Reportagem da Revista Época aborda ‘O cabide de empregos criado pelos Bolsonaros nos últimos 20 anos’

Revista Época apresenta ampla reportagem sobre ''O cabide de empregos criado pelos Bolsonaros nos últimos 20 anos'.

Revista Época apresenta ampla reportagem sobre ”O cabide de empregos criado pelos Bolsonaros nos últimos 20 anos’.

Reportagem da Revista Época produzida por Juliana Dal Piva e Juliana Castro, com apoio de com Rayanderson Guerra, veiculada nesta quinta-feira (20/06/2019), aborda ‘O cabide de empregos criado pelos Bolsonaros nos últimos 20 anos’.

A matéria apresenta síntese da investigação judicial promovida pelo Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro (MPRJ) e investigação jornalistica produzida pela equipe da Revista Época, em que são abordos possíveis ilícitos promovidos pela família do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ), ao ocuparem cargos parlamentares.

Dentre os possíveis ilícitos levantados está o uso da nomeação de servidores em cargos comissionados, com a finalidade de reter parte ou a totalidade dos salários recebidos. Neste tipo de operação ilícita os servidores são denominados ‘laranjas’, e a substração do recurso público ‘rachadinha’.

Confira trecho da reportagem ‘O cabide de empregos criado pelos Bolsonaros nos últimos 20 anos’

Desde que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro quebrou o sigilo fiscal e bancário de 86 pessoas, entre elas assessores de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) no período em que ele ocupava uma vaga na Assembleia Legislativa fluminense, a advogada Ana Cristina Siqueira Valle, de 52 anos, vê impotente e calada a investigação avançar sobre nove de seus familiares incluídos nesse grupo . O Ministério Público apura se os funcionários devolviam parte de seus salários ou seu valor integral para os parlamentares, a chamada “rachadinha”, uma suspeita que surgiu depois de constatada a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, o ex-chefe de segurança do hoje senador .

Ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro, Ana Cristina Valle conheceu o então deputado federal em Brasília, no início dos anos 90, quando ambos participavam de uma manifestação de mulheres de militares que pediam aumento nos salários da caserna. Tempos depois se envolveram e, em 1998, passaram a viver juntos, o que durou uma década. Desde o ano em que Ana Cristina Valle e Bolsonaro se tornaram marido e mulher, os parentes dela começaram a aparecer nas listas de funcionários do gabinete do deputado federal — então o único da família com mandato. Ao todo, seis familiares de Ana Cristina Valle foram nomeados por Bolsonaro para seu gabinete até 2008. A lista inclui seus ex-sogros (José Procópio Valle e Henriqueta Siqueira Valle), dois irmãos (Andrea Siqueira Valle e André Siqueira Valle) e dois primos (André Siqueira Hudson e Juliana Siqueira Vargas).

A partir de 2003, Flávio Bolsonaro assumiu mandato na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e também preencheu as vagas de seus assessores com nove familiares da madrasta.José Procópio Valle, Juliana Siqueira Vargas e Andrea Siqueira Valle deixaram formalmente seus cargos na Câmara dos Deputados e passaram a surgir nas listas de funcionários da Alerj. Também integravam o grupo de nomeados, até o ano passado, os primos Francisco Diniz e Daniela Gomes e os tios Guilherme dos Santos Hudson, Ana Maria Siqueira Hudson, Maria José de Siqueira e Silva e Marina Siqueira Diniz.

O que não se sabia até agora é que Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), o vereador mais jovem a ser eleito na história do Rio, foi igualmente generoso com a madrasta e sua família na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Eleito aos 17 anos, Carlos — ou 02, como o presidente Jair Bolsonaro costuma chamá-lo — transformou Ana Cristina Valle em assessora-chefe de seu gabinete em 2001. Ela trouxe consigo outros sete familiares para as listas de assessores no Palácio Pedro Ernesto, sede do Legislativo carioca. Assim, ao todo, nos três gabinetes do clã Bolsonaro, 17 parentes de Ana Cristina Valle, além de ela própria, ganharam cargos comissionados nos últimos 20 anos. ÉPOCA constatou, porém, que alguns deles jamais moraram no Rio ou pisaram no prédio histórico onde trabalham os vereadores, localizado na Cinelândia.

Carlos Bolsonaro conquistou uma cadeira no Legislativo carioca em 2000, disputando uma vaga contra a própria mãe, Rogéria Braga, então vereadora e em busca da reeleição. Mais do que a corrida eleitoral, a disputa simbolizava o racha entre os pais, após a separação e a união de Bolsonaro com Ana Cristina Valle. Uma vez eleito para a Câmara Municipal, um neófito na política, Carlos amparou-se na experiência que a madrasta tinha em assessoria legislativa e deu a ela o cargo principal — chefe de gabinete —, com um contracheque que, atualizado pela inflação, agora alcança o equivalente a R$ 22.900, entre o salário bruto e os penduricalhos pagos, como dedicação legislativa, auxílio-alimentação, transporte, entre outros. Lá, ela reinou até sua separação de Jair Bolsonaro, em 2008. Além do parentesco com Ana Cristina Valle, o grupo lotado na Câmara Municipal tem em comum com os assessores de Flávio Bolsonaro enormes dificuldades para provar que, de fato, trabalhavam no cargo enquanto mantinham outras atividades profissionais em cidades distantes dos gabinetes.

A movimentada praça da Cinelândia, onde fica o Palácio Pedro Ernesto, fica a 185 quilômetros de uma pacata ladeira do bairro Paineiras, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Essa era a distância que Marta da Silva Valle, em teoria, teria de percorrer entre sua casa e o trabalho — se ela realmente desse expediente no local para o qual foi nomeada. Isso nunca aconteceu.

Hoje com 45 anos, Marta Valle é professora de educação infantil e cunhada de Ana Cristina Valle. Passou sete anos e quatro meses lotada no gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara dos Vereadores do Rio, mesmo morando em outro estado e tendo de, em teoria, percorrer o trajeto em duas horas e meia. À época em que foi nomeada, em 1º de novembro de 2001, tinha uma filha de 1 ano e 5 meses, o que também dificultaria percorrer tamanha distância todos os dias. Mas, como ela própria admite, nunca trabalhou na Câmara de Vereadores.

ÉPOCA esteve em Juiz de Fora na semana passada. Passava pouco das 18 horas da segunda-feira 10 e a noite acabara de cair quando a reportagem abordou Marta Valle saindo do trabalho, em uma escola infantil perto de sua casa. Vestia uma camisa branca, com um casaco cinza sobreposto e calças jeans justas com as barras dobradas, tendência de moda recente. No antebraço, carregava uma bolsa preta.

Ao lado de uma amiga, caminhava tranquilamente quando foi questionada pela reportagem sobre seu trabalho para a família Bolsonaro e, de pronto, refutou. “Não trabalhei em nenhum gabinete, não. Minha família lá que trabalhou, mas eu não”, disse ela, em forte sotaque mineiro.

Quando foi advertida de que, sim, havia sido lotada, ela enfatizou a negativa: “Não fui eu, não. A família de meu marido, que é Valle, que trabalhou”. Diante da resposta, a reportagem insistiu, perguntando se ela mesma não havia trabalhado. Pela terceira vez, ela disse que não. Ao lhe ser perguntado se sabia, então, que havia sido nomeada, Marta Valle disparou: “Mas logo em seguida já me tiraram do cargo”.

Não foi bem assim. Os registros nos diários oficiais da Câmara Municipal mostram que Marta Valle só deixou de ser, no papel, funcionária do gabinete de Carlos em 1º de março de 2009. Quando a reportagem contestou e disse que ela foi lotada na Câmara durante anos, Marta Valle apertou o passo, acompanhada de uma colega de trabalho, sem querer falar mais: “Prefiro não fazer nenhum depoimento”, finalizou. Parou na esquina, sacou o celular da bolsa e começou a falar com alguém, como se estivesse contando o que acabara de ocorrer.

Na vizinhança, amigos e conhecidos de Marta Valle esboçavam surpresa ao ser indagados sobre o emprego da professora em terras fluminenses. Ninguém nunca ouvira falar. Ao longo desse tempo, ela sempre morou na cidade mineira com a filha e o marido, Alexandre, irmão da ex-mulher do presidente Bolsonaro.

Nos registros de papel da Câmara, porém, a história foi apresentada de modo diferente. No meio do caminho, entre a nomeação e a saída, a professora teve até aumento salarial em virtude de uma alteração de cargo. Em fevereiro de 2003, ela passou de DAI-5 para DAS-9. Saiu, portanto, da função de confiança mais básica e foi alçada à segunda mais importante e mais bem paga na estrutura dos gabinetes dos vereadores do Rio, atrás apenas do chefe de gabinete. Tudo sem nunca ter desempenhado efetivamente nenhum trabalho dentro do Legislativo. Com a correção da inflação para os dias de hoje, o salário bruto de Marta Valle nesse último cargo corresponderia atualmente a R$ 9.600, e, somado a penduricalhos que funcionários podem receber, chegaria a R$ 17 mil.

Marta Valle não foi a única a viver em Minas e ser nomeada para o gabinete do 02 do presidente Jair Bolsonaro na Câmara Municipal do Rio. Gilmar Marques, de 60 anos, viveu em Juiz de Fora e, depois, em Rio Pomba, também em Minas, onde mora até hoje. O município fica a 274 quilômetros do centro do Rio, onde ele deveria dar expediente. Marques é um pequeno empresário e representante comercial na área farmacêutica.

Ele entrou no caminho da família Bolsonaro por ter sido companheiro de Andrea Siqueira Valle, de 47 anos, fisiculturista e irmã de Ana Cristina Valle. Os dois se conheceram em Juiz de Fora, em 1999, passaram a viver juntos e ela engravidou depois de alguns meses, mas se separaram em seguida. A filha nasceu em agosto de 2000 já em Resende, no Rio — para onde Andrea havia retornado. Marques seguiu em Minas.

Mesmo separado de Andrea Valle, ele foi nomeado para o gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara dos Vereadores em 4 de janeiro de 2001. O cargo escolhido: DAS-7. Com correção inflacionária do período, o salário bruto é de R$ 7.900, e com os eventuais adicionais o total chegaria a R$ 14 mil. A nomeação de Marques perpassa mandatos. A exoneração só aconteceu sete anos e três meses depois, em 1º de abril de 2008.

ÉPOCA também conseguiu contato com Marques. E a semelhança com Marta Valle não está apenas no fato de morarem em Minas Gerais durante todo o período em que estiveram lotados na cidade do Rio. Assim como a professora, ele demonstrou surpresa ao ser questionado sobre o tempo em que aparecia lotado na Câmara Municipal carioca.

Numa conversa por telefone, a reportagem indagou a Marques se ele se recordava do gabinete em que havia trabalhado para o clã Bolsonaro e o que fazia. Ele disse inicialmente que não se recordava. Depois, outra vez indagado sobre o assunto, perguntou à reportagem se não havia algum engano em relação ao nome dele. A conversa seguiu sem que Marques também se recordasse sobre o salário que recebia. “Meu Deus do céu. Ah, moça, você está me deixando meio complicado aqui. Eu ganhava? Isso aí você deve estar enganada”, disse em alentado sotaque mineiro.

Como é possível trabalhar no Rio, no gabinete de um vereador, e morar em Minas Gerais? Mais uma vez, faltaram palavras a Marques: “Ah, moça, estou meio por fora disso”. Sobre a possibilidade de ter devolvido dinheiro do salário para o vereador, ele comentou simplesmente: “Estou por fora disso”. No momento em que foi questionado sobre se sabia que havia sido nomeado, Marques desligou o telefone.

Marta Valle e Marques não foram os únicos relacionados como funcionários que, na prática, não prestaram serviços. É uma situação que se assemelha aos casos de outros parentes que estavam, ao mesmo tempo, em diferentes gabinetes do clã bolsonarista.

A história da fisiculturista Andrea Siqueira Valle chama a atenção. Até poucos dias atrás, ela vivia em Guarapari, no litoral do Espírito Santo. Não é vista, porém, desde que o jornal O Globo publicou uma reportagem mostrando que não havia comprovação sobre a década em que constou como funcionária de Flávio. Na Alerj, ela tinha um salário bruto de R$ 7.300, além de receber um auxílio-educação de R$ 1.200. Por nove anos, jamais teve identificação funcional. Apenas em 2017 foi pedido um crachá da Alerj em seu nome. Durante esse período, sempre viveu em Resende, na casa dos fundos dos pais.

Andrea Valle, no entanto, não esteve apenas no gabinete de Flávio. Ela transitou em nomeações nos três mandatos do clã Bolsonaro entre 1998 e 2018 — 20 anos como funcionária comissionada do clã. Entre 30 de setembro de 1998 e 7 de novembro de 2006, esteve lotada como secretária parlamentar de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Dois dias depois da exoneração, foi nomeada por Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal e lá ficou até 1º de setembro de 2008 — a vaga antes pertencia a André Valle, irmão dela e de Ana Cristina Valle. Dos papéis do Palácio Pedro Ernesto, Andrea Valle passou para os da Alerj, em que foi lotada como funcionária de Flávio Bolsonaro — e lá constou por dez anos, até agosto do ano passado.

Do tempo em que esteve lotada na Câmara dos Deputados, fora as listas de frequência que o próprio Jair Bolsonaro entregava para comprovar o trabalho de seus funcionários, a casa informou a ÉPOCA não possuir nenhum registro funcional de Andrea Valle. Com gratificações, o salário bruto dela chegou a R$ 12 mil, com correção inflacionária. Ao longo desses oito anos, ela morou em Resende e, por um curto período, em Juiz de Fora, quando engravidou. Sobre o tempo no gabinete de Carlos, a Câmara não informou se ela teve crachá ou se sua frequência foi registrada. Quem a conheceu nas últimas duas décadas sabe que ela sempre se sustentou com faxinas e outros bicos, além de malhar duas ou três vezes por dia para os concursos de fisiculturismo. Hoje ela é uma mulher com medo e sérias dificuldades para se sustentar.

Além de Andrea Valle, três outros parentes também desempenhavam diversas outras atividades em Resende ou em outras cidades do sul do Rio no mesmo período em que constavam como servidores de Flávio na Alerj. Francisco Diniz, primo de Ana Cristina Valle, constou como servidor por 14 anos e chegou a cursar faculdade integral de medicina veterinária em Barra Mansa ao longo desse tempo.

Após a separação litigiosa entre Ana Cristina Valle e Bolsonaro, em 2008, amplamente noticiada na campanha eleitoral do ano passado, elafoi morar na Noruega. Há alguns anos, voltou a viver em Resende e tornou-se chefe de gabinete do vereador Renan Marassi (PPS-RJ) na Câmara de Vereadores da cidade. O prédio branco, quadrado e espelhado fica de frente para parte das construções históricas da cidade e ao lado, por exemplo, da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, construída a partir de 1812, ainda no período imperial. Foi lá que ÉPOCA localizou Ana Cristina Valle na semana passada.

Calada desde que viu sua família envolta na investigação, ela jamais respondeu a qualquer contato da reportagem quando ÉPOCA revelou o caso, em maio. Ao ser localizada nos corredores da Câmara, foi sucinta. Maquiada, com cabelo louro ao estilo Chanel, mais longo na frente e curto atrás, perfeitamente escovado, ela vestia um macacão azul-marinho talhado em malha e salto alto. Caminhando no corredor, insistiu que não queria falar sobre o caso. Nem para se defender. Eximiu-se de qualquer responsabilidade sobre o envolvimento de seus familiares na investigação sobre Flávio Bolsonaro. Ao ser questionada sobre os familiares listados no gabinete de Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro, disse que não nomeou ninguém e que, na época, “não tinha nepotismo”.

Ainda andando, Ana Cristina Valle afirmou que não se sente culpada em ver o pai, José Procópio Valle, e a irmã Andrea Valle, além dos outros parentes, alvos de um inquérito que apura peculato e lavagem de dinheiro no gabinete do ex-enteado Flávio. E se os parentes forem acusados desses crimes? “Eles vão responder”, disse. Quando ÉPOCA lhe perguntou se os funcionários eram obrigados a devolver os salários, ela abriu um sorriso e finalizou: “Não tenho nada a declarar”, disse, dando as costas, ao se despedir.

Quando Jair Bolsonaro e Ana Cristina Valle se separaram, em 2008, houve mudanças importantes nos gabinetes. A madrasta deixou a chefia de gabinete de Carlos Bolsonaro — em seu segundo mandato — em 1º de abril daquele ano. No lugar dela, no mesmo dia, foi nomeado o então estudante de Direito Guilherme Henrique de Siqueira Hudson, seu primo. Aos 23 anos, Guilherme Hudson só concluiu o curso na Universidade Estácio de Sá no final de 2008 — o que o obrigaria a conciliar as tarefas no gabinete com o final do curso.

Em 26 de agosto de 2009, Hudson enviou uma carta ao Globo , que foi publicada pelo jornal na seção do leitor. No texto, elogiou o vereador Carlos Bolsonaro e tocou em um assunto que parece ser um tema antigo para o clã: multas de trânsito. Hudson citou uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) de derrubar uma lei estadual que pretendia manter radares ligados entre 22 horas e 6 horas. “O cidadão carioca que tiver que trafegar neste horário, entretanto, não está a descoberto, pois a Lei Municipal 4.636, de autoria do vereador Carlos Bolsonaro, promulgada pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 26/9/2007, encontra-se em pleno vigor e poderá ser utilizada para anular as multas que porventura venha a sofrer”, dizia a carta assinada por Guilherme Henrique de Siqueira Hudson, Resende, Rio de Janeiro.

Ele constou como assessor-chefe de Carlos até dezembro de 2017. No entanto, ao menos desde 2012, possui residência fixa em Resende, onde casara em 2011 e abrira um escritório de advocacia, além de uma loja de decoração com a mulher, a professora Ananda de Menezes Hudson, de 31 anos. Desde 2012, o site do TJRJ mostra que ele atuou em 68 processos na região de Resende e em cinco na capital. Chegou a fazer concurso para a prefeitura de Barra Mansa, mas foi reprovado. Pessoas que o conhecem em Resende jamais souberam de seu cargo na Câmara Municipal do Rio, pois conhecem suas atividades na cidade no sul do estado. ÉPOCA esteve em seu escritório no sul fluminense e deixou mensagens, mas Hudson não respondeu. Resende fica a cerca de 170 quilômetros da capital.

No período em que Hudson é relacionado como assessor-chefe, Marta Valle foi substituída entre as assessoras de Carlos por Ananda Hudson, então namorada e agora mulher de Guilherme Hudson. Ela foi nomeada no mesmo cargo e com o mesmo salário de Marta Valle, em 1º de março de 2009. Lá ficou até agosto de 2010. Só que, em 2009, ela cursava o último ano do curso de letras na Associação Educacional Dom Bosco, em Resende. Conhecida por ser alguém que reunia a turma para atividades, marcou presença em diversos eventos locais. No portal da faculdade, foi noticiado que ela integrava, como presidente do centro acadêmico do curso de letras, a organização da campanha do agasalho em maio de 2009. Ela só concluiu o curso em novembro daquele ano. Procurada para explicar como estudava em Resende e trabalhava na Câmara, não respondeu.

Ananda Hudson foi exonerada por Carlos Bolsonaro em agosto de 2010. E, como de costume, outro familiar herdou a vaga. No lugar dela, foi nomeada Monique Hudson, cunhada de Guilherme Hudson. Ela também mantém residência fixa em Resende há pelo menos duas décadas com o marido, André Hudson, irmão de Guilherme Hudson. Ela ficou lotada no gabinete da Câmara Municipal até dezembro de 2014, mas, nesse período, também cursou letras na Associação Educacional Dom Bosco, mesma faculdade de Ananda Hudson. O casal também teve um filho, que nasceu na cidade em fevereiro de 2012. Monique defendeu o trabalho de conclusão de curso no final de 2014 sob o título O discurso feminino e a leitura semiótica do conto “A moça tecelã”, de Marina Colasanti. Jonathan David Truelove, colega de faculdade, disse que ela frequentava as aulas normalmente e era uma aluna perfeccionista. Nunca soube sobre seu cargo na Câmara de Vereadores do Rio.

Antes de Monique Hudson figurar como assessora de Carlos, o marido dela, André Hudson, também tinha constado como secretário parlamentar de Jair Bolsonaro desde 6 novembro de 2006. Como as vagas sempre ficavam entre pessoas da família, ele entrou no mesmo dia em que Andrea Valle foi exonerada, rumo à Câmara Municipal do Rio. André tem formação acadêmica em informática.

Formado pela Universidade Estácio de Sá em 2002, ele próprio descreve uma série de cursos feitos na área e detalha minuciosamente as empresas onde trabalhou em seu LinkedIn. No período em que consta como assessor de Jair Bolsonaro, ele informou na rede que trabalhava na empresa Eco Sistemas, em Resende. André Hudson descreveu suas funções como o “responsável por toda infraestrutura de TI e controle logístico da empresa Farmácia Popular de Resende e coordenação da equipe de técnicos de TI”. Depois, em fevereiro de 2008, tornou-se oficial temporário do Exército e trabalhou na área de tecnologia da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), também em Resende. Ex-colega de trabalho na Aman, Adriana Dabês disse que “ele trabalhava normalmente no Exército” e jamais soube de outras atividades. Ele só foi exonerado da Câmara dos Deputados em 9 de março de 2008. Procurados, nem André nem Monique Hudson responderam. A assessoria de imprensa do vereador Carlos Bolsonaro não respondeu aos contatos da reportagem. O Palácio do Planalto disse que não comentaria.

Infográfico da Revista Época apresenta relação de nomes ligados a nomeações da família do presidente Jair Bolsonaro, que foram objeto da reportagem 'O cabide de empregos criado pelos Bolsonaros nos últimos 20 anos'.

Infográfico da Revista Época apresenta relação de nomes ligados a nomeações da família do presidente Jair Bolsonaro, que foram objeto da reportagem ‘O cabide de empregos criado pelos Bolsonaros nos últimos 20 anos’.

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