Feira de Santana em história: A Procissão do Fogaréu | Por Adilson Simas

Procissão do Fogaréu de Feira de Santana no ano de 1997.

Procissão do Fogaréu de Feira de Santana no ano de 1997.

Os mais antigos são unânimes em afirmar que a fé tem sido a mesma durante a procissão, que no entanto, muito tem perdido em afluência e solenidade. Vamos, pois, lembrar a Procissão do Fogaréu de tempos idos, conforme editorial da Folha do Norte de abril de 1997, com a marca do saudoso jornalista e historiador Hugo Navarro Silva.

– A procissão, que ficou em nossa memória, era majestosa. À frente, com seu porte marcial, andar pausado, o Coronel Álvaro Simões Ferreira, levando a imagem do Crucificado, seguido da irmandade da Santa Casa de Misericórdia, encapuzada, numerosa e dividida em duas alas, a conduzir tochas.

Em seguida vinha o Padre Mário Pessoa, a puxar a ladainha com voz suave, mas audível à distância, tal o pesado silêncio que se fazia.

Surgia, depois, a matraca, tangida, nos intervalos, por Claudio “Macaca Fêmea”, e o bombardino, tocado por Oscar Bombardino, que dava, ao cortejo, tom lúgubre e cerimonioso. Só depois aparecia o povão, tomando toda a largura da rua, mas respeitando o espaço das principais figuras da procissão.

O cortejo saia da Matriz, entrava na Marechal Deodoro pela Travessa de Santana, ganhava a Praça João Pedreira, na direção da Prefeitura e entrava na Avenida Senhor dos Passos em cuja igreja fazia a primeira parada, seguindo pelo Beco do França, detendo-se na Igreja dos Remédios e subindo a Rua Conselheiro Franco, parava na Capela de São Vicente, desaparecida como o prédio da Pensão Universal, com a construção do Mandacaru, recolhendo à Matriz a cuja porta, todos de joelhos, contritos, entoavam  o “Senhor Deus”.

Ninguém jamais conseguiu substituir o Padre Mário na ladainha e no “Senhor Deus” da Procissão de Fogaréus cuja melodia, no decorrer do tempo, foi sendo alterada até se tornar quase irreconhecível.

Naqueles tempos mulheres não entravam na Procissão, que simbolizava a prisão e a condenação de Jesus Cristo ao martírio, fatos de que mulheres não participaram. Ficavam, elas, em grandes grupos, nas esquinas, nos passeios, precipitando-se de uma rua para outra só para ver passar aquela enorme massa de homens contritos a entoar o “ora por nobis” nas pouco iluminadas e quase desertas ruas da nossa cidade, que davam à Procissão, aspecto fantasmagóricos.

Contava-se, na época, que em tempos anteriores e mais ignários, frades estrangeiros, vermelhões de vinhaça, afastavam as mulheres da Procissão com poderosos e certeiros golpes dos pesados cordões das sotainas. Já naquela época as mulheres queriam se meter em tudo.

A procissão atraia notáveis tipos populares. Para Claudio “Macaca Fêmea”, que tocava a matraca, nas ruas, durante toda a Semana Santa, a grande glória era a de participar, de balandrau roxo, da Procissão de Fogaréus, o que também acontecia com Oscar “Bombardino”, que se preparava durante todo dia, para a Procissão, mandando às goelas boas doses de cana para temperar o sopro, que sempre saia suava e contido, como a ocasião exigia.

No meio da massa humana, que acompanhava a Procissão, entretanto, há que se destacar o grande número de cantores de todas as escalas e de todos os timbres, que ensaiava o “ora pro nobis” nas vendas, nos botecos, nos bares, reforçando as cordas vocais com aguardentes variadas, mas, principalmente com os produtos do alambique da Lapa, aproveitando o meio feriado de quinta-feira de trevas (a tarde não se trabalhava), para expandir a voz na Procissão.

O mais importante deles talvez tenha sido Euclides Alves Mascarenhas, escriturário da Prefeitura, ator do grupo teatral “Taborda”, tenor dramático e notável intérprete de “O Ébrio” de Vicente Celestino.

As transformações sofridas por Feira de Santana têm sido profundas, radicais. Tudo aqui muda rapidamente. Hábitos, costumes, trajetos, crenças, aspectos e cacoetes. Mas, nem sempre para melhor.

*Adilson Simas, jornalista, atua em Feira de Santana.

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