Feira de Santana em história: A Micareta de 1975 | Por Adilson Simas

Micareta de Feira de Santana no ano de 1975.

Micareta de Feira de Santana no ano de 1975.

No sábado, 14 de abril de 2007, participando do programa Primeira Página comandado por Valdomiro Silva, na Rádio Povo, abordei como tema a Micareta de 1975. Já que estamos às vésperas de mais uma folia momesca vale a pena lembrar aquela festa 44 anos depois.

No último programa fizemos uma retrospectiva sobre antigas micaretas, começando com a primeira, realizada em 1937. Hoje vamos continuar com o tema focalizando a folia momesca de 1975.

Optamos por 1975 uma vez que naquele ano alguns elementos novos foram incorporados à festa. Entre eles a eleição para a escolha do Rei Momo e a criação do mais um baile pré-micaretesco, o “Caju de Ouro”.

A micareta foi realizada de 19 a 22 de abril, mas já a partir de março a cidade entrou no clima momesco. No comercio, por exemplo, em meio a confetes e serpentinas, as lojas exibiam nas suas vitrines camisas havaianas, shortes, sandálias e principalmente mortalhas.

Naquele tempo ainda existiam os gritos de micareta. Com grande afluência de público, o primeiro aconteceu no sábado, 29 de março, na Cidade Nova e no dia seguinte repetiu-se o sucesso no Alto Cruzeiro.

Os gritos prosseguiram no dia 5 de abril na Queimadinha, dia 9 no Sobradinho, dia 12 no Jardim da Paquera e encerrando a série houve grito no dia 16 na Praça da Kalilândia. Tamanha a importância desses ensaios que muitas vezes as emissoras de rádio faziam transmissão direta.

No dia do primeiro grito no sábado de Aleluia, o Feira Tênis Clube brindou seu quadro social com o famoso baile “Uma Noite no Havaí”. Após a leitura do testamento de Judas, teve início a folia ao som da bandinha Fetecê e do trio Tapajós.

No sábado seguinte, dia 5, substituindo o baile “Ula Ula” o Clube de Campo Cajueiro realizou pela primeira vez o “Caju de Ouro” que se constituiria no maior evento divulgador não só da micareta, como da Feira de Santana.

O primeiro “Caju de Ouro” foi realizado em grande estilo. Além das ricas e luxuosas fantasias do carnaval carioca, à Feira vieram artistas da Rede Globo, inclusive os que estavam participando das novelas em exibição.

Dos nomes globais aqui estiveram Elisangela, Isabel Tereza, José Augusto Branco, Miriam Pérsia, Marina Montini. Com eles costureiros famosos como Clovis Bornay, Evandro Castro Lima e Eloy Machado.

Também no “Caju de Ouro” Vinicius de Morais, Gesse Gessy e a ex-missa Marta Vasconcelos, que ao lado de personalidades locais, como o arquiteto Juracy Dórea, formaram no júri que escolheu e elegeu as melhores fantasias em luxo e originalidade.

Naquele concurso, Charles Albert, para uns, mexicano, para outros argentinos e para nós um feirense de coração, expressão da cidade na arte da tapeçaria e da criação de fantasias, encantou os visitantes exibindo suas ricas criações concebidas em solo feirense.

No sábado, 12, uma semana antes do início oficial da micareta, aconteceu mais um elemento novo. Foi o concurso para a escolha do Rei Momo, sendo eleito Hilkias Carvalho, o conhecido Gordo do Portão, como era denominado um dos pontos de encontro dos artistas da cidade, na Praça Padre Ovídio, onde também funcionava a Gafes – Galeria de Artes de Feira de Santana. Vale frisar que até 1974 a cidade trazia Ferreirinha, Rei Momo do carnaval de Salvador, para reinar na Micareta de Feira.

Na sexta, 18, no palanque armado na Praça João Pedreira, o prefeito José Falcão da Silva coroou Silene Machado como rainha e as jovens Helena e Marizete como princesas. Já o Rei Momo recebeu as chaves da cidade.

Findo o ato simbólico, rei, rainha, princesas e autoridades se dirigiram ao Ginásio do FTC, onde com muita pluma e paetês, teve início mais um Baile dos Artistas, quando Neide Sampaio, a rainha dos artistas em 74, passou a coroa para Alvalice Mércia, a nova rainha.

De sábado a terça-feira, foi só alegria. Nas ruas, além do préstito de domingo e terça-feira, muitos blocos, cordões, escolas de samba, batucadas, e trios elétricos arrastando a multidão. Nos clubes, além de bailes no Clube Ali Babá, Clube Sesi e Clube dos Sargentos e Subtenentes, os chamados grandes clubes, Cajueiro, Tênis e Euterpe, juntos, promoveram 28 bailes.

O Tênis, presidido por Dazio Brasileiro Filho, tendo como secretário João Marinho Gomes e Eduardo Teles diretor social, brindou o associado com a decoração “Arlequim Supeestar”, bolada por Charles Albert.

No Cajueiro a Orquestra Yemanjá contratada pelo diretor social José Olimpio Mascarenhas tocou para o folião pular nos salões decorados com o tema “Aquário Musical”. Jacob Aguzzoli era o presidente.

Na Euterpe, presidida por Rubem Carvalho, além dos cantores locais como Geraldo Borges interpretando velhas marchinhas, a presença do famoso Zé Pretinho da Bahia. “Micareta na China” foi o tema da decoração.

Tranquila foi aquela micareta e não poderia ser diferente. Dias antes do início da festa, Nivaldo Tourinho, delegado de Furtos e Roubos, tratou de recolher na pensão de seu Emídio, como era chamada a Cadeia Pública, hoje Câmara de Vereadores, todos os indivíduos como passagem pela delegacia, desde o famoso “Barriga Lascada” ao perigoso “Gasparzinho”.

Por sua vez, Jurandir Fernandes, Delegado Regional, percorria os bares tradicionais do centro, como o Boteco do Regi, Boteco do Vidal, Coréia de Edgar, Katucha de Aniceto, Visgueira da Vitorino Gouveia e tantos outros vendo in loco se estava sendo cumprida sua portaria, na qual dizia ser proibida a venda de bebidas alcóolicas a pessoas que estejam em liberdade condicional.

Por fim, numa dessas visitas, ao chegar no Boteco do Regi, local preferido do pessoal da imprensa, Jurandir, sempre gaguejando, perguntou ao saudoso sargento Regi se ele estava cumprindo rigorosamente a sua portaria. Regi alisando a cabeça forrada de brilhantina goltora respondeu em voz alta e causando risos: Tô não amigo velho! Você mandou realmente a portaria e eu colei ali na parede. Mas esqueceu de mandar o álbum de fotografias, para eu poder identificar os clientes foliões que estão em liberdade condicional.

*Adilson Simas, jornalista, atua em Feira de Santana.

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