“Não estamos alegres, é certo.

Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado.

As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las. ”

*Josias Gomes (PT-BA), secretário de Desenvolvimento Rural  da Bahia e deputado federal licenciado.

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).