Resenha: Filme documentário sobre Edward Snowden revela uso da NSA para atingir Governo Rousseff e Petrobras; História apresenta exemplo de altruísmo

Cartaz do filme 'Snowden: herói ou traidor’. Documentário revela ações de um herói da pós-modernidade e de que forma e com qual finalidade o Governo Rousseff e a Petrobras foram espionados pelo Governo dos EUA.

Cartaz do filme ‘Snowden: herói ou traidor’. Documentário revela ações de um herói da pós-modernidade e de que forma e com qual finalidade o Governo Rousseff e a Petrobras foram espionados pelo Governo dos EUA.

O documentário ‘Snowden: herói ou traidor’, dirigido por Oliver Stone e lançado em 2016, está disponível na Netflix. Esse fato, associado a prisão ocorrida na quinta-feira (11/04/2019) de Julian Paul Assange, ativista australiano, programador de computador, jornalista e fundador do site WikiLeaks, trazem atualidade ao debate sobre a construção do conceito de herói na pós-modernidade e de como pessoas agem com altruísmo contra o status quo das corporações transnacionais, que atuam com apoio de governos. Outro aspecto que emerge do filme-documentário é sobre a função social do jornalismo com mecanismo de contenção do totalitarismo.

Baseado em fatos reais, ‘Snowden: herói ou traidor’ narra a trajetória de ingresso de Edward Joseph Snowden (Elizabeth City, 21 de junho de 1983) na Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos da América (EUA), apresenta trabalhos de campo e o uso de sistemas telemáticos da Agência de Segurança Nacional (NSA), em operações de espionagem clandestina cuja finalidade era levantar, de forma ilegal, informações de pessoas, empresas, instituições e governos em qualquer parte do mundo, através da internet, com objetivo de conquistar controle econômico, político e militar, ou ampliar o controle existente dos EUA.

A obra de Oliver Stone revela que entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, Snowden contactou os estadunidenses Glenn Edward Greenwald, jornalista e Laura Poitras, documentarista, com a finalidade de revelar como o Governo dos EUA violava o sigilo telemático de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Com estética textual sublime, o filme apresenta as motivações que levaram o estadunidense Edward Snowden a revelar o poderoso e ilegal esquema de gravação e uso de dados montado pelo Governo de George W. Bush (2001–2009) e que teve sequência no Governo de Barack Obama (2009–2017).

O filme demonstra, também, como emergem heróis da pós-modernidade, através da ação de pessoas altruístas, que colocam o interesse da humanidade acima dos próprios interesses pessoais e de convicções imediatas. Pessoas que, diferente de ‘Eichmann em Jerusalém’, dizem não ao mal. Outro aspecto revelado no documentário é a função social do jornalismo como instrumento na contenção totalitária que reside no Estado.

Foi através de entrevistas concedidas por Edward Snowden, em Hong Kong, ao jornalista Glenn Greenwald e a cineasta e jornalista Laura Poitras e da publicação de reportagens e documentos nos jornais The Guardian e The Washington Post, que pessoas ao redor do mundo tomaram conhecimento do violento esquema montado pelo Governo dos EUA, com uso de programas invasivos, através de redes cibernéticas na internet, com a finalidade de promover ilegal vigilância em massa.. O conhecimento dessas violações foi profundamente transformador.

Diálogos reveladores

No trecho a seguir, extraído do filme, Edward Snowden revela o funcionamento e magnitude do sistema de monitoramento montado pelo Governo dos EUA:

— Quando me colocaram para vigiar ações de terrorismo, foi uma mudança bem-vinda.

— Todos os dias eu colocava dados que é a interceptação de comunicações. Muitos deles eram americanos, o que pareceu estranho, mas você fica se lembrando de que poderia impedir um atentado com bombas e salvar milhares de vidas.

— Mas não está seguindo apenas o cara do mal, também está seguindo os metadados dele. Que são, basicamente todos os telefones com os quais ele se comunica.

— Digamos que o seu alvo é um banqueiro iraniano corrupto, que trabalha em Beirute. Então está vigiando as coisas dele, mas também está vigiando as pessoas com quem ele fala. Incluindo o primo dele, que é um dentista que mora em Buffalo. Aí você tem que vigiar todos os contatos desse cara. E a partir do terceiro contato do alvo original, você está vendo uma bartender conversando com a mãe dela sobre botox.

— Pois, a partir do 3º contato de alguém com uns 40 contatos, gera uma lista de 2,5 milhões de pessoas a serem monitoradas.

— E tem aquele momento em que você está pensando e a escala disso fica clara. A NSA está rastreando todos os celulares no mundo.

— Não importa quem você seja, todos os dias da sua vida você está num banco de dados, pronto para ser vigiado. Não apenas terroristas, países e empresas, você também.

Finalidade econômica

No trecho seguinte, Edward Snowden revela como os EUA agiram contra a Venezueza, Brasil, Governo Rousseff e Petrobras:

— E não paramos por aí. Quando dominamos as comunicações deles, começamos a ir atrás das infraestruturas físicas. Colocamos pequenos programas ocultos em usinas de energia, represas e hospitais. A ideia era de que se algum dia se o Japão deixasse de ser nosso aliado, nós o apagaríamos.

— E não foi apenas no Japão. Colocamos malwares no México, na Alemanha, no Brasil, na Áustria.

— Colocar na China eu até entendo, ou na Rússia, no Irã, na Venezuela. Mas na Áustria?

— Também somos ordenados a seguir a maioria dos líderes mundiais e diretores de indústrias.

— Seguimos acordos comerciais, escândalos sexuais e telegramas diplomáticos para dar aos EUA uma vantagem em negociações com o G8, ou vantagem sobre petrolíferas brasileiras, ou ajudar a derrubar um líder do terceiro mundo que não está cooperando.

— No fim, a verdade é que não importa a justificativa que aceite, isso não se trata de terrorismo.

— O terrorismo é a desculpa. Isso se trata de controle econômico e de controle social E a única coisa que está protegendo é a supremacia do seu governo.

Altruísmo, em benefício da humanidade

Em 18 de março de 2014, durante encontro virtual com Tim Berners-Lee, um dos criadores da internet, Edward Snowden foi questionado se estaria disposto a enfrenar um julgamento justo nos EUA e se acreditava ter valido a pena ter denunciado o esquema do governo estadunidense, Ele respondeu:

— Com certeza. Se fosse um julgamento público e justo. Infelizmente, sabemos que não é o que aconteceria, enquanto a Lei de Espionagem for usada contra delatores.

— Claro, que valeu a pena.

— Sem a informação para começar um debate público, estamos perdidos.

— As pessoas serem capazes de questionar o governo e pôr a responsabilidade nele, foi nesse princípio que os EUA foram fundados.

— Então, se quisermos proteger o nosso país, devemos proteger esse princípio.

E se seu argumento for ignorado, e se os nossos líderes não agirem? Questiona Tim Berners-Lee.

— Acredito que, se nada mudar, mais pessoas ao redor do mundo irão se erguer. Delatores e jornalistas, e cidadãos comuns também.

— E quando os que estiverem no poder tentarem esconder, confidenciando tudo, nós iremos falar sobre isso.

— E quando tentarem nos assustar, sacrificando nossos direitos humanos básicos, não nos sentiremos intimidados e não desistiremos. E não seremos silenciados.

Refugiado

Atualmente, Edward Snowden recebeu o status de refugiado na Rússia. Ele vive ao lado da esposa Lindsay Mills, em Moscou.

Após as denúncias de violação de privacidade praticadas pelo Governo dos Estados Unidos, com a cooperação das corporações estadunidenses da internet, a exemplo da Apple, Goolge, Microsoft, Yahoo e outras, Leis foram criadas criminalizando a prática.

Edward Joseph Snowden na capa da Wired, em setembro de 2014.

Edward Joseph Snowden na capa da Wired, em setembro de 2014.

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Perfil do Autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518), Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (SINJORBA), Associação Brasileira de Imprensa (ABI Nacional, Matrícula nº E-002907) e Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).